terça-feira, 27 de janeiro de 2026

 

Uma ONU reformada

(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" )) 

A verdade e a experiência ensinam que nada é tão ruim no tempo e no espaço, que deles não se possa extrair algum proveito. Talvez seja oportuno acomodar no espírito dessa sabedoria o quadro conturbado nas relações internacionais, em grande parte devido ao temperamento mercurial do presidente Trump. Pois, se nada é tão ruim, parece possível que de tudo isso nasça uma nova ordem política de convivência entre os países e seus governos. Estaria essa ordem baseada e inspirada na reformulação da Organização das Nações Unidas, que, a despeito da excelência de seus propósitos, não tem conseguido botar ordem no mundo; e a paz, ideal consagrado como o maior de seus objetivos, não consegue avançar; muito menos fazer-se respeitar. Antiga, nascido sob o calor de uma guerra mundial que acabava de acontecer, envelheceu, está a reclamar reajustes.  
O entrave maior, muito claro no curso de seguidos episódios, está no Conselho de Segurança, constituído e administrado por cinco países que, na maioria das vezes, têm responsabilidades diretas ou indiretas nos conflitos que eles mesmos geram ou deles tiram proveitos... Fundamental, portanto, seria a ampliação do número de cadeiras nesse poderoso colegiado, de maneira que ali se dê abrigo e direito de voto a todos os povos, eleitores permanentes, não apenas fortuitos ou acidentais.
(O presidente Trump jamais figurou entre os admiradores da ONU, como parte de uma conhecida aversão por instituições internacionais. A Otan e as organizações da Saúde e do Comércio são alguns exemplos. Percebe-se essa antipatia no seu projeto mais recente, o Conselho da Paz, envolvendo 60 países, unidos para a reconstrução de Gaza em ruínas, mas sem a presença dos palestinos, principais interessados, donos da terra).
Não é de agora, mas de muitos anos passados, com Juscelino, Jânio ou Fernando Henrique que o Brasil levanta uma voz ativa em nome da reestruturação desse Conselho. Somaram-se a muitas outras delegações que integram a ONU, em cujo plenário, sabem todos, nos momentos críticos a palavra final tem sotaque inglês, francês, russo ou chinês. Não há ali outro idioma quando suscitadas questões de segurança e de guerras que têm hora para começar, mas não sabem como acabar.
 Se a expansão da representatividade sempre foi uma imposição da sensatez, muito mais nestes dias em os três membros mais influentes -  Estados Unidos, Rússia e China – ensaiam transformar o globo num bolo, onde as cerejas estão na superfície ou no subsolo, e dividido entre eles: os russos com a Ucrânia e depois outros satélites; a China cada vez mais animada em tomar Taiwan e ilhas longamente colonizadas pelo Japão; e Estados Unidos, com pouco convincentes argumentos para assumir totalmente a Groenlândia, além da América Latina, que Trump tem na conta de um quintal inacessível a quem vem de outras plagas, que não sejam os ianques.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

 

Risco de campanha apática

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil"

São apenas três semanas de corridas de janeiro; se temos outros nove meses até batermos à porta dos eleitorais, fica difícil fazer estimativas sobre o clímax que vai marcar a campanha para a sucessão presidencial e como governadorias dos estados. Não há como prever nem o painel de temas que teremos pela frente. Mesmo assim, há fatores que sugerem preocupação sobre as questões que deverão ou deveriam ser postas diante dos cidadãos defrontados com as urnas. Hoje, com alguma antecedência, há justificado o temor de que grandes temas passam ao longo ou não avançam além da superficialidade.
Quem se preocupa vai lembrar que o tempo promete conspirar contra os que sonham com o eleitorado debruçado sobre as questões que mais influenciam o presente e incomodam o futuro imediato do país. Parece que as lideranças têm descuidado disso, fazendo supor que o descaso nacional acaba tendo utilidade para elas, pois o exime de prestar contas à sociedade que interessa representar. Pode ser isso. Salvo o pecado da generalização, que em política é defeito sério.
Contribuindo para distanciar o espírito cívico e as preocupações com a realidade nacional, vem o auspicioso presente do calendário civil, alegremente saudado, prometendo seis feriados prolongados, que, em ano eleitoral, são um convite à castração das grandes discussões, retiradas pelo lazer. É uma época em que multidões votantes e candidatos correm para longe, porque o ócio é convidativo.
Tirantes as gentilezas do calendário, ao lado dos feriados generosamente esticados, seguem-se carnaval e Semana Santa, graças não propícias para assuntos sérios, que acabam ficando para depois. A seguir, a prioridade da Copa do Mundo, mais firmeza neste ano.
O fato é que podemos acabar sem tempo e vagar para debates lucrativos, nem poder mergulhar fundo no que irá proporcionar aos candidatos, para melhor selecioná-los. Com prazos tão escassos, vem o perigo de julgamentos descuidados.
Tomara que se esvaziem essas preocupações, e o eleitorado, mesmo sem abrir mão dos prazeres, entre com fé e coragem na campanha. Mais que nunca, precisamos disso. Quando se arrisca dizer “mais que nunca” é porque o Brasil – não há quem possa contestar - está asfixiado numa crise moral sem precedentes. É preciso conversar muito sobre isso. 

2 – Pata atordoar, o que se sente e se vê é que as coisas não têm mais ordem; afundaram na desordem. A Justiça e suas leis naufragaram perigosamente, e nelas, nós, à deriva, já não temos como aportar as últimas esperanças. A prática da corrupção e do roubo escancarado dos negócios públicos e privados chega a um ponto em que fica sepultado o mínimo de pudor. Como fato mais recente o escândalo do banco Master, envolvendo gente dos três poderes, ministros agentes ou coniventes, o que induz a acreditar que já não há inocentes nesse mar de dejetos em que se misturam bancos, tribunais, políticas e finanças fraudulentas.
Como permitir que tamanha tragédia passe imperturbável pela campanha eleitoral? Pois corremos esse perigo, não só por graça esses fatos já comprovados, mas porque uma parte dos brasileiros prefere que o país não tenha jeito. Melhor deixar pra lá. O Brasil sepultado em cova rasa. O que seria o fim de todos os fins.
3 – Insistindo um pouco mais na temeridade da apatia, quase coletiva, sobre os temas político-eleitorais deste ano, uma outra razão causa estranheza. Em nenhuma outra campanha sucessória, nem mesmo em tempo de grandes conflitos, as relações externas mostradas-se tão interessantes para os palanques. Hoje, a opinião pública tem como acompanhar tudo o que acontece além das fronteiras, pode analisar, opinar e julgar. Seria quase bizarro que o eleitor negasse espaço a essa questão, cada vez mais desafiadora, em boa parte devido ao atletismo das incursões do presidente Trump no mundo afora.
(O chefe americano dá nítida impressão de que, ao acordar, manhã cedo, indaga a si mesmo sobre a vida de quem pretende infernizar naquele novo dia, depois da Venezuela, Canadá, Colômbia, México, China, Irã e Groenlândia. Qual o próximo, depois do café da manhã?).  

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

 

 
Mais dores de cabeça
Sobram razões para o Brasil, não apenas o governo, mas o país inteiro, alimentar preocupações com o desenrolar da crise que prospera na Venezuela. Talvez nós mais que outros latino-americanos, porque somos os vizinhos próximos, de fronteiras longas e vulneráveis, afora consequências das relações políticas com o regime de Caracas, que o Planalto cuidou de estreitar perigosamente nos últimos três anos. Não temos como escapar das complicações, que apenas começaram com o sequestro cinematográfico de Nicolás Maduro. Por que? Porque, se caiu o ditador, mantém-se de pé a ditadura, que não se abalou, dadas as limitações da oposição, lideranças contrárias amordaçadas ou presas, a imprensa silenciada; mas ainda, e principalmente, porque os dominadores que acabam de chegar sinalizam disposição de tolerar e conviver com a boa vontade dos dominados submissos, que oferecem belos presentes: de imediato, 50 milhões de barris de petróleo, restrições aos mercados hostis a Washington e garantia de que os dólares que vão entrar retornarão logo aos Estados Unidos na compra de itens indispensáveis. Nesse particular, os americanos, à sua maneira, fazem um “negócio da China”, em contraposição aos chineses, sacrificados na sua melhor fonte abastecedora de óleo... Tudo isso sob o olhar de mansidão dos generais bolivarianos, de que tanto se orgulhava o ditador. Também lá eles preferem a passividade e olhar de paisagem, quando chegam crises mais agudas. 
Quanto às preocupações nossas, a primeira é a possibilidade de novas fugas de multidões descontentes, problema que já estamos enfrentando há algum tempo. Não há como acreditar que milhares de refugiados venezuelanos, concentrados principalmente em Roraima, tenham disposição de já afivelar as malas e voltar, porque as Incertezas do outro lado da fronteira continuam enormes. Em meio ao duvidoso, melhor não arriscar. E o custo social para o Brasil crescendo.
Um pedaço das angústias também se justifica para o ano eleitoral, pois a crise venezuelana vem trazendo sua contribuição para o quadro da polarização política que estamos vivendo, e cada vez mais acentuada. Esquerda e direita são chamadas a explicar os posicionamentos que adotaram diante de um fato tão relevante na história do continente. Os governistas, para aproveitar a oportunidade, querem mostrar que a América Latina – o Brasil em particular – tem o dever de apoiar, com a força do voto livre, um vizinho violentado pelo mais forte do Norte. Até porque, a fratura que dói na Venezuela é um risco que pode se estender por todo o corpo latino-americano. Que o digam colombianos e cubanos, claramente ameaçados. Nesse sentido, Brasília já deu um tom claro no discurso contra futuras incursões da Casa Branca.
A oposição a Lula adota o mesmo figurino, mas com costura diferente. Vai trabalhar para manter viva a imagem fraternal do presidente com o ditador, além de a ele atribuir responsabilidades numa tragédia que pode se prolongar por muitos anos na região; prolongar longamente, porque Trump e seus porta-vozes insistem em que não há prazos na execução das etapas programadas para a normalização da política na Venezuela.
( A intenção é manter viva, quase siamesa, a amizade com o ditador, para que isso não caia no esquecimento do eleitor. Mas Lula, precavido, já não se refere a Maduro, morto politicamente. Nem vai mais falar nesse nome. Veteranos companheiros do Nordeste acham que ele está certo, e lembram a velha sabedoria dos coronéis do Centrão e do sertão: defunto político a gente leva até a beira da cova. Não entra nela..)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

 Armas para a campanha

Os partidos de direita e centro-direita ainda não apostam todas as fichas na real disposição do presidente Lula de tentar o quarto mandato, dúvida alimentada pela insistência com que ele confere o destino à saúde octogenária. Mas a tendência entre os próceres é admitir a candidatura, mesmo se apenas decorrente da ausência, no PT e no âmbito das alianças, de outro nome que venha carregado de potencialidades. O assunto tem figurado à mesa de jantares e convescotes direitistas, durante os quais, como tema recorrente, também são permutadas ideias e sugestões sobre a artilharia contra o possível adversário, de quem seriam cobrados o declínio das estatais, não apenas os Correios; o monumental assalto praticado contra aposentados do INSS; a insegurança pública impotente diante do crime organizado; a política externa dúbia e, sobretudo,  o consórcio do governo petista com o Supremo Tribunal Federal, o que tem poupado o presidente, como líder político, de levantar-se contra a ditadura togada, mas dela beneficiando-se em desafios pontuais.
(Não seria prudente desprezar um lance espetacular hoje imprevisto, mas que poderia consagrar o presidente para um novo mandato e para a História. Anistia política. O antecedente não está tão longe assim. Atordoado com a radicalização e as rebeliões de Aragarças e Jacareacanga, a partir de 1956, o presidente Juscelino Kubitschek fez cuidadosa avaliação das tensões da hora e do depois, preferiu desconsidera as dificuldades, as tentativas de derrubá-lo, e teve coragem para estender a mão e acolher a anistia. Não é fácil porque é coisa para grandes estadistas).   
 A questão, já no campo da estratégia da nova luta pelo poder, que acaba de entrar no seu ano decisivo, é saber se essas armas que a oposição vai empunhando surtiriam a eficácia desejada. É preciso levar em conta, para começo de conversa, que a média do eleitor brasileiro tende a relegar a plano inferior defeitos e promessas não cumpridas pelos governantes. Temos o perfil de quem prefere jogar na esperança, no futuro desejável. Ideal é uma campanha sem a discussão incômoda das dificuldades, desinteressada, por exemplo, de atravancar a corrupção avassaladora. Campanha em busca de votos acha melhor mergulhar nos sonhos, como a nova versão da picanha esfregada na farinha. Isso pode valer mais que cobrar do governo Lula o não realizado e não mais realizável.
Hoje estruturada numa maioria parlamentar, mesmo que muitas vezes titubeante, a direita não esconde, no âmago do projeto eleitoral, a intenção de também tirar proveito da radicalização da quadra política, que vai contribuir para que as urnas continuem reféns da polarização. Mas a esquerda joga com a mesma expectativa, porque a nação radical é mãe generosa para as correntes lulista e bolsonarista, esquerda e direita. Viu-se em 2024.
Longe de constituir boa expectativa para o debate político, o risco que se corre é ver o processo eleitoral confinado ao calor de paixões, sem discussão séria e qualificada dos problemas que nos cercam, todos eles a reclamar soluções desafiadoras.