terça-feira, 30 de junho de 2026

 O que falta nessas convenções?


(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Amanhã começa o mês das convenções partidárias, com prazo para se processarem entre o dia 20 e 5 de agosto. Muito importantes, porque sem elas o sistema eleitoral não admite candidaturas. O que significa ser, efetivamente, a abertura da temporada de caça aos votos, com todos os postulantes formalmente lançados.
Tempos idos, sempre havia alguém defendendo a adoção do voto avulso para o candidato sem qualquer filiação partidária, acima de convenções. Mas a ideia era logo abandonada, e os partidos, diretamente interessados, cuidavam de sepultar a novidade; e com eles acabava concordando a Justiça, temerosa de que, acima do desejável direito de o voto optar por qualquer cidadão, corria-se o risco de a apuração resultar em imensa confusão, pois seriam milhões de candidatos... 
Mas essas assembleias partidárias continuam distantes do que seria ideal. A começar por um defeito evidente, que ninguém pode negar: a finalidade de reunir convencionais tem apenas a intenção de garantir quórum para decisões já tomadas em gabinetes, onde se formatam interesses de grupos e predomina a vontade de poucos, os caciques, que decidem. E esta é uma realidade da qual fazem parte todas as agremiações políticas.
A escolha dos candidatos é algo semelhante ao prato feito, servido de acordo com a vontade dos donos da festa, que também impõem o cardápio das alianças, muitas vezes intragáveis, de difícil digestão. O convencional assiste à encenação, bate palmas e homologa, para só ser chamado dentro de dois anos, quando de nova eleição.
As convenções, diferentemente do que se vê, deviam ser periódicas, para que os filiados influíssem na gestão e no destino dos partidos, não apenas   como peça validativa em ano eleitoral.
Entendendo Trump
Não só no Brasil, em qualquer lugar do mundo civilizado encarregados dos negócios externos de seus países vivem maus momentos para analisar e entender Donald Trump; porque nunca se sabe se o que ele diz, repetidamente, é parte de meros desejos pessoais, ou se, de fato,  seu país cultiva delírios expansionistas, para mandar em tudo e em todos. Pode ser isso, a se julgar pela frequência como o presidente avança em incursões totalmente fora dos padrões da diplomacia.
Ora, se este é um cenário que se espalha mundo afora, não haveria de ser o Brasil exceção. Também aqui incomoda esse internacionalismo, já não apenas por ter a Casa Branca definido como terrorismo o nosso crime organizado, sob a alegação de que a bandidagem nacional é mais perigosa, por ser tragédia exportável, vai além das fronteiras. Uma conceituação discutível.
Mas as preocupações naturalmente se dilatam quando Washington insinua particular interesse no destino da eleição presidencial brasileira. Cabe uma interpelação, pela via do Congresso Nacional, para que Trump ou seus assessores informem se se trata apenas de simpatia por um dos candidatos, o que seria tolerável; ou, na contramão, têm real intenção de interferir no processo.
Temos direito de saber, com interlocução séria e respeitosa, não com bravatas de falso nacionalismo de palanque eleitoral e bazófias. O caminho adequado é a Comissão de Relações Exteriores do Senado. Sem tardança, porque a eleição já vai bater à porta.

O que falta nessas convenções? Amanhã começa o mês das convenções partidárias, com prazo para se processarem entre o dia 20 e 5 de agosto. Muito importantes, porque sem elas o sistema eleitoral não admite candidaturas. O que significa ser, efetivamente, a abertura da temporada de caça aos votos, com todos os postulantes formalmente lançados. Tempos idos, sempre havia alguém defendendo a adoção do voto avulso para o candidato sem qualquer filiação partidária, acima de convenções. Mas a ideia era logo abandonada, e os partidos, diretamente interessados, cuidavam de sepultar a novidade; e com eles acabava concordando a Justiça, temerosa de que, acima do desejável direito de o voto optar por qualquer cidadão, corria-se o risco de a apuração resultar em imensa confusão, pois seriam milhões de candidatos... Mas essas assembleias partidárias continuam distantes do que seria ideal. A começar por um defeito evidente, que ninguém pode negar: a finalidade de reunir convencionais tem apenas a intenção de garantir quórum para decisões já tomadas em gabinetes, onde se formatam interesses de grupos e predomina a vontade de poucos, os caciques, que decidem. E esta é uma realidade da qual fazem parte todas as agremiações políticas. A escolha dos candidatos é algo semelhante ao prato feito, servido de acordo com a vontade dos donos da festa, que também impõem o cardápio das alianças, muitas vezes intragáveis, de difícil digestão. O convencional assiste à encenação, bate palmas e homologa, para só ser chamado dentro de dois anos, quando de nova eleição. As convenções, diferentemente do que se vê, deviam ser periódicas, para que os filiados influíssem na gestão e no destino dos partidos, não apenas como peça validativa em ano eleitoral. Entendendo Trump Não só no Brasil, em qualquer lugar do mundo civilizado encarregados dos negócios externos de seus países vivem maus momentos para analisar e entender Donald Trump; porque nunca se sabe se o que ele diz, repetidamente, é parte de meros desejos pessoais, ou se, de fato, seu país cultiva delírios expansionistas, para mandar em tudo e em todos. Pode ser isso, a se julgar pela frequência como o presidente avança em incursões totalmente fora dos padrões da diplomacia. Ora, se este é um cenário que se espalha mundo afora, não haveria de ser o Brasil exceção. Também aqui incomoda esse internacionalismo, já não apenas por ter a Casa Branca definido como terrorismo o nosso crime organizado, sob a alegação de que a bandidagem nacional é mais perigosa, por ser tragédia exportável, vai além das fronteiras. Uma conceituação discutível. Mas as preocupações naturalmente se dilatam quando Washington insinua particular interesse no destino da eleição presidencial brasileira. Cabe uma interpelação, pela via do Congresso Nacional, para que Trump ou seus assessores informem se se trata apenas de simpatia por um dos candidatos, o que seria tolerável; ou, na contramão, têm real intenção de interferir no processo. Temos direito de saber, com interlocução séria e respeitosa, não com bravatas de falso nacionalismo de palanque eleitoral e bazófias. O caminho adequado é a Comissão de Relações Exteriores do Senado. Sem tardança, porque a eleição já vai bater à porta.

 

O que falta nessas convenções?

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Amanhã começa o mês das convenções partidárias, com prazo para se processarem entre o dia 20 e 5 de agosto. Muito importantes, porque sem elas o sistema eleitoral não admite candidaturas. O que significa ser, efetivamente, a abertura da temporada de caça aos votos, com todos os postulantes formalmente lançados.
Tempos idos, sempre havia alguém defendendo a adoção do voto avulso para o candidato sem qualquer filiação partidária, acima de convenções. Mas a ideia era logo abandonada, e os partidos, diretamente interessados, cuidavam de sepultar a novidade; e com eles acabava concordando a Justiça, temerosa de que, acima do desejável direito de o voto optar por qualquer cidadão, corria-se o risco de a apuração resultar em imensa confusão, pois seriam milhões de candidatos... 
Mas essas assembleias partidárias continuam distantes do que seria ideal. A começar por um defeito evidente, que ninguém pode negar: a finalidade de reunir convencionais tem apenas a intenção de garantir quórum para decisões já tomadas em gabinetes, onde se formatam interesses de grupos e predomina a vontade de poucos, os caciques, que decidem. E esta é uma realidade da qual fazem parte todas as agremiações políticas.
A escolha dos candidatos é algo semelhante ao prato feito, servido de acordo com a vontade dos donos da festa, que também impõem o cardápio das alianças, muitas vezes intragáveis, de difícil digestão. O convencional assiste à encenação, bate palmas e homologa, para só ser chamado dentro de dois anos, quando de nova eleição.
As convenções, diferentemente do que se vê, deviam ser periódicas, para que os filiados influíssem na gestão e no destino dos partidos, não apenas   como peça validativa em ano eleitoral.
Entendendo Trump
Não só no Brasil, em qualquer lugar do mundo civilizado encarregados dos negócios externos de seus países vivem maus momentos para analisar e entender Donald Trump; porque nunca se sabe se o que ele diz, repetidamente, é parte de meros desejos pessoais, ou se, de fato,  seu país cultiva delírios expansionistas, para mandar em tudo e em todos. Pode ser isso, a se julgar pela frequência como o presidente avança em incursões totalmente fora dos padrões da diplomacia.
Ora, se este é um cenário que se espalha mundo afora, não haveria de ser o Brasil exceção. Também aqui incomoda esse internacionalismo, já não apenas por ter a Casa Branca definido como terrorismo o nosso crime organizado, sob a alegação de que a bandidagem nacional é mais perigosa, por ser tragédia exportável, vai além das fronteiras. Uma conceituação discutível.
Mas as preocupações naturalmente se dilatam quando Washington insinua particular interesse no destino da eleição presidencial brasileira. Cabe uma interpelação, pela via do Congresso Nacional, para que Trump ou seus assessores informem se se trata apenas de simpatia por um dos candidatos, o que seria tolerável; ou, na contramão, têm real intenção de interferir no processo.
Temos direito de saber, com interlocução séria e respeitosa, não com bravatas de falso nacionalismo de palanque eleitoral e bazófias. O caminho adequado é a Comissão de Relações Exteriores do Senado. Sem tardança, porque a eleição já vai bater à porta.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

 

U bom costume 

(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Em outros tempos era assim. Ao servidor público graduado, notadamente se exercesse mandato eletivo, recomendava-se que, estando sob suspeita de ato ilícito, deixasse imediatamente a carga ou função, ainda que pretextando inocência. E distante permanência, à espera da conclusão das sindicâncias, se foi feito ou não. Agia por conta própria, sem necessidade de insinuações para desocupar a cadeira. Era um bom traje. Não é mais.
Jaques Wagner desviou-se da liderança do governo no Senado, quando um ministro do Supremo Tribunal e da Polícia Federal concluiu que são graves as suspeitas de suas relações com o Banco Master, por ele defendido com ânimo no Congresso, além de ser simpático a outros interesses do banqueiro Daniel Vorcaro. Afastando-se, evitaria constrangimento para o presidente da República, que, em nome de uma amizade que vai para mais de 40 anos, não teve outro remédio: cozinhar o caso em fogo brando, esperar que se arrefeçassem as calorias da hora, e o problema milagrosamente pudesse esvaziar-se por si mesmo.
Ou, então, torcer para que o problema recente seja esquecido, por força de outras crises prontas para morrer. No Brasil há sempre um escândalo na fila, esperando vaga para ocupar vagas e manchetes. Nas últimas semanas, Wagner foi antecedido por Ciro Nogueira, Hugo Mota, Alcolumbre, com gravação digital na carteira de Vorcaro. Agora, sai Flávio entra Wagner. Quem virá depois?  
Chegou a hora que pode ser decisiva para o desfecho, tanto quanto possível menos doloroso para a vida do governo. A desvantagem é evidente, quando algumas vozes mais credenciadas sobem a rampa com o dever de anunciar. É preciso correr contra o tempo, porque o caso Wagner empurra o presidente contra duas paredes, onde pode dar perigosas cabeçadas. Dois problemas. O primeiro é que, sendo o líder moralmente desautorizado, as dificuldades e o custo das tramitações no Senado podem sair do controle, considerando-se que a gestão Lula já caminha maus pedaços na Casa. Quanto à sorte dos vetos, nem se fala.
A segunda dificuldade é que, nesse episódio, sai esfolada a candidatura do senador ao governo da Bahia, onde brota uma preocupação particular para o presidente e seu PT: ali, pelo menos até agora, fora de Wagner não há salvação; e um desempenho insuficiente entre os baianos pode comprometer o destino petista neste 2026.
Por dedução
 
Nos altos escalões ficou definido que pecam por palidez e brandura como propostas de delação com que o banqueiro pretende aliviar suas diferenças com a justiça, melhorando as condições do cárcere. Duas tentativas frustradas, como também desconsideradas são as intervenções dos defensores no seu esforço para o acordo de premiação.
Deduz-se. O ministro Mendonça e a Polícia Federal sabem muito sobre as fachadas do Banco Master. Podem dispensar delações, o que parece claro, quando chegam à jugular do poder, e batem à porta do líder do governo no Senado, um passo poderoso no terreno das amizades estreitíssimas que o banqueiro teme nomear.  
Vorcaro deve se abrir de vez. Nada mais a perder, mas talvez ainda possa ganhar alguns pontos no balanço final dessa tragédia.
Hora de cuidar do próprio destino, esquecer amigos tão generosamente beneficiados, e que agora o abandonam.
Já que há pouco conversamos da Bahia ao banqueiro convém lembrar de Quincas Berro D'Água, personagem de Jorge Amado: chega a hora em que cada um cuide de seu próprio enterro, porque o impossível não há...

terça-feira, 16 de junho de 2026

 

Nada mais escandaliza

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Uma coisa muito grave, acentuada a cada dia mais, é a triste constatação de que o país vai perdendo sua capacidade de escandalizar-se, deixando correr, por conta do inevitável, fatos e situações da maior gravidade, tal como se dá com o império da corrupção. Vive-se uma quadra em que tudo é natural ou inevitável. Deixar como está.
Nessa rota, espantou muito, pela gravidade e pela carência de desdobramentos imediatos, a confissão, quase patética, do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, declarando que o Brasil desceu a uma total incapacidade de manter a soberania territorial frente a qualquer nação agressora. Não há mais como preservar sua integridade, porque o que temos de munição se esgota dentro de 30 dias. Não há peças de reposição e é total a carência de combustíveis. O que significa que nossos tanques, ou apodrecem nos quartéis, ou consumiriam 50 dias para atravessar alguns estados, e chegar ao inimigo que estivesse distante. Os aviões não podem voar, os navios com as amarras atracadas. O quadro, traçado pelo ministro, foi um desabafo diante de generais comandantes calados. Deviam, ao menos, explicar como fica o ânimo da tropa e das escolas de formação de oficiais.
 (Pois é diante dessa paisagem sombria que decidimos debochar do destino e da sorte, vendendo as armas ainda prestáveis que fabricamos, para que os vizinhos se fortaleçam...)
Doutor Múcio não disse, nem lhe foi perguntado, se a Presidência da República tem ciência desse caos, e, se não o ignora, quais as medidas de urgência a serem tomadas. Faz sentido, porque, em plena campanha eleitoral, um dos temas favoritos do governo tem sido a luta pela soberania, depois que os Estados Unidos entraram na órbita nacional para decidir que, no Brasil, crime organizado é o mesmo que terrorismo.
Em qualquer lugar do mundo onde o encarregado da segurança nacional confesse tamanha indefesa a consequência lógica estaria na decretação de estado de emergência. Não sendo a assim, ele se veria na contingência de demitir-se, já que nada pode fazer no cargo que ocupa.  
Com o Brasil de tal maneira desagasalhado de segurança, quadro tão grave justificaria a convocação extraordinária do Congresso; mais ainda porque o ministro foi além, ao agravar sua fala indicando quais são os nossos pontos mais frágeis na eventualidade de uma invasão. Mostrou as pegadas da fragilidade. Ficou exposto, pela voz mais credenciada, que a região Norte vive totalmente desprovida de blindagem, não sendo diferente a realidade das vastas fronteiras. Um permanente aceno aos maus vizinhos, afiançou o ministro da Defesa.
(Um caso de risco concreto estaria na recente ameaça da Venezuela de  conquistar a região de Essequibo, na Guiana. Se partisse para a aventura, teria, forçosamente, de transitar por território brasileiro, e não haveria como impedir a ofensa).
É triste saber de tudo isso.

terça-feira, 9 de junho de 2026

 

Conversa com mineiros

(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

 O que se tem lido, com frequência, nos analistas do momento político, é que posicionamentos em relação às candidaturas à Presidência da República esbarram nas lideranças mineiras, que têm, entre suas habilidades, a capacidade de esgotar o tempo dos fatos e das paciências, para, ao fim e ao cabo, tirar bons proveitos. Lula e o PT estão em areias movediças ali, sabendo que não viabilizam a candidatura de Rodrigo Pacheco ao governo do Estado, e ficam sem palanque. Confirmado que, quando se trata de assuntos regionais, não há diferenças essenciais entre direita e esquerda, até porque a virtude da prudência tem antiga vocação para o centro e horror aos extremos. Minas demora a decidir, e, se decide, não quer dizer que a verdade aparente é a que está valendo.    
Sendo assim, não é missão das mais fáceis conversar sobre política com o mineiro, dizia Saulo Ramos, ministro no governo Sarney, porque nunca se sabe exatamente o que ele pensa ou no que quer que seu ouvinte acredite. Muito antes já se conhecia o desabafo do governador Carlos Lacerda com seu companheiro udenista Bilac Pinto, numa reunião que se desenrolava no palácio Guanabara: “Em conversa com ele nunca se sabe onde ela vai acabar, mas sabe-se que o fim nada tem a ver com o começo”...
Na verdade, vem de mais longe a preocupação com essa lábia política. Quando D Pedro I saiu em viagem para Vila Rica, advertiu-o José Bonifácio: “Não se fie Vossa Alteza Real o que diz aquela gente, que faz de preto o branco, pretendendo mercês”...
2 – Seja pelo raposismo ou pelas manhas montanhezas, diz-se que, se alguém chegou à Presidência da República, é porque passou pelo crivo do Estado, e lá foi majoritário. Exceção, em sete décadas, ficou por conta da eleição de 1950: Getúlio, do PTB, ganhou no Brasil, mas lá a maioria ficou com Eduardo Gomes, da UDN.  Acresce que, além de contribuir no destino de tantos exitosos, foi também onde vicejou a “prata da casa”, com dez presidentes genuinamente mineiros, desde Afonso Pena.
E ficou essa fama, a toda hora repetida. Se ganhou lá, pode preparar o terno da posse, crença sustentada em um único embasamento, além de figurar como segundo colégio eleitoral do país: é o fato de ser morada da miscigenação nacional. Gente de todas as partes chega para respirar algum tempo, e milhares não saem mais. Tancredo Neves tinha uma explicação de perfil socio-demográfico: Minas é onde termina o progresso do sul e começa a pobreza do norte, dizia ele.
(Essa crença, ainda que estimulada com vários desempenhos que ficaram na História, não pode desconsiderar que as lideranças de hoje não conservaram o antigo chame político de Antônio Carlos, Milton Campos, Pedro Aleixo e Juscelino. E nem a arte do velho PSD, que praticava a política condescendente no adjetivo e intransigente no substantivo).
3 – Quando veio 1989, as lideranças disparadas na busca de espaços na esteira da redemocratização, nada menos de 22 candidatos à cadeira de presidente. Os adeptos da tese de que “Minas resolve” foram buscar confissão de culpa em Leonel Brizola, derrotado, no segundo turno, por Fernando Collor, por menos de 500 mil votos. Uma diferença que o bairrismo facilmente teria vencido se seu vice fosse Hélio Garcia, dos rincões de Santo Antônio do Amparo, não o pernambucano Fernando Lyra.   

quarta-feira, 3 de junho de 2026

 

“O terror é nosso” 

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
Foi dito aqui, poucas semanas atrás, que o tapete vermelho estendido ao presidente Lula, em Washington, estava longe de ser o bastante para dissimular a realidade conhecida nos meios diplomáticos: os homens influentes do governo Trump e ele próprio não se alinham entre os mais simpáticos à gestão do PT; na verdade, sempre tiveram no presidente e seu partido boas fontes para contrastar com a política de Brasília. Pois a melhor oportunidade aconteceu agora, ao se oficializar a diferença essencial entre terrorismo e o crime organizado das siglas PV e PCC. Na visão nacional que temos disso, contrariando os americanos, a dessemelhança é flagrante, além representar, contra nós, uma ponte aberta a pretextos intervencionistas. O temor é que uma guerra de traficantes na Maré ou no Moro do Alemão, por exemplo, faça os marines se sentirem credenciados para o desembarque, sob a alegação de que a força militar substitui a fragilidade dos recursos policiais que temos. Como na Venezuela, sem embargo das imensas diferenças.
Estando claro o desacordo, aberta a cisão, é preciso raciocinar com objetividade e sem atropelos, quanto às reações adequadas, até porque há que se considerar a intercorrência de um peso político na atitude de Washington, apressada em marcar, para dentro de três dias, a contagem do tempo em que passa a viger o novo enquadramento. Se há alguém que desconheça a presença desse peso, lembremo-nos que a novidade viajara, horas antes, na mochila do senador Flávio, credenciado pelo sobrenome Bolsonaro, e candidato da oposição ao governo petista.
A assessoria de Trump nem se preocupou em adotar cuidados para disfarçar a simpatia pela direita e por seu candidato na eleição de outubro, além de desconsiderar a pregação nacionalista de Lula: “dos nossos terroristas cuidamos nós”. Seria isso o suficiente para enterrar a “química”?, que os petistas celebraram nos afagos dos encontros anteriores entre os dois presidentes. O tempo dirá.
2 - Se o distanciamento está construído, e os dois países impedidos de retroceder, importante é o governo não se dar por contente com notas de protesto e rompantes patrióticos; mas, muito mais que isso, organizar-se corajosamente para desafiar e enfrentar o terror, adotar iniciativas bem cuidadas, vedando-se, como consequência, as intromissões externas, ainda que inspiradas nos interesses da segurança continental.
Seria uma boa hora para mostrar aos Estados Unidos que o Brasil pode reagir ao crime, sem importar receitas. Responder, com bons resultados, à política antiterrorista que eles nos impõem; a mesma que desejaram e não deram certo no México, Colômbia e Honduras.
3 - À primeira vista, é partir logo para uma ação conjunta dos três poderes, longe de deixar tudo centrado no que o Executivo puder fazer nas fronteiras para inibir a passagem de drogas e armas. Tarefa comum a nós e aos vizinhos, como primeiro passo na luta contra o banditismo, que entra no Brasil e aqui vai criando associações que assolam as capitais e grandes centros, onde o crime organizado desafia as leis, cobrar impostos, delimita seus próprios territórios, executa desafetos e comanda as redes de tráfico.
Se a resposta a esse estado de coisas longe está de só depender de ações policiais, também se espera a responsabilidade do Judiciário, que muitas vezes expõe condescendência com poderosos do crime, pela via dos habeas corpus e dos favores das decisões monocráticas.  
Cota não menos importante na missão vai sobre o Congresso Nacional, onde continua esquecido o clamor pela atualização dos códigos e seu ajustamento às realidades do país, já sabido que o crime é filho dileto da impunidade, envelhecido à sombra de leis superadas.  
Outra questão, esta desafiadora para nossos diplomacia. O comportamento do atual governo em relação ao terrorismo nos distanciou de outras doze nações latino-americanas vizinhas ou distantes, quando entrou em causa a visão global sobre um mesmo problema. Entendem aquelas que a conduta adequada está no receituário elaborado por Washington. Nesse entendimento estamos separados; mas, se os desafios são idênticos, fica mal insistir no desacordo e não procurar o alinhamento. É preciso trabalhar na remoção da diferença, que contraria amistosas coincidências da diplomacia.  
Para tais objetivos, conspira, desfavoravelmente, o fato de restarem apenas sete meses ao governo Lula. Não seria no apagar das luzes que avançaria em soluções contra o problema, a poderosa rede do crime, seja terrorista transnacional, como querem os americanos, seja uma questão doméstica, como deseja o Planalto. Mas já terá feito alguma coisa, no pouco tempo que lhe resta, se mostrar que, se não andou, pelo menos conhece o caminho das pedras. Sabe muito bem onde começa e mora o mal.

terça-feira, 26 de maio de 2026


Nas eras da perplexidade

(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Não foi possível reter o nome do promotor da Justiça do Rio Grande, recentemente, quase centenário, que, num programa de televisão, com os braços abertos, perplexo, disse que a nação sucumbiu, definitivamente, sob a maré alta da corrupção. E lembrava que nem aos tribunais, aos quais serviram longamente, podem-se agora confiar, porque também eles prevaricam ou permitem transgressões criminosas. O promotor acabou demonstrando que parlamentares honestos participaram das sessões legislativas trajando terno preto, em sinal de tristeza... Ou, como no passado, costurar o fumo preto de crepe na manga do paletó, sinalizando o luto.
Por falar em símbolos, seja qual for uma campanha moralizadora, é importante, antes de tudo, inventar um deles para motivá-la. Vem à lembrança fato ocorrido em junho de 1982, quando, empenhado em reeleger-se, o deputado mineiro João Herculino, do PTB, propôs a ratoeira como a marca de sua campanha, porque entendeu que a corrupção avançara demais em Minas e, como fogo de morro acima, alastrara-se por todo o Brasil. Muito antes do promotor veterano gaúcho, já se assustava. A sugestão da armadilha seria o caminho “para prender os ratos que hoje infestam a vida pública”. O que mudou?  
2 – Com maior ou menor intensidade, em todos os tempos em que repugna, a corrupção prosperou, para agravar-se, deixando de ser o assalto direto aos cofres e bolsos, para vestir-se de manobras de poder e defesa de interesses privilegiados. O dinheiro e as palavras do poder público chegam por vias indiretas, às vezes com sofisticação ou simuladas. Nesse particular a Câmara dos Deputados tem marcado singular destreza e malabarismo, concorrendo com si mesma no campeonato sinistro de inciativas que desprezam o mínimo de pudor. Não foi outra a impressão que deixou ao votar, ao arrepio de discussões e melhores estudos, um criminoso afago aos partidos políticos, não apenas perdoá-los pelas irregularidades acumuladas que praticam, como os estimula a descumprir a lei, desconhecer a ética e passar por cima dos interesses da sociedade. Sem faltar um contraste: ao mesmo tempo em que se criam barreiras e dificuldades para tolerar atrasos nos compromissos de produtores inadimplentes, os deputados dão aos partidos quinze anos para que empurrem, sem multas, as que não honrarão. Mais ainda, decidem considerar caducos processos de três anos não julgados, entre outros escândalos, como cegar o Fundo Partidário de eventuais multas. Não fosse suficiente a contemporização com o crime, os deputados vão além, excedendo-se na audácia, para estabelecer que o rosário de gentilezas estende-se às legendas que se agrupam em federações, estas rebaixadas ao papel de covil. Um festival de generoso autoperdão.
3 – Um detalhe ardiloso, que se repete, é quando os parlamentares, buscando livrar-se dos incômodos do desgaste junto à opinião pública, usam a ordem regimental legislativa, e empurram para o Senado o ato final de seus tropeços. Ou, mais à frente, tente escapar sob a capa da sanção presidencial. Senado e Presidência da República que se virem!...
Alguns senadores já se manifestaram enojados com a decisão da Câmara e prometem reagir. Mas não cabe esperar muito, porque também eles são filiados, dependentes de partidos, que os abrigam, e por isso podem frequentar o Fundo Partidário.