“O terror é nosso”
((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
Foi dito aqui, poucas semanas atrás, que o tapete vermelho estendido ao presidente Lula, em Washington, estava longe de ser o bastante para dissimular a realidade conhecida nos meios diplomáticos: os homens influentes do governo Trump e ele próprio não se alinham entre os mais simpáticos à gestão do PT; na verdade, sempre tiveram no presidente e seu partido boas fontes para contrastar com a política de Brasília. Pois a melhor oportunidade aconteceu agora, ao se oficializar a diferença essencial entre terrorismo e o crime organizado das siglas PV e PCC. Na visão nacional que temos disso, contrariando os americanos, a dessemelhança é flagrante, além representar, contra nós, uma ponte aberta a pretextos intervencionistas. O temor é que uma guerra de traficantes na Maré ou no Moro do Alemão, por exemplo, faça os marines se sentirem credenciados para o desembarque, sob a alegação de que a força militar substitui a fragilidade dos recursos policiais que temos. Como na Venezuela, sem embargo das imensas diferenças.
Estando claro o desacordo, aberta a cisão, é preciso raciocinar com objetividade e sem atropelos, quanto às reações adequadas, até porque há que se considerar a intercorrência de um peso político na atitude de Washington, apressada em marcar, para dentro de três dias, a contagem do tempo em que passa a viger o novo enquadramento. Se há alguém que desconheça a presença desse peso, lembremo-nos que a novidade viajara, horas antes, na mochila do senador Flávio, credenciado pelo sobrenome Bolsonaro, e candidato da oposição ao governo petista.
A assessoria de Trump nem se preocupou em adotar cuidados para disfarçar a simpatia pela direita e por seu candidato na eleição de outubro, além de desconsiderar a pregação nacionalista de Lula: “dos nossos terroristas cuidamos nós”. Seria isso o suficiente para enterrar a “química”?, que os petistas celebraram nos afagos dos encontros anteriores entre os dois presidentes. O tempo dirá.
2 - Se o distanciamento está construído, e os dois países impedidos de retroceder, importante é o governo não se dar por contente com notas de protesto e rompantes patrióticos; mas, muito mais que isso, organizar-se corajosamente para desafiar e enfrentar o terror, adotar iniciativas bem cuidadas, vedando-se, como consequência, as intromissões externas, ainda que inspiradas nos interesses da segurança continental.
Seria uma boa hora para mostrar aos Estados Unidos que o Brasil pode reagir ao crime, sem importar receitas. Responder, com bons resultados, à política antiterrorista que eles nos impõem; a mesma que desejaram e não deram certo no México, Colômbia e Honduras.
3 - À primeira vista, é partir logo para uma ação conjunta dos três poderes, longe de deixar tudo centrado no que o Executivo puder fazer nas fronteiras para inibir a passagem de drogas e armas. Tarefa comum a nós e aos vizinhos, como primeiro passo na luta contra o banditismo, que entra no Brasil e aqui vai criando associações que assolam as capitais e grandes centros, onde o crime organizado desafia as leis, cobrar impostos, delimita seus próprios territórios, executa desafetos e comanda as redes de tráfico.
Se a resposta a esse estado de coisas longe está de só depender de ações policiais, também se espera a responsabilidade do Judiciário, que muitas vezes expõe condescendência com poderosos do crime, pela via dos habeas corpus e dos favores das decisões monocráticas.
Cota não menos importante na missão vai sobre o Congresso Nacional, onde continua esquecido o clamor pela atualização dos códigos e seu ajustamento às realidades do país, já sabido que o crime é filho dileto da impunidade, envelhecido à sombra de leis superadas.
Outra questão, esta desafiadora para nossos diplomacia. O comportamento do atual governo em relação ao terrorismo nos distanciou de outras doze nações latino-americanas vizinhas ou distantes, quando entrou em causa a visão global sobre um mesmo problema. Entendem aquelas que a conduta adequada está no receituário elaborado por Washington. Nesse entendimento estamos separados; mas, se os desafios são idênticos, fica mal insistir no desacordo e não procurar o alinhamento. É preciso trabalhar na remoção da diferença, que contraria amistosas coincidências da diplomacia.
Para tais objetivos, conspira, desfavoravelmente, o fato de restarem apenas sete meses ao governo Lula. Não seria no apagar das luzes que avançaria em soluções contra o problema, a poderosa rede do crime, seja terrorista transnacional, como querem os americanos, seja uma questão doméstica, como deseja o Planalto. Mas já terá feito alguma coisa, no pouco tempo que lhe resta, se mostrar que, se não andou, pelo menos conhece o caminho das pedras. Sabe muito bem onde começa e mora o mal.