Conversa com mineiros
(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
O que se tem lido, com frequência, nos analistas do momento político, é que posicionamentos em relação às candidaturas à Presidência da República esbarram nas lideranças mineiras, que têm, entre suas habilidades, a capacidade de esgotar o tempo dos fatos e das paciências, para, ao fim e ao cabo, tirar bons proveitos. Lula e o PT estão em areias movediças ali, sabendo que não viabilizam a candidatura de Rodrigo Pacheco ao governo do Estado, e ficam sem palanque. Confirmado que, quando se trata de assuntos regionais, não há diferenças essenciais entre direita e esquerda, até porque a virtude da prudência tem antiga vocação para o centro e horror aos extremos. Minas demora a decidir, e, se decide, não quer dizer que a verdade aparente é a que está valendo.
Sendo assim, não é missão das mais fáceis conversar sobre política com o mineiro, dizia Saulo Ramos, ministro no governo Sarney, porque nunca se sabe exatamente o que ele pensa ou no que quer que seu ouvinte acredite. Muito antes já se conhecia o desabafo do governador Carlos Lacerda com seu companheiro udenista Bilac Pinto, numa reunião que se desenrolava no palácio Guanabara: “Em conversa com ele nunca se sabe onde ela vai acabar, mas sabe-se que o fim nada tem a ver com o começo”...
Na verdade, vem de mais longe a preocupação com essa lábia política. Quando D Pedro I saiu em viagem para Vila Rica, advertiu-o José Bonifácio: “Não se fie Vossa Alteza Real o que diz aquela gente, que faz de preto o branco, pretendendo mercês”...
2 – Seja pelo raposismo ou pelas manhas montanhezas, diz-se que, se alguém chegou à Presidência da República, é porque passou pelo crivo do Estado, e lá foi majoritário. Exceção, em sete décadas, ficou por conta da eleição de 1950: Getúlio, do PTB, ganhou no Brasil, mas lá a maioria ficou com Eduardo Gomes, da UDN. Acresce que, além de contribuir no destino de tantos exitosos, foi também onde vicejou a “prata da casa”, com dez presidentes genuinamente mineiros, desde Afonso Pena.
E ficou essa fama, a toda hora repetida. Se ganhou lá, pode preparar o terno da posse, crença sustentada em um único embasamento, além de figurar como segundo colégio eleitoral do país: é o fato de ser morada da miscigenação nacional. Gente de todas as partes chega para respirar algum tempo, e milhares não saem mais. Tancredo Neves tinha uma explicação de perfil socio-demográfico: Minas é onde termina o progresso do sul e começa a pobreza do norte, dizia ele.
(Essa crença, ainda que estimulada com vários desempenhos que ficaram na História, não pode desconsiderar que as lideranças de hoje não conservaram o antigo chame político de Antônio Carlos, Milton Campos, Pedro Aleixo e Juscelino. E nem a arte do velho PSD, que praticava a política condescendente no adjetivo e intransigente no substantivo).
3 – Quando veio 1989, as lideranças disparadas na busca de espaços na esteira da redemocratização, nada menos de 22 candidatos à cadeira de presidente. Os adeptos da tese de que “Minas resolve” foram buscar confissão de culpa em Leonel Brizola, derrotado, no segundo turno, por Fernando Collor, por menos de 500 mil votos. Uma diferença que o bairrismo facilmente teria vencido se seu vice fosse Hélio Garcia, dos rincões de Santo Antônio do Amparo, não o pernambucano Fernando Lyra.