Morrendo
pela boca
O fato de 12
países da América Latina viverem, hoje, sob governos de direita,
ideologicamente contrários ao Brasil e ao México, estes identificados como
modelos esquerdizantes, recomenda que nossa chancelaria se desdobre em esforços
para não aprofundar divergências com as capitais que seguem linhas políticas diferentes.
Já temos problemas demais. A percepção dessa realidade levou o comando brasileiro
a não estimular um conflito diplomático com a Argentina, depois que o
presidente portenho definiu o colega brasileiro como figura menor, com agravante
de ofender a hospitalidade numa terra que não é a dele.
(Para guardar
o insulto na geladeira é certo que ajudou o fato de os costados de Lula estarem
imunizados contra agressões, venham elas de onde vierem (mesmo seu vice,
Geraldo Alkmin, já disse contra ele coisa pior do que disse o visitante)
No caso recente,
melhor que entrasse em cena, como efetivamente se verificou, o velho remédio
dos panos quentes; o dito pelo não dito, as relações comerciais preservadas.
Acresce outro fato, não menos importante: na atual conjuntura, um revide
brasileiro, tão desejado por setores radicais, contribuiria para engrossar a natural
liderança de Milei no clube dos governos latinos de direita. Além do detalhe
suplementar de que o líder argentino, brigando com Lula, adiciona mais alguns
pontos nas simpatias de que desfruta nos Estados Unidos. Porque não constitui surpresa,
em nenhuma capital do continente, que tudo que venha contrariar o governo
petista do Brasil resulta em bom grado dos gabinetes da Casa Branca.
Compreende-se,
portanto, o caminho da tolerância e a opção por esvaziar o incidente, reduzindo-o
à formalidade das consultas diplomáticas e troca de embaixadores, em oposição ao
mau humor dos revanchistas, que não são poucos entre governistas e aliados. Gostariam
de enforcar Milei no velho cadafalso que guarda históricas divergências entre
os dois países, muito além do futebol.
2 - A gente
se inclina a achar que os grandes males do momento são obra ingrata da falência
da palavra; ou, antes, culpa das golfadas de descuidos que escapam da boca dos
líderes políticos em suas frequentes incursões nas relações internacionais. Lamentável
lembrar que caíram nas desmemórias os tempos em que elas eram medidas com
extremo cuidado, para que não se prestassem a impasses entre os povos. Hoje, a
realidade é outra. Para se constatar isso, nem é preciso sair da América.
Nos Estados
Unidos, o presidente Trump revela enorme capacidade de gerar tensões,
indistintamente entre amigos e adversários, pelo que diz, ou, não menos grave,
pelo que desdiz, logo em seguida. Próximo, um pouco mais ao sul, Ortega, da
Nicarágua, anda pior, vai mais longe, ao colocar a palavra a serviço da
insolência, e com ela proclamar a desnecessidade de eleições, pois prefere
manter sua ditadura no nível do poder doméstico, que divide com a mulher.
3 – Nessa linha de desmazelos com as palavras oficiais, o
Brasil jamais seria acusado de estar ausente. O presidente Lula, com
animada repetição, prima por dar
liberdade total ao repertório; e, ainda agora, divide com o governo de Assunção
os desgastes criados com os argentinos. Feriu o orgulho do Paraguai,
equivocando-se ao condenar o vizinho por invadir o Brasil na Tríplice Aliança.
Quem estuda nossa campanha naquela guerra sabe que o melhor que fazemos é não
mexer no assunto, porque praticamos ali coisas horríveis que podíamos esquecer.
Os fieis amigos – onde estão? - fariam bem se atualizassem o presidente com a
realidade histórica.