terça-feira, 12 de maio de 2026

 Negócios da China


 ( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Fecharam uma semana vazia conforme especificado de que o recente encontro dos presidentes Trump e Lula estaria marcado por troca de farpas e ressentimentos, quando, na verdade, ele resultaram, ao menos para aparências imediatas, recepção gentil e cordialidades em tapete vermelho. Esse clima pode ter contrariado não apenas alguns assessores do hospedado, tradicionalmente antipáticos às causas brasileiras, como também desanimou grupos políticos de direita e de esquerda, que apostaram em divergências e convergências para influências no processo eleitoral.
O Brasil, por si só, não figura no primeiro plano dos interesses dos Estados Unidos. Mas os interesses econômicos vão além. Então, o que deve ficar exposto, salvo melhor juízo, é que a reunião de quinta-feira foi um panorama de fundo, ainda não totalmente à mostra, para a real intenção de Washington, que é trabalhar para conter a ação dos chineses na América Latina, a começar por nós, que aí figuramos como referência central e principal. Brasília é fundamental para fazer esse projeto prosperar.
(O presidente Trump não ignora que a China ampliou, em quase 40%, nos últimos três anos, seus investimentos em território brasileiro, e não pode negar que, tratando-se do principal concorrente, é um dado significativo a considerar. Uma afronta no que ele considera sermos o seu quintal...)   
Essa presença ganha dimensão quando os interesses asiáticos se concentram no solo, na água, nas fontes energéticas e nos metais estratégicos; principalmente estes, porque a produção tecnológica vai se aperfeiçoando com notável rapidez.
Um grupo de trabalho, com constituição paritária, vai dar encaminhamento às pretensões que Lula deixou em Washington, como a remoção da sobretaxação que prejudica nossos exportadores. Esse expediente ainda pode servir para novas pressões, se permitir, ou afrouxadas, como favor recíproco a menores liberalidades nas relações sino-brasileiras.
2 - A comitiva presidencial que retornou de Washington voltou para casa convencida de que ao governo americano não moveu qualquer intervenção de influência na eleição presidencial de outubro. Apenas uma impressão, longe de ser constatação, principalmente porque o governo de hoje contrasta, ideologicamente, com a estatueta de Tio Sam. É uma realidade que os sorrisos presidenciais não removem. Ninguém desconhece nossos corredores da Casa Branca que assessoram diretamente e influenciam no gabinete de Trump e ele próprio torcem, com dissimulações, pela vitória de Flávio Bolsonaro; como torceriam por qualquer outro que pudesse arranhar o projeto de reeleição de Lula. Longe de ser um jogo ostensivo, essa preferência nem precisa ser indicada a setores influentes da economia, da política e nas salas diplomáticas, que entendem, sem que seja preciso que alguém lhes diga com total clareza.

terça-feira, 5 de maio de 2026

 


A palavra está em crise

(((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

A passagem, hoje, do Dia da Língua Portuguesa, não desperta maiores reflexões, mas serve, ao menos, para se lamentar o progressivo mau uso da palavra nas escarpas políticas e nos tribunais deste país. Se o bem falar está quase falido mundo afora, não menos entre nós, desmentindo o poeta Virgílio Ferreira, para quem a palavra faz parte do idioma “um bem precioso que une os povos que o mar separa”. Fato é que, falada ou escrita, ela vem separando e dividindo, denunciando e ofendendo, gera crises e afeta o mínimo de harmonia entre os poderes constituídos. Outra coisa não se constata, por exemplo, nesse bate-boca rasteiro entre o ministro Gilmar Mendes e o ex-governador mineiro Romeu Zema, que também divergem sobre o modo de falar. A palavra ainda padece no baixo calão que desce das tribunas para agredir autoridades e expor as famílias. Os debates do momento, sobretudo nas redes sociais,  nivelam-se aos piores conflitos de fins de semana entre torcidas de futebol, só faltando lançar pedras e derramar sangue...
2 - Aplaudida por vários setores da sociedade, sobretudo entre agentes da área jurídica, foi a decisão do Supremo Tribunal Federal de mostrar suas sessões e decisões pela TV, e, com isso, pretendendo aproximar-se do público, e fazer-se entender; o grande público até então à distância. Veio o primeiro descuido. A corte não cuidou de evitar que seus ministros continuassem abusando de linguagem hermética e longuíssimos pareceres afetados no juridiquês.
Mas isso ainda não é tudo. Pior foi a transformação do Supremo em palanque de protagonismo, não raramente ocupado por um exibicionismo só consentido no palco de artistas em busca de aplausos. Salvo exceções, há ministros que abandonaram o dever de falar nos autos para apenas falar alto diante das câmeras. Já virou coisa do passado a discrição dos antigos magistrados, que podiam andar nas ruas e frequentar padarias sem serem reconhecidos. Sem aplausos e sem apupos.
A TV no Supremo e em outros tribunais não sabe o mal que nos fez, com o bem que nos quis fazer.
(Nem se sabe se o futuro e prometido código de posturas do ministro Fachin seria suficiente para conter o estrelismo indesejável no primeiro entre os tribunais).
3 – Verdade se diga, não somos sós na crise da palavra. O mundo vem se debatendo, nos últimos meses, com problemas gerados pela guerra que os Estados Unidos travam com o Irã, e que acaba sendo uma tragédia das palavras mal ditas dos litigantes. Seus efeitos espirram sobre todos nós.
Mas por que as coisas têm complicado tanto por aquelas bandas?
Mais do que deviam complicar! Certamente porque o chefe maior dos guerreiros, o presidente Donald Trump, tornou-se o mais fantástico esbanjador de palavras, capaz de usá-las e descartá-las sem medir consequências. Num sopro de ameaças ou no pronunciamento descuidado pode lançar graves ameaças, e desautorizá-las pouco depois.
Os inimigos já constataram isso, e dão corda, esticam o assunto. Líderes mais sábios, como Xi Jinping (ele carrega no dizer e no silêncio a milenar sabedoria chinesa), falam apenas o indispensável, raras entrevistas, e, de longe, atentos, esperam para ver como ganhar da guerra sem se arranhar. A história é antiga, e corre o mundo: presidente que fala muito dá bom dia a cavalo.

terça-feira, 28 de abril de 2026

 

Questões fora de hora

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Campanhas eleitorais costumam amontoar os assuntos, muitas vezes confundindo a opinião pública; quando não são ainda mais nefastas, comprometendo o bom desempenho das urnas. A campanha para outubro revela seus primeiros sinais, ganha espaço e já sugere alguns reparos, não apenas pela ausência de temas prioritários, mas também por abrigar questões inoportunas para o momento. Falta-nos hoje, antes de tudo, quando partimos para eleições majoritária e proporcional, a conversa sadia sobre um projeto nacional. O Brasil ainda não delineou seu plano geral de voo, vive sem um norte, sujeito a improvisações, que vão se alternando nos governos que se sucedem. Chega um presidente ou governador, não se sente no dever de acolher e aperfeiçoar o que lhe foi transferido; na verdade, o que ocorre sempre é o esforço para engavetar o que o antecedeu. E, se preserva planos e projetos que herdou, em geral opta pelo pior. Exemplos são vários.
Caminha nossa república sem trajeto verdadeiramente definido. Nossa principal carência. Não é de hoje.   
2 – Contudo, a campanha, na contramão do desejável, revela-se tolerante com temas que, mesmo importantes, são impróprios para o momento eleitoral, porque estão condenados a ceder à influência das disputas, sujeitos apenas à caça aos votos; a nada mais aspiram além de enganar e fazer agrados à população votante. Ficam prejudicadas questões que recomendam reflexões mais demoradas, acima de influências políticas momentâneas. Um exemplo figura nas páginas de hoje: ao sabor do calor das divergências, o desejo de dar fim à escala de trabalho 6x1, que, independentemente de méritos, merece demorados estudos, longe da intenção do Congresso e do Executivo de transformá-la em cabo eleitoral.
  • Outra questão importantíssima, tão necessária, mas fadada a descambar para o campo dos interesses eleitoreiros, é a reforma do Judiciário. Já se vê estar a serviço de governistas e antigovernistas, vai aos palanques para julgar ministros comprometidos, colocar o Supremo na berlinda e tornar temporários e vulneráveis os ombros que as togas enfeitam. Mudança pesada demais para ser debatida em plena corrida eleitoral; e, por isso mesmo, destinada a condenar a sociedade a julgamentos precipitados ou preconceituosos.  
 3 - Empobrecida também fica a campanha sob a progressiva fragmentação dos partidos, defeito que se acentuou com a recente “janela”, aberta no último dia 3, e por onde, saltitantes, deputados e vereadores sem compromisso com suas legendas saíram para pousar em outros ninhos, preocupados em ocupar espaços mais favoráveis à reeleição. Com escassez de fidelidade, a organização partidária adormece em definitivo no Brasil, substituída por federações, estas igualmente ajustada ao oportunismo da hora.
4 – Note-se, por acréscimo, que, apontados como tema mais sensível para testar conhecimento e compromisso dos candidatos, até os planos para a segurança pública sujeitam-se à interferência de grupos pouco interessados em soluções, mas no imediatismo político.

terça-feira, 21 de abril de 2026

 O limite das pesquisas 


Em véspera das convenções partidárias, que cuidarão de receber e homologar candidatos a cargos eletivos, o recém-empossado presidente do TSE, ministro Nunes Marques, fica frente a escasso tempo para adotar medidas, ainda não tomadas, mas necessárias para conter problemas num pleito de dimensão nacional, que está para chegar dentro de vinte semanas. Se o tempo é curto, impõe-se, então, uma seleção de ações prioritárias, entre as quais, ousaríamos lembrar, cabe preservar o voto de influências maldosamente arquitetadas na undécima hora da votação. Aquelas que saem da cama com o eleitor e o seguem para o cumprimento do dever. É o caso de se rever essa e outras deformações no calendário das pesquisas ou enquetes durante as campanhas, distanciando-as o necessário das urnas.
Se admitidas, e até benéficas, o Tribunal e seu presidente deviam tomar em conta que elas não podem ser colocadas a serviço de interesses, mormente quando se processa uma disputa presidencial sob o calor da polarização e da radicalização, como a que se aproxima. Nesse contexto, pesquisas sobre tendências do eleitorado revestem-se de total inconveniência, se realizadas nas poucas horas que antecedem a votação; pior, se no mesmo dia. A razão é facilmente assimilada, se a corrida entre os adversários se distanciar por pequenas diferenças. É quando o eleitor, mesmo contrariando suas preferências, é induzido a deixar-se influenciar por candidaturas de possibilidades encomendadas. Torna-se vítima de um falso orgulho de só votar em quem parece que vai ganhar... Há especialistas capazes de construir maldosamente esse tipo de embuste.
Objetivamente: se elas ou as enquetes têm utilidade para revelar a realidade no campo das disputas, sem ofender a dignidade de quem vota, convém que avancem, no máximo, até os três dias antes da eleição. Porque, chegada a hora, as pessoas devem estar recolhidas apenas à consciência cívica, longe de interferências materiais ou psicológicas. Nada mais, nada menos que isso.
(É justo cobrar perfeição absoluta no procedimento eleitoral, não apenas porque esse tribunal custa mais de R$ 12 bi aos cofres da União, mas por ser o único do gênero no mundo. Um luxo com obrigação de mostrar eficiência).
2 – Outubro há de resultar em outro pesado desafio para o Superior Tribunal Eleitoral, porque, além de suas responsabilidades, tem o dever de figurar como honrosa exceção na atual crise de um Judiciário que rompeu com o respeito da nação, desceu a constrangimentos impensáveis, vê ministros do Supremo Tribunal comprometidos com desvios de conduta, além de impor a seu presidente, Édson Fachin, a humilhante confissão de um abalo moral em curso.
O TSE tem de mostrar que os tribunais são algo mais que cabides de penduricalhos e casas de ajuste de interesses.

terça-feira, 14 de abril de 2026

 

A ditadura das sanções  

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))) 
 
Ninguém sabe – ou se sabe não revelado – quais seriam os caminhos seguros para se praticar a remodelação da Organização das Nações Unidas, que perde prestígio e recompensa toda vez que o mergulhador num impasse ou faz nova guerra. Como agora, o Oriente Médio convulsionado, está pronto para estender o impasse do Irã a vários países, entre outros diretamente ou diretamente implicados. O Brasil faz parte dos membros mais preocupados, porque, sabe bem nossa diplomacia, a ONU já deu sobejas provas de fraqueza, incapacidade de unir os povos e oferecer garantias perenes à paz; e isso rompeu com os ideais que inspiraram sua criação há 81 anos.
Talvez uma reforma substancial, como queremos algumas, deva começar pelo Conselho de Segurança, proposta que há anos também goza da simpatia brasileira. Aqui, como em outras partes do mundo, denuncia-se hoje, como em outros tempos passados, que o Conselho acabou destinado ao papel de clube de poderosos, cinco sócios efetivos, sempre os donos dos interesses que levam às lutas. Quem gosta de tamanhos pode não querer abrir a mão. Por que acabar com o grande privilégio?
O Conselho é permanente refém dos votos e vetos dos Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França. Não é fácil esperar concessões dos condestáveis, que definem uma geopolítica que a eles se curva nos momentos mais graves. Os conflitos da atualidade estão repletos de crimes contra princípios civilizatórios, que, na bela sede de Nova York, acabam em longos e enfadonhos discursos formais. Tanto faz.
2 – Ganhar e consolidar a convivência no mundo é, pois, o primeiro e mais importante objetivo da Organização Adormecida. Contudo, tirante o constrangimento do Conselho de Segurança, resta outra via a desbravar; e o próximo governo do Brasil, a eleger-se em outubro, deve abraçá-la com vigor, convocando outros 180 membros a uma participação efetiva. Trata-se de eliminar a ditadura cruel das avaliações econômicas, que poucos dos verdadeiros crimes contra a humanidade. A aplicação dessas negociações, vulgarizadas no governo Trump, leva fome, afasta investimentos, congelamento ativo, amplia desemprego, miséria e crime. Tornam-se, em paralelo, armas cretinas à disposição dos poderosos, que usam esse castigo para especificar o sacrifícios a que condenam as populações que governam. Aplicadas às coerções (o primeiro sofrimento pesa exatamente sobre o povo), sacrificam-se leis inteiras, ao mesmo tempo em que, elegendo-se como vítimas, os maus governos têm o argumento de que precisam para justificar a sua inépcia. Os ditadores, por exemplo, usam as avaliações para se aclamarem alvos de perseguições. Dizem e repetem que nada pode fazer por causa das avaliações.   
Vê-se, agora, em Cuba, que soma, entre suas tragédias, a carência de energia, além da ameaça de ver Trump pronto a desembarcar na ilha.
(Já se disse, com base num princípio aristotélico, que não basta a afirmação de certa coisa para se negar uma outra. Dar razão aos que deploram a ditadura de Cuba não justifica aceitar os que submetem o povo a perigosas carências).

terça-feira, 31 de março de 2026

 

Na hora do vice 
Chegado o momento em que se definem as peças da disputa pela Presidência da República, o candidato, a aliança partidária que o apoia e os grupos que sobre ele influem entram na fase de cogitação em torno do companheiro de chapa; a sempre delicada definição do nome do vice. São muitos os fatores e interesses que pesam nessa hora, e, não raro, o candidato principal vê-se obrigado, por força das contingências político-partidárias, a engolir quem não desejou. Seja por desconfiança ou por antipatia pessoal, seja por desencontros passados, a imposição fica como primeira frustração no jogo que vai começar.  
Vale, no momento, para muitos, a receita de pleitos anteriores; isto é, necessário que a escolha recaia sobre alguém do Nordeste, onde as lideranças mostram-se compactas e o eleitorado prima pela obediência. Uma prova do poder regional é o fato de Câmara e Senado serem comandados, quase invariavelmente, por nortistas ou nordestinos. Motta e Alcolumbre são as peças da vez.
Outra corrente, nunca ausente nessas horas, pensa que o vice deva ser um mineiro, de quem se espera a força de representar o segundo colégio eleitoral do país. Acresce a crença de que a gente política de Minas é jeitosa na superação de momentos críticos. E, se não ajuda, não atrapalha. Certamente disso discordariam João Figueiredo e Fernando Collor, que importaram da montanha seus vices Aureliano Chaves e Itamar Franco. Apenas os toleravam, com algum custo. Nesse particular contrastaram com Fernando Henrique, que foi buscar em Pernambuco o discretíssimo Marco Maciel, um vice incapaz de causar dificuldades.
Maldade maior, lembrava Wilson Figueiredo, neste JB, é aquele que já entra esperando que o titular morra, abrindo-se a vaga...
2 – Pena que a definição do nome do vice se dê ao sabor de concessões, de interesses regionais, claramente localizados, ou compromissos nem sempre ajustados às conveniências republicanas.
Premiado pelo destino, esperemos que o próximo, elegendo-se em outubro, esteja bem preparado para eventualidades. Se não pode adivinhar o amanhã, tem de deitar hoje pronto para assumir a qualquer momento, o que torna indispensável estar amplamente familiarizado com o poder, dono de inquestionável competência. Os partidos têm pensado nisso?   
Outro antigo desejo, muitas vezes seguido de frustração, é que na formação das chapas uma boa escolha não seja abafada pelas imposições ideológicas ou pelos calores das radicalizações do momento. É outra expectativa que devemos levar para a eleição que já vai chegar.  
3 – Digamos figurar entre os deveres do eleitor brasileiro levar em conta a realidade política, quase uma vocação muito nossa: metade da História da República teve os vices como principais atores. Chegaram à Presidência, naturalmente ou por força de golpe, Floriano Peixoto, Afonso Pena, Nilo Peçanha, Venceslau Braz e Delfim Moreira, até 1930. Depois, Nereu Ramos, Café Filho, João Goulart, José Sarney, Itamar Franco e Michel Temer. 
(Não é pouco. Mais ainda, se lembrarmos que o Brasil, tão jejuno de troféus políticos neste mundo, ostenta o recorde na galeria dos vices que por mais tempo ficaram na Presidência de seus países. José Sarney, que ficou com os 5 anos que seriam de Tancredo Neves, superou Andrew Johnson, herdeiro de 3 anos e 11 meses de Lincoln; Theodore Roosevelt, com 3 anos e 8 meses que seriam de Mckinley; e Truman, que abiscoitou 3 anos e 9 meses de Franklin Roosevelt).

terça-feira, 24 de março de 2026

 

Mulheres mal protegidas

(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
Por força de um assustador crescimento dos casos de violência contra a mulher, tendo o feminicídio como o ápice na escala das gravidades, surgem ideias diversas sobre formas de contenção do mal, sendo farta e volumosa a criatividade do Congresso, onde se acumulam projetos consideráveis, evidenciando todos fazendo a preocupação só com o problema consumado; a mulher já com agressão sofrida. Pouco em relação aos resultados preventivos, tente conter as tragédias antes que elas aconteçam.
A lei 11.340, que se celebrizou como “Maria nunca da Penha”, passou pela maioridade, acaba de completar 20 anos, e a violência não apenas progrediu, como ganhou fora de uma crueldade vista. Peço licença para opinar que à coleção de ineficácias juntam-se, agora, o direito de uma mulher ter na bolsa o spray de pimenta para cegar, momentaneamente, o agressor, que depois volta mais raivoso para o revide. Outra ocorrência de resultado duvidoso é na lei que manda o malvado andar de tornozeleira. Depois que bateu.
 A primeira dificuldade sobre medidas preventivas revela estatística verdadeiramente perturbadora: 63% dos casos de agressão, seja física ou psicológica, ocorrem no âmbito doméstico, dentro de casa, no universo dos conflitos entre marido e mulher, incluídos aí a tortura da violência vicária, que transforma os filhos em instrumentos da guerra, dos escombros de agressões e separações. Como esperar que alguém bata à porta, na hora certa, para socorrer?
O que tem faltado na pauta dos legisladores e dos estudiosos dessa matéria é a efetiva preocupação com a educação das novas gerações do homem, que precisa atentar para o fato de que, em meio século, uma mulher passou a dividir com ele os destinos da sociedade. Não existe mais atividade masculina que não possa compartilhar espaços com a população feminina, sob o império das igualdades. Começa pela Constituição de 88, onde os direitos e deveres da família estão perfeitamente definidos em mesmíssimas partes.
Educar para sepultar os ciúmes e os orgulhos do machismo atrasado.
(Os violentos, estejam onde estiverem, precisam ligar a TV. Verão que a mulher joga futebol, luta boxe, prende e solta, constrói, cria e empreende, comanda, legisla e faz obedecer. Homens mal formados têm nisso uma humilhação terrível. Precisam ser educados para a nova realidade).
Salvo excepcionalidades de ordem psicológica, a violência que se pratica contra a mulher é exclusão do machismo selvagem, só vencida quando o companheiro entende que ela não é uma propriedade sua, dela não é dona. Derubar isso exige educação, tal como se viu em sociedades mais evoluídas, onde se bate muito menos, raramente se mata.
 Cai  fora, Trump!
É conhecido o conselho do senador democrata Frank Church ao presidente Lyndon Johnson, quando os Estados Unidos procuravam um jeito de sair do Vietnã, com alguma decência. “Anuncie que ganhamos a guerra, e cai fora depressa”, disse ele.
Um amigo zeloso talvez diga o mesmo, hoje, para Donald Trump – Saia! -, à caça de um bom motivo para sair do conflito no Oriente Médio, que o desgasta, causa inflação, encarece o petróleo, e abandonado pelos europeus, com quem pretende dividir responsabilidades. Além de colocar em risco sua prestígio na eleição parlamentar do fim de ano.
A história universal das guerras escreve duas lições jamais desmentidas. A primeira: é muito fácil entrar nelas e muito difícil sair delas. Outra lição é que sempre terminam por onde não devem sair – na paz.