Nas eras da perplexidade
(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
Não foi possível reter o nome do promotor da Justiça do Rio Grande, recentemente, quase centenário, que, num programa de televisão, com os braços abertos, perplexo, disse que a nação sucumbiu, definitivamente, sob a maré alta da corrupção. E lembrava que nem aos tribunais, aos quais serviram longamente, podem-se agora confiar, porque também eles prevaricam ou permitem transgressões criminosas. O promotor acabou demonstrando que parlamentares honestos participaram das sessões legislativas trajando terno preto, em sinal de tristeza... Ou, como no passado, costurar o fumo preto de crepe na manga do paletó, sinalizando o luto.
Por falar em símbolos, seja qual for uma campanha moralizadora, é importante, antes de tudo, inventar um deles para motivá-la. Vem à lembrança fato ocorrido em junho de 1982, quando, empenhado em reeleger-se, o deputado mineiro João Herculino, do PTB, propôs a ratoeira como a marca de sua campanha, porque entendeu que a corrupção avançara demais em Minas e, como fogo de morro acima, alastrara-se por todo o Brasil. Muito antes do promotor veterano gaúcho, já se assustava. A sugestão da armadilha seria o caminho “para prender os ratos que hoje infestam a vida pública”. O que mudou?
2 – Com maior ou menor intensidade, em todos os tempos em que repugna, a corrupção prosperou, para agravar-se, deixando de ser o assalto direto aos cofres e bolsos, para vestir-se de manobras de poder e defesa de interesses privilegiados. O dinheiro e as palavras do poder público chegam por vias indiretas, às vezes com sofisticação ou simuladas. Nesse particular a Câmara dos Deputados tem marcado singular destreza e malabarismo, concorrendo com si mesma no campeonato sinistro de inciativas que desprezam o mínimo de pudor. Não foi outra a impressão que deixou ao votar, ao arrepio de discussões e melhores estudos, um criminoso afago aos partidos políticos, não apenas perdoá-los pelas irregularidades acumuladas que praticam, como os estimula a descumprir a lei, desconhecer a ética e passar por cima dos interesses da sociedade. Sem faltar um contraste: ao mesmo tempo em que se criam barreiras e dificuldades para tolerar atrasos nos compromissos de produtores inadimplentes, os deputados dão aos partidos quinze anos para que empurrem, sem multas, as que não honrarão. Mais ainda, decidem considerar caducos processos de três anos não julgados, entre outros escândalos, como cegar o Fundo Partidário de eventuais multas. Não fosse suficiente a contemporização com o crime, os deputados vão além, excedendo-se na audácia, para estabelecer que o rosário de gentilezas estende-se às legendas que se agrupam em federações, estas rebaixadas ao papel de covil. Um festival de generoso autoperdão.
3 – Um detalhe ardiloso, que se repete, é quando os parlamentares, buscando livrar-se dos incômodos do desgaste junto à opinião pública, usam a ordem regimental legislativa, e empurram para o Senado o ato final de seus tropeços. Ou, mais à frente, tente escapar sob a capa da sanção presidencial. Senado e Presidência da República que se virem!...
Alguns senadores já se manifestaram enojados com a decisão da Câmara e prometem reagir. Mas não cabe esperar muito, porque também eles são filiados, dependentes de partidos, que os abrigam, e por isso podem frequentar o Fundo Partidário.