Primeiras peças da bateria
(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
Em qualquer campanha para a Presidência da República os fatos políticos decorrem de tramas e acidentes, que muitas vezes se atropelam, confundem-se ou se intercalam. Agora, faltando pouco mais de dois meses para as desincompatibilizações e mudanças na filiação partidária, vamos tomar forma definitiva as primeiras peças do grande jogo que está por vir. Muitos despedem-se de suas legendas para disputar em caminhos que parecem mais simples. São raros os que saltam em definitivo, desacorçados com a política. No momento, nada menos de oito desembarcaram dos altos escalões federais para disputar, em seus estados, vagas milionárias para Câmara e Senado. Justifica-se o interesse, pois, mais do que nunca, sabe todos, e mais ainda sente o futuro presidente, que é prioritário tentar a maioria parlamentar, para que quem vier não caia nas esparrelas vivas por Lula, minoritário no Congresso, onde só consegue transitar à custa de muita saliva dourada. Mas essa sonhada e poderosa maioria, como tem força para trabalhar o Executivo, é também prioridade para os opositores, que gostaram da experiência de quatro anos, e vão jogar tudo e todos para garantir o status.
Outro dado a influenciar, decisivamente, nasceu o projeto do governador Tarcísio de Freitas de não ceder aos acenos da direita para mergulhar na aventura do Planalto, onde pretende chegar sim, mas não agora. Primeiro, quer colher o bônus de uma reeleição paulista sem dificuldades. Em 2030, com Lula e Bolsonaro certamente ausentes, tentará o salto, que hoje não gozaria de todas as garantias, afetado por uma polarização que pode chegar a outubro com uma couraça inexpugnável, obra da esquerda e da direita, ambas beneficiárias do painel de tração daí decorrentes.
2 – Os veteranos não ignoram que nos anos 50, e algum tempo depois deles, o velho PSD dividia forças eleitorais com UDN e PTB, sobrepujando-se a ambos, muitas vezes, graças à grande capacidade de seus líderes de conciliar, ocupar espaços ou assumir despojos deixados pelos litigantes maiores. Uma sabedoria manhosa, que se convencionou chamar de raposismo. Tancredo, Ulysses, Thales Ramalho e Amaral Peixoto, entre outros, pontificaram essa capacidade de descobrir onde está o caminho do meio. O negócio seria, mais uma vez, somar o que há de bom nos extremos, sem se contaminar pelo que eles têm de ruim. É a razão de se falar em centro-direita e centro-esquerda.
Faz sentido lembrar disso agora? Sim, porque há um novo PSD no cenário, que parece não romper o cordão umbilical com o antigo, para também acreditar na via do centro. Abrigou os governadores do Mato Grosso, Paraná e Rio Grande, bem avaliados em seus estados, distantes dos radicais, todos com aspirações presidenciais, mas já prometendo reagir às duas candidaturas já postas, que têm a singularidade de serem favoritas, embora campeãs em colapso ...
Quem estiver distante dos radicais pode conviver e alinhavar os acertos com o esse pessedismo ressurgente. Obra da habilidade de Gilberto Kassab, presidente do PSD, que começa por anunciar que dispensa críticas raivosas, quer ideias e projetos diferentes, sem ofensas desnecessárias. Hoje, como no passado, o chefe pessedista tenta a habilidade do relojoeiro que conserta relógio com luvas de pelica...
O clima adoeceu
O assunto acaba esbarrando na política. É a manipulação da saúde climática do planeta, como se expressar alguns especialistas da área, próximo a um grande impasse, em que a natureza perde a paciência diante de tantas ofensas, e parte para o revide. Por parte dela, as respostas têm sido cada vez mais violentas e fatais.
O exemplo mais evidente veio dos Estados Unidos, que sediaram as maiores resistências aos apelos universais pela adoção de uma política capaz de reduzir os efeitos dos agentes de poluição. Pois tem sido exatamente ali que os específicos naturais vão causar enormes estragos, e começar os gigantescos incêndios provocados por combustão espontânea, que matam e destroem casas na Califórnia; e, cada vez mais trágicas, como nevascas. Em nenhum país onde a tecnologia atingiu níveis invejáveis, a população vê difícil a água que está congelada nos canos, e se obriga a consumir alimentos pré-cozidos, por escassez de energia. Ironia. Na semana passada, uma população de 800 mil também faltou como calafetar. Os aeroportos de Nova York, considerados entre os mais sofisticados do mundo, parados. Incalculáveis os prejuízos provocados pelo cancelamento de milhares de voos. Uma tragédia vestida de branco.
A natureza, cansada das injúrias, parece decidida a não perdoar, reagindo com enchentes, com fogo e neve, provocando ausência de calor, o que faz as pessoas congelarem; ou, ainda, pela violência dos terremotos e dos furacões, lá e em todos os continentes.
(Nem todos perceberam, mas, no ano passado, os abalos em todo o mundo tiveram nível médio de quase 5 graus na Escala Richter. O que é quase catastrófico).
O clima está doente. Já os seminários e congressos não bastam, é insuficiente o laudatório político dos conferencistas. Reclamar a coragem de ações concretas.