quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

Voto útil, abstenção inútil  

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil!" ))

Na reta final de uma campanha presidencial sempre couberam importantes indagações sobre fenômenos capazes de alterar o destino esperado para as urnas. O primeiro é o chamado voto útil, aquele que emigra de candidaturas que não conseguiram se impor, e corre para se acomodar nas preferenciais; o segundo fenômeno é o risco de abundante abstencionismo, fruto da associação de desânimo e protesto do eleitorado.
Dependendo da intensidade com que chegam, traçam diferentes rumos para exitosos e fracassados. 
Detenhamo-nos, primeiro, na abstenção. Não faltam previsões pessimistas em relação às eleições do dia 4, pois se a ocorrência sempre se restringe à casa dos 25% ou suas imediações, ano após ano vão se agrupando novos fatos para contribuir com o desinteresse do eleitorado. Se já concorre uma confessada descrença com a classe política, incapaz de vencer velhos desafios, como o recrudescimento da corrupção, agora surge outro componente para influir: o descrédito vivido pelo Supremo Tribunal Federal, que, há dias, acabou por sepultar pálidos percentuais de respeitabilidade que lhe restavam junto à opinião pública.
Se contribuiu aquele espetáculo para a multidão descrer das leis, de quem as elabora ou quem as faz cumprir, o STF também consegue desassossegar o eleitor em relação ao conjunto das instituições. Nem valeria mais a pena votar, pensam muitos. Para não se falar em algo pior, o risco de tudo isso desabar num grave impasse para a democracia, tragédia em que não faltaria a digital da mais alta corte de justiça.
Se o abstencionismo ultrapassar percentuais tradicionais, debite-se, então, àqueles juízes uma parcela de responsabilidade, depois de terem protagonizado cenas deprimentes, nem suavizadas com o patético pedido de desculpas que a ministra Cármen Lúcia, envergonhada, enviou aos brasileiros ofendidos. 
2 – Mas, se o momento é de desesperança, ainda não é de desespero, diria o ministro e jurista Afonso Arinos, quando se via diante de situações semelhantes.
Porque a crônica política e a História ensinam que o deixar de votar. como forma de protesto, nunca ajudou a resolver os males praticados por políticos e juízes, quando descem ao mais baixo nível de prestígio. Contrariamente ao que aspiram descrentes e desiludidos, a obra da abstenção é exatamente indesejada por quem se preocupa sinceramente. Na verdade, o que ela faz nada mais é que consolidar o projeto dos maus. Os maus políticos e seus seguidores nunca deixam de votar; precisam da bênção das urnas para prosseguir em seu caminho sinistro. Para eles, tanto melhor a distância dos bons e dos verdadeiros patriotas.
Como proposta para uma reflexão objetiva, cabe ter em mente, então, que o desânimo cívico, que anima a ideia da abstenção, prospera é nas camadas mais esclarecidas e conscientes da sociedade. Ora, se estas se abstêm, o que fazem é deixar abertas as portas a quem usa o voto para conveniências e propósitos distantes dos interesses da nação.
(Os aproveitadores indesejáveis são gratos. Agradecem, e, com maldosa ironia, definem as ausências como direito legítimo de ausência...).
Voltando à previsão pessimista das primeiras linhas, é fora de dúvida que o abstencionismo pode contribuir, ainda, para reaquecer a velha discussão sobre o voto facultativo, que, quatro décadas passadas, segundo o Ibope da época, já contaria com a simpatia de 64% do eleitorado. A faculdade chegou a ganhar, em dezembro de 1998, a maioria da Comissão de Reforma Política do Senado. Ideia natimorta.
O fracasso decepcionou a muitos, entre os quais, se não falha a memória, o senador gaúcho José Fogaça, do PMDB. Dizia que o voto pode ser obrigatório, mas nada obriga o eleitor a se deter e votar diante de casos simples ou complexos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

 

Quem é esse herói?

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

No frigir dessa crise, repleta de imprevisibilidades – (ninguém sabe onde ela vai terminar, e quem disser que sabe tá mal informado) – fico inclinado a sugerir melhor estudo sobre a personalidade e a psiquê do banqueiro Daniel Vorcaro, a grande figura que há pouco emergiu de um país tão pobre de heróis.  É o promotor inconteste da grande tragédia que afoga o Supremo Tribunal Federal, de onde estão saindo farpas que arranham deputados e senadores, afetam amigos do presidente da República e influenciam pesquisas sobre tendências do eleitorado. Ele, o dono de extraordinária capacidade de esparramar o lixo que ficou das festas babilônicas em que recebia aproveitadores de horas felizes. Estaria essa personalidade a merecer um diagnóstico no campo da criminologia e da psiquiatria? 
Preso, forçado a ficar calado, já agora sem poder servir charutos e uísques caríssimos aos amigos, sob o fog londrino, e impedido de contratar escritórios de advocacia íntimos de ministros do STF; ainda assim é a grande estrela da crise, galã que domina completamente os horários nobre da TV. Ninguém o supera na linha da notoriedade.
Graças ao que andaram denunciando, muito mais pelo que ainda podem comprometer gente dos altos escalões, os indiscretos celulares de Vorcaro têm competência para derrubar ministros, como também podem, com o silêncio, conservá-los onde estão. “Silêncio obsequioso”, dirão, gratos, os raros que escaparem, lembrando a conhecida expressão da Igreja, por se livrarem dos incômodos da moral e da Justiça.
O ex-banqueiro (por que ex?, se o Master ainda reúne tanta força para demolir gente corrupta) é o herói poderoso do momento, mesmo se vestido com a capa de um heroísmo às avessas.
 2 - Os últimos dias do desmoronamento do Supremo Tribunal Federal, que atingiu os mais baixos níveis da respeitabilidade junto à opinião pública, também revelaram, entre os atores salientes, a habilidade de esgrimistas, ministros que já não contentes com as decisões monocráticas, que prendem e libertam a mãos cheias, partiram para os floretes, espetam o adversário, causam tormentos, sem que tenham de matá-lo. Jamais a fatalidade, porque quem agride hoje pode ser a salvação de amanhã.
As pugnas resultantes do vazamento de dados investigados ou em fase de investigação sobre as intimidades do banco Master com ministros, com a Polícia Federal e com a Procuradoria Geral da República, levam a lembrar a tragédia da república do Galeão, que empurrou Getúlio Vargas para o suicídio. Lá, como agora, a perigosa associação de suspeitas, denúncias e ameaças de atentados.   
Hoje, transformado em palco de envolvimentos espúrios, o Supremo é a bola da vez, centro de um conturbado cenário em que ministros e trâmites serviram, de bom grado, a interesses de um banqueiro que penetrou nos gabinetes, fez ali amizades bem remuneradas e diligentes apoiadoras de sonhos bilionários sem medidas. Ingredientes que explicam essa imensa confusão em que estamos metidos.
3 – Eis que chega o momento do espetáculo televisivo, prometido para a reunião do Tribunal desta terça-feira, agora em que a ordem é revelar, sem limites, todos os segredos já investigados em relação ao ministro Alexandre de Moraes, sob quem pesa fogo mais intenso.  
(Indispensável alguma cautela quanto às reais intenções de quem propõe a revelação de tudo e de todos a um só tempo. Pode ser uma bela artimanha, porque, se tanta gente tem contas a prestar, tão graves os envolvimentos, a maldade é dar capilaridade e visibilidade a todos os culpados, porque, se a confusão é grande, fica mais fácil lançar mão do pretexto safado de que a hora só deve cuidar de eleições tão próximas...)

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 

No fundo do poço
Desejável seria que as crises se restringissem aos agentes políticos; no máximo, nos limites dos poderes Executivo e Legislativo, pois, assim fosse, a suprema corte de Justiça ficaria como uma espécie de porto seguro, onde o país pudesse fundear esperanças de paz e melhores tempos. Para geral frustração, as tensões e os interesses do momento arrobaram as portas das salas togadas, de onde se esperava exemplo de harmonia inspirada nos altos anseios dos brasileiros. Porque na casa maior da lei é onde, supostamente, encontram domicílio as respostas para grandes e últimas ansiedades. Mas o barco da Justiça soçobrou, agarrado em suspeitas de prática de crimes engendrados nos gabinetes, arrastando consigo os comandos da Procuradoria Geral da República e da Polícia Federal. E ministros num deprimente pugilato.
 Chegamos ao fundo do poço. 
Os últimos episódios dos conflitos no STF mostram que não é mais possível encontrar ali um exemplo de harmonia e seriedade no tratamento das grandes questões. O que mais esperar da Justiça, além da avalancha de maus exemplos?
Pior para o Brasil e sua Independência, aniversariantes de ontem, sobretudo agora, em tempo de processo eleitoral, quando a sociedade – não há negar -  vive momento crucial para definir o futuro. Hora em que a harmonia entre poderes e poderosos seria essencial para instruir e orientar o voto pensado e bem cuidado. Isso não é da magistratura maior que podemos esperar, porque, pobre coitada, vive o momento mais crítico de sua história. Repudiada, desacreditada. Seus ministros, se não estão sob suspeita de delinquir, pecam pela omissão. A casa pegando fogo, e a maioria deles com olhar de paisagem. Nada têm a ver com os desaforos trocados entre os doutores Moraes e Mendonça. Como se morassem num outro mundo.  
2 – O que fazer, diante dessa dolorosa encruzilhada em que o Brasil e seus poderes se meteram? Querem alguns que o presidente da República entre em cena para apaziguar os ânimos, acalmar ministros e que saibam administrar suas culpas. Mas é uma sugestão, se bem-intencionada em alguns, também revela maldade da parte dos que apostam na ampliação do conflito. O Executivo corre o risco de esbarrar em dificuldades,  acaba sendo acusado de interferir na ordem doméstica do Supremo. Pode sair chamuscado. Aliás, nesta hora, o presidente nem devia ter sugerido reforma do Judiciário no próximo ano. Melhor faria se apressasse a indicação ao Senado de um novo ministro para a corte, onde a vaga de Barroso se pereniza. Seria um jurista acima da suspeita de simpatias partidárias, capaz de remover o clima das tensões, que ameaçam prolongar-se.
3 – Não há quem seja capaz de invejar, nesta hora, o presidente do STF, Édson Fachin, em quem o suposto temperamento contemporizador está à prova nesta semana, talvez a mais delicada do cargo que ocupa; prova difícil e delicada, porque o que fizer para tirar a corte da instabilidade estará tendendo por uma das correntes internas em conflito, principalmente alimentando contrariedades entre os ministros Moraes e Mendonça, pivôs do grave desequilíbrio.
Nem se sabe como haveria de convencer os colegas suspeitos de deslizes a se afastarem, temporariamente, até que se esclareça, por exemplo, a extensão de suas intimidades com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Sendo este o painel, Fachin não terá como avançar seu plano de normas mínimas de conduta na convivência de ministros e suas responsabilidades perante a Constituição. É desafio demasiado para quem pisa em ovos, carregando copos de cristal.
4 – Na deplorável quadra, para piorar horizonte já tão sombrio, leva-se em conta que na crista de tamanhos embaraços não há apenas a tragédia de estar ministro do Supremo comprometido com um banqueiro criminoso, mas constatar que o que realmente move essa crise é o vazamento de dados das investigações. Balança mais o Supremo Tribunal nem é o escândalo do crime, mas a notícia do escândalo. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

 

 

Rumo ao segundo round

A menos que os institutos de pesquisa da tendência eleitoral incorram em erro coletivo - pouco provável que aconteça -, a sucessão presidencial caminha para ser decidida no segundo turno, experiência cada vez menos incomum entre nós, pois, desde 1989, só em duas vezes o presidente foi conhecido em turno único. Sobre o que vão nos dizer as urnas, dentro de um mês, a segunda convocação parece inevitável, por força da polarização, fenômeno que antecipa favoritismos apaixonados, acolhe apenas dois como favoritos, divide com eles as paixões e preferências. Contudo, caprichoso, não permite a maioria absoluta, a graça experimentada por Fernando Henrique.

Pois bem, polarizadas as preferências, caminha-se, facilmente,  para o tira-teima, desfecho que nos aguarda em 25 de outubro. Um redobrado sacrifício para os candidatos, que não escapam logo de dois desafios pela frente: construir alianças com partidos e forças políticas que, no primeiro turno, preferiram quem teve votações insuficientes; e, paralelamente, tentar romper as muralhas da rejeição que os cercam. Não é pouco.

Adiro aos que definem o segundo turno entre os mais felizes aperfeiçoamentos da legislação, quando se leva em conta que o ideal democrático é ampliar o direito de opção do eleitorado. Ou, como dizia, na França, Charles De Gaulle, a quem se deveu a primeira experiência, se o primeiro turno é o direito de votar com o coração, no segundo o que se impõe é votar com a razão. O primeiro desova protestos; o segundo encoraja a reflexão.

Aqui mesmo neste JB, Villas-Boas Corrêa, que há dez anos nos deixou, foi um entusiasta do segundo round entre os dois favoritos das urnas. “Com a enxurrada de legendas, corremos o risco de eleger um presidente com, digamos, 20% dos votos,  receita certa de turbulências e desestabilização do governo”. Diria ele que o segundo turno arruma a casa, evita a eleição de um candidato carregado numa onda emocional. O raciocínio é perfeito. 

2 - Resta, contudo, um problema sério, e dele não sabemos como escapar. Viu-se em 2022, quando o candidato vitorioso elegeu-se com modesta diferença de votos, algo em torno de 1,5%. Para o bem da estabilidade política, ideal é que o vitorioso, seja quem for, vença beneficiado por uma diferença expressiva de votos, porque é a partir daí que pode organizar as bases da governabilidade.

O presidente Lula venceu com 50 milhões de votos, mas, olhando para o lado, viu que outros 50 milhões ficaram com seu opositor. Conclui-se que, em casos como aquele, qualquer apoio, por mais modesto que tenha sido, arvora-se como decisivo. Quem o apoiou sentiu-se no direito de cobrar uma fatia do bolo vitorioso, que, com tantos comensais, teve de ser enorme, cheio de ministérios desnecessários e generosidades sem medidas. Não demorou muito para ver, no Congresso, a tramitação de seus projetos custando favores.

3 - Quando estabelece a legislação que eventual aprovação no primeiro turno dá-se pela maioria de votos válidos, menos os brancos e nulos, são cometidos dois pecados. O primeiro é negar a validade ativa do voto em branco, que é o nosso direito de não escolher um dos candidatos. O segundo é considerar como iguais, para efeito de condenação, o voto branco e o nulo. Aquele, revela apenas ausência de opção; este é instrumento de raiva, nega a utilidade da manifestação. Coisas totalmente diferentes.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

 6

O que o eleitor devia saber 
As primeiras horas da campanha eleitoral, com candidaturas formalmente lançadas, mostram que as principais atenções se voltam para a disputa presidencial, tal como já se esperava. Nisso, ela em nada contrasta com antigas disputas; nem seria diferente, considerando-se que vivemos sob os ritos do sistema presidencialista, soberanamente vitorioso no plebiscito de 1993, quando derrotou o parlamentarismo.
Da mesma forma como se via em pleitos anteriores, os discursos de lançamento das candidaturas contemplaram a preocupação em ferir os pontos mais vulneráveis dos adversários, tentando embaraçá-los. Com a predominância de ataques pessoais, denúncias e revides, a corrida presidencial revela-se jejuna de substância, pobre de ideias. O mesmo cenário vem dos estados, ou, pelo menos, nos principais deles, porque os candidatos, se não estão agredindo e sabem identificar os problemas de seus municípios, nada dizem, objetivamente, sobre o que terão de fazer para solucioná-los. Falta mostrar o caminho das pedras. 
Ora, se a tendência é o ataque, propostas apenas superficialmente tratadas, é possível que o palanque eletrônico da TV perca grande parte do interesse. Se o candidato vai às câmeras para ofender e ser ofendido, melhor não aparecer. Os candidatos a presidente Flávio Bolsonaro e Romeu Zema condicionaram sua ida à televisão se pudessem digladiar com Lula, principal concorrente. Os três desistiram.
Salvo alguma peculiaridade do momento, em disputas recentes o que os telespectadores viram não foi coisa muito diferente. Agressões ou bravatas tomando lugar de propostas concretas; estas entendidas como aquelas que não apenas mostram as feridas, mas também criatividade para curá-las.
2 - De volta às primeiras horas da campanha, outro ponto visível nas concentrações e nas entrevistas é a velha preferência dos candidatos em abordar temas amenos às multidões, com escasso interesse em expor a real origem das dificuldades que nos fazem um país trôpego, dando cabeçadas, bêbado. Ouve-se, com insistência, a condenação dos altos juros praticados no mercado, que fecham empresas e geram multidões de desempregados, mas não explicam ou confessam que um dos fatores da tragédia está no custo fiscal da máquina administrativa, perdulária e farta de ministérios, subsídios, conselhos, grupos de trabalho e mordomias, que tanto oneram. Quem ousa prometer uma jornada de contenções e inevitáveis medidas amargas?
Uma unanimidade que assusta, concordam os caçadores de votos, é que a segurança pública está falida e a violência institucionalizou-se. O que tem de ser feito?  O programa Bolsa Família escapou de seu proposto original, transformou-se em inimigo do trabalho. De quem a coragem para prometer o pente fino ali?. A corrupção impera. Qual candidato mostra como eliminá-la, se também estaria eliminando a fonte que abastece suas alianças?
(Mas, reconheçamos, tratar dos problemas e suas profundidades realmente assusta o eleitor que, já muito sofrido no cotidiano, é mais animado a ouvir coisas agradáveis. Quatro anos atrás, já saboreava o sonho da picanha em fim de semana, regada com cervejinha).
3 – Podíamos, então, trazer à tela uma ideia corrente no passado, não se sabe exatamente de sua paternidade, mas, tomando em conta que os candidatos preferem não falar de pratos indigestos, recomendava-se que as entidades da sociedade organizada promovessem campanhas eleitorais paralelas, sem adesões a candidaturas postas; de forma que levassem a nação a conhecer a gênese das grandes contrariedades, desde o debate até a prescrição dos remédios, dispensadas tendências ou preferências por quem quer que seja.
Quando se fala na representação da sociedade organizada fala-se na OAB, nas instituições religiosas, nas federações de setores produtivos, organizações de defesa dos direitos humanos,  entidades que podem estudar e propor caminhos para enfrentar os grandes desafios. Soluções azedas e indigestas, sem cores partidárias e ideológicas, dariam ao eleitor o direito de não sucumbir na onda ilusória do discurso falso ou açucarado. Mas também acabariam servindo com preciosos subsídios ao eleito para a Presidência e governadorias. Uma ideia, que certo dia, no futuro, talvez possa contribuir para o aperfeiçoamento da política e das candidaturas. 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

 

Procura-se a OEA
 
(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Instigante , ao mesmo tempo preocupante, o desinteresse que o Congresso Nacional e lideranças partidárias demonstrem frente aos desacertos que prosperam nas relações do Brasil com a Argentina e com os Estados Unidos, se assistam a uma novela de troca de suspeitas e acusações, com tudo para merecer acompanhamento mais atento, sem que nos contentemos com pronunciamentos isolados e deficientes de repercutir, competentemente, a evolução dos efeitos com aqueles países. Quanto aos estadunidenses, nos primeiros meses das dificuldades, ainda ausente a ameaça de maiores conflitos, o problema se restringia à sobretaxação que o presidente Trump impôs aos exportadores brasileiros; Restava a expectativa de que o diálogo entre empresários e autoridades levasse a um desempenho superior, demarcado pelos limites de interesses do mercado.   
À proporção em que a sobretaxa vai se arrastando, sem solução, é certo que ela comporta outros objetivos, mais profundos, pano de fundo em questões que não escapam dos conselheiros políticos da Casa Branca. De imediato, com todas as evidências, o interesse em dificultar a campanha de reeleição de Lula, presidente que se rege por princípios ideológicos inaceitáveis ​​para Trump, pois conflitam com as linhas básicas do capitalismo. Uma segunda questão, não imediata, porém muito importante, é que desagradou demais aos Estados Unidos sentirem que os pés da China pisam, cada vez mais fundo, em terras do Brasil.
(Trump reedita a Doutrina Monroe, uma senhora idosa e madrasta de 203 anos: a América para os americanos, desde que sejam os americanos do norte...)
2 – Nossas dificuldades, além de divergências com Washington e Buenos Aires, incluem o esvaziamento das funções de embaixadas, avançam em batalhas verbais e ofensas mútuas, sem que nos falte, para agravar, um distanciamento em relação aos países de orientação direitista do continente. onde saiu o refém das tropas americanas do presidente Maduro.
O que pensa a OEA, nos seus 78 anos de compromisso com a paz continental?, quando as relações entre os governos vão despencando para impasses perigosos. O mínimo, entre o muito inesperado, seria o Senado e a Câmara colherem informações sobre o marasmo da entidade, convidando para Brasília nosso embaixador, Benoni Belli. Os poderes Legislativo e Executivo, bem como a sociedade brasileira, têm direito de interpelar e saber se há gestos em curso ou disposições para que a Organização entre em cena e trabalhe para harmonizar as relações no continente. Os sinais, contudo, são de terrível omissão.
3 – Um bom serviço poderia ser retomado em dois projetos. O primeiro: sensibilizar Washington, Brasília e Buenos Aires a confiar menos no humor político e mais na diplomacia, que forma profissionais capazes de vencer ou contornar crises. O segundo projeto: convencer os presidentes Trump, Lula e Millei a falar menos e ouvir mais. Não é fácil, mas não custa tentar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 

Um ideal de inteligência  

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
É preciso alguma prudência, quando se acusa a atual legislatura do Congresso de não demonstrar ânimo para entrar, de riso e com rapidez, na discussão e regulamentação dos limites da Inteligência Artificial. Para adicioná-la, bastaria lembrar que se trata de matéria da mais alta complexidade, sem descartar sutilezas que geram dúvidas em todos os setores da sociedade brasileira; melhor, do mundo inteiro, seja ou não diferentes dos níveis de entendimento. Competir, portanto, dar aos legisladores tempo e vagar para definir o que interessa ao bem comum, sem que isso importe no empobrecimento da tecnologia, esses avanços são indispensáveis ​​no cotidiano das pessoas. O projeto de lei 2338, que trata da matéria, tramita há três anos, e, ainda assim, pode estar longe de se esgotar.  
Quando se fala dos cuidados em relação a isso, principalmente se as atenções legislativas se perturbam com o ano eleitoral, percebe-se que as razões da expressiva cautela que se exigem do Congresso são semelhantes àquelas que, um mês atrás, orientaram a longa reflexão do Papa Leão XIV na Encíclica Magnifica Humanitas, consubstanciando a conduta da Igreja frente à IA. O líder católico não é contra, mas quer que ela não fira a dignidade do ser, sem ceder, no campo da moral, à “!ógica da eficiência”, definição a que seu antecessor, Francisco, recorreu quando pretendeu dar trato a questão idêntica. Enfim, preservar o primado da pessoa, frente aos avanços da tecnologia, em cujo campo a Inteligência Artificial goza hoje de particular poder de sedução.
Deputados e senadores, certamente apoiados pelo que podem ensinar os juristas, não têm direito de ignorar o desafio, precisam encará-lo com coragem, mas nem por isso incorreto em precipitações. Além do mais, o choque de interesses nos debates mostra que o açodamento só ajudaria a confundir as regras e ampliar riscos inevitáveis, quando se transfere para um sistema parcela da capacidade de raciocínio, propriedade humana intransferível.
2 – Temores maiores nesse campo vão se dirigir, cada vez mais, aos níveis de empregabilidade. Porque a tecnologia tem, em muitos casos, como investigação negativa, a substituição do homem pela máquina, como se viu nas agências bancárias, onde a caixa eletrônica oferece atendimento eficiente, sem a presença de funcionários. Por outro lado, nos grandes complexos industriais a robotização tornou-se ponto sofisticado no banimento do trabalho humano.
Estamos falando de dúvidas e receitas, pois temos, mas a criatividade dos recursos técnicos, historicamente embalados pela promessa de limitação do suor do trabalho, também impõe viés positivo. Trata-se da capacidade do homem adaptar-se às novidades que chegam com o tempo, e colocá-las a seu favor. Se a primeira sensação era ver o trabalho dos braços e do cérebro derrotado pela obra da tecnologia, ocorreu, em vários casos, de a ela se sobrepor. Desafiado, o ser humano sabe reagir e reverter o que lhe parece concorrente. Dizia o economista e diplomata Roberto Campos que o progresso também tem “virtudes autocorretivas”. Tal como se deu quando o automóvel sufocou a próspera produção de carruagens, ou quando os lágrimas inglesas dominaram a revolução industrial.
3 -= Se a Inteligência Artificial é necessária, trazendo temores, outro dever do Congresso Nacional é elaborar instrumentos para estender, a quem pode produzir, condições atualizadas para ampliar suas capacidades. Domar o progresso e dele se servir para o conforto e o bem-estar. Deputados e senadores sabem muito bem: o trabalhador, em particular o jovem, está longe da profissionalização e dos cursos de aperfeiçoamento, que, no entanto, se fazem mais exigentes cada vez que a tecnologia avança.