terça-feira, 20 de outubro de 2026

 

No rastro da campanha
(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" )) 

A campanha eleitoral, prestes a terminar, eleitos o novo presidente da República e alguns governadores, vai deixar, nas pegadas, certas indagações importantes, sejam quais forem os números que as urnas denunciarão no domingo. A primeira questão que se levanta é sobre a sobrevivência dos partidos políticos como tais. Salvo exceções, na disputa que chega ao fim pouco significaram, diluídos e transformados em grupos ou correntes, à procura de espaços convenientes, com raros sinais de identidade própria; da mesma forma, carentes de conteúdo ideólogo.
Há duas legendas em cena. Mas, ainda assim, cabe lembrar (a eleição do primeiro turno nada mais fez que confirmar) - o PL é rótulo do bolsonarismo, e com essa herança chega ao Congresso com franca maioria. O segundo com bons resultados é o PT, um lulismo bem sucedido, que descuidou de se renovar.
O poderoso Centrão, franco dominador da atual legislatura, longe de ser uma legenda, tem variação de procedências, não está contra nem a favor, muito pelo contrário; como se dizia do contorcionismo do velho PSD. Os centristas esperam o que vão acenar as urnas, prontos para sepultar inconveniências da disputa e aderir aos vitoriosos. Bloco heterogêneo, sem nada que faça parecer um partido, tem como bandeira e divisa a convicção de que o governo, qualquer que seja, é sempre formado de gente muito boa...  Antes de Finados estará disponível.
Que falar dos veteranos PSDB, PMDB, PDT?, hoje e durante toda a campanha fragmentados, com alguma expressão regional. Que caminhos trilhariam em eventuais projetos de reestruturação?  Com toda certeza, nem mesmos seus próceres saberão dizer.
Mas, em meio aos escombros, vale registrar, como novidade que poucos esperavam, o Psol, chegando ao novo ano dono de 40 cadeiras parlamentares, representado em 12 unidades da Federação. Não é pouco, para quem vinha de desempenhos anteriores bem mais modestos; porém, ainda distante de pretender colher as cinzas e os cacos do PT e das esquerdas que restarem das refregas deste 2026.
Os debates  
Se é nebuloso o futuro de partidos políticos dos nossos dias, não menos sombrio foi o que desenhou o debate de domingo, na Bandeirantes, entre os dois candidatos à Presidência da República. Quase sempre ausentes ideias propositivas, mas uma feroz troca de pedradas. A opinião pública, ofendida, sente-se no direito de sugerir que se cancele o outro debate programado, sem esperança de um modelo diferente do que assistiu, a contragosto.
Viu-se o que sempre se viu. O candidato preocupado em armar ciladas para ver o adversário escorregando em defeitos dos quais também padece. Empurra o outro para abismos de onde sairiam manchados.
Triste observar. Como guerreiros espumando no canto da boca, homens que disputam o comando do país entram em cena não para cuidar de grandes questões, são produto de marqueteiros e estrategistas, que instruem como provocar e como escapar do tiroteio inevitável. Além de expedientes safadinhos, como transitar atrás do adversário, na tentativa de desviar a atenção do telespectador.
Merecemos coisa melhor.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

 

Abstenção e interrogação

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil"

Qualquer esforço para pontear os desafios maiores que se colocam diante dos dois candidatos à Presidência da República, no segundo e decisivo turno, começa pela tentativa de construir e conquistar novo ânimo para os 33 milhões de brasileiros que se abstiveram de votar na rodada anterior. Um primeiro dado, que aflora, indicado pelas pesquisas, dá a entender que metade dos ausentes prefere continuar distante, quando chegarem as urnas do dia 25. Não se apurou, devidamente, a extensão e a profundidade desse levantamento.   
Se é verdade que o primeiro turno não deixou muitas credenciais para os institutos de pesquisas, o fato é que quase todos agora coincidem na previsão da continuidade do desinteresse. Com alguma boa vontade, admitamos que não estamos diante de um engano coletivo.
Nas primeiras horas do segundo embate houve quem opinasse que o rompimento do alto nível das abstenções seria decisivo para definir a sorte da nova eleição. Mas, convenhamos, se de uma hora para outra os ausentes decidissem participar, não parece lógico aceitar que, só por isso, definiriam o futuro dos candidatos. Com certeza, entrariam em cena sem o milagre da unanimidade. De forma que as sortes de Flávio e de Lula não dependeriam, exclusivamente, dos adormecidos do dia 4. Cada um dos dois teria seu naco no bolo invisível e duvidoso. 
Longe de definir os rumos das urnas, o abstencionismo seria mais útil para estudo avançado do clima de descrédito, desânimo e exaustão que se abate sobre milhões de brasileiros, sem que importe, a priori, favoritismo por A ou B.
2 – Está em curso, nos bastidores das campanhas presidenciais, animado debate sobre a conduta a ser adotada na etapa final da disputa, particularmente se convém a ambos cederem às conveniências do debate na TV. As câmeras seriam oportunas para ambos, do primeiro e segundo lugares, porque o eleitorado continua jejuno de propostas concretas e soluções objetivas para os problemas que o atormentam no dia a dia.
Apesar de os bons modos serem adequados nesta hora, não faltam os colaboradores mais duros, sugerindo linguagem agressiva, com o objeto de arranhar a pele e a alma do adversário.
Frente a um debate que se recomenda civilizado, é preciso levar em conta que tanto Lula como Flávio têm telhados envidraçados; e as pedras, da mesma forma como são lançadas, voltam no bumerangue. Melhor seria que se tolerassem diante das câmeras.
Num mundo de sensatez não há quem divirja. Os debates devem estar no campo das ideias e propostas em torno do realizável.
3 - Pode ser interpretação precipitada, embora com a evidência de alguma lógica. Mas a entrada em cena do ex-presidente Michel Temer, longe de ser uma adesão natural de expressão peemedebista, parece conferir a ele, caso Flávio seja eleito, a tarefa de abrir caminho para a pacificação das relações políticas com o Supremo Tribunal Federal.  Embora tal missão também se revelasse propícia num novo governo Lula. A extensão e a progressão da crise que se abate sobre a mais alta corte de Justiça não têm como levar a bons resultados; além de abrir poderoso abismo nas relações entre os poderes. A missão estaria bem confiada, porque o ex-presidente é jeitoso na conversa. Além do mais, é cria sua o ministro Alexandre de Moraes, a principal referência dos problemas criados.  

terça-feira, 6 de outubro de 2026

 

O que é o segundo turno?

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil"))

Costuma-se dizer que o segundo turno é outra eleição, apoiado em certos fatores preponderantes, entre os quais a participação de eleitores cujos candidatos de sua preferência saíram derrotados no domingo. Este, talvez, o mais importante; mas há outros detalhes, nem sempre bem avaliados, quando a política ainda se aquece nas paixões do primeiro turno. No caso atual, é saber qual a dimensão do voto útil já no primeiro turno. Conhecer a dimensão aritmética desse fenômeno pode influir. 
Acima de tudo, é preciso considerar que a nova convocação do eleitorado, longe de ser apenas capricho de calendário, importa na avaliação de experiências deixadas no rastro da votação de domingo, expurgando inconveniências; a primeira das quais o comportamento do Supremo Tribunal Federal, que precisa descer do palanque político em que se meteu, e retornar às responsabilidades constitucionais que lhe cabem. Não se pode acusar de prática injusta quando se diz que alguns dos seus ministros, por ação ou omissão, de tão desprestigiados, ajudaram a dificultar o desempenho de candidatos governistas, embora pretendessem ajudar. O Supremo fora do segundo turno seria a primeira aspiração.  
Outro detalhe conveniente é eliminar a exploração barata de símbolos religiosos e preferências de prelados e pastores, como também convém devolver aos nichos e altares a imagem de Nossa Senhora Aparecida, de onde saiu, certamente a contragosto, para abençoar projetos eleitoreiros.
(Às vezes subestima-se a inteligência do eleitor. Quem seria capaz de acreditar que um candidato, desesperado atrás de votos, cometeria a maluquice de propor cassar da santa o título de padroeira do Brasil ?!...)
2 – Aos candidatos alçados ao tira-teima do dia 25 não são poucas as cobranças. A começar pela exigência, irrecorrível, de passarem a cuidar de propostas objetivas sobre os desafios que se impõem ao país; são muitos, e não se deve esperar que possam ser vencidos com discursos vazios, pobres de conteúdo; desrespeitosos até.
Nesse passo, ficou uma preocupação no domingo, quando os dois, encerrada a apuração, e diante das emissoras de TV, insistiram nos ataques pessoais. A persistir isso, melhor que, como procederam no primeiro turno, dispensem o debate televisivo. Seria menos vexatório.
É preciso melhorar o nível da campanha, até agora de uma pobreza comovente.
3 - À margem dessa preocupação, se desejada for uma eleição de ampla participação democrática, que Flávio e Lula tentem sensibilizar a multidão dos que se abstiveram. O que terão a dizer a 33 milhões de brasileiros que preferiram não votar?. Como tirá-los de casa para uma nova eleição?, com um discurso que os estimule a participar, longe dos xingamentos e de promessas vãs.
Penso que, em relação ao histórico abstencionismo, pecou a assessoria do presidente em não criar artifícios para conter um fenômeno perfeitamente visível: o desejo de mudança, de deslocar velhas lideranças e assessores viciados. Os colaboradores não souberam ”vender” a ideia de que outros quatro anos não seriam demais para um octogenário experiente...
Flavio Bolsonaro também tem pontes a atravessar, mesmo saindo na dianteira. Primeiro, é compreender e vencer algo que parece estranho, politicamente. Os senadores do PL, que o apoiaram, somaram 58 milhões de votos. Seria natural que sua votação fosse acompanhada por Flávio, o que não aconteceu. Ficaram devendo a ele cerca de 2 milhões de votos. O que aconteceu?
4 – Quem leu, meses atrás, um artigo que especulava sobre estratégias capazes de alicerçar as candidaturas, pode estar lembrado de um fato com tudo para perturbar os planos do PT em 2026. Tratava-se da simbiose que tendia a promover identidade eleitoral duradoura entre a direita e o bolsonarismo. O partido não soube romper, a tempo, essa interação, hoje, com certeza, uma grande dificuldade para o presidente Lula.
Disso resultou que Jair Bolsonaro e a direita são uma única bandeira. Talvez isso tivesse sido evitado se Lula cedesse à corajosa ideia de anistiar seu antecessor. Na hora, nada mais que uma loucura, nem objeto de reflexão.
Agora, as duas forças somadas, integradas, com projeto de poder conciliado, as coisas ficaram mais difíceis para os petistas.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

Voto útil, abstenção inútil  

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil!" ))

Na reta final de uma campanha presidencial sempre couberam importantes indagações sobre fenômenos capazes de alterar o destino esperado para as urnas. O primeiro é o chamado voto útil, aquele que emigra de candidaturas que não conseguiram se impor, e corre para se acomodar nas preferenciais; o segundo fenômeno é o risco de abundante abstencionismo, fruto da associação de desânimo e protesto do eleitorado.
Dependendo da intensidade com que chegam, traçam diferentes rumos para exitosos e fracassados. 
Detenhamo-nos, primeiro, na abstenção. Não faltam previsões pessimistas em relação às eleições do dia 4, pois se a ocorrência sempre se restringe à casa dos 25% ou suas imediações, ano após ano vão se agrupando novos fatos para contribuir com o desinteresse do eleitorado. Se já concorre uma confessada descrença com a classe política, incapaz de vencer velhos desafios, como o recrudescimento da corrupção, agora surge outro componente para influir: o descrédito vivido pelo Supremo Tribunal Federal, que, há dias, acabou por sepultar pálidos percentuais de respeitabilidade que lhe restavam junto à opinião pública.
Se contribuiu aquele espetáculo para a multidão descrer das leis, de quem as elabora ou quem as faz cumprir, o STF também consegue desassossegar o eleitor em relação ao conjunto das instituições. Nem valeria mais a pena votar, pensam muitos. Para não se falar em algo pior, o risco de tudo isso desabar num grave impasse para a democracia, tragédia em que não faltaria a digital da mais alta corte de justiça.
Se o abstencionismo ultrapassar percentuais tradicionais, debite-se, então, àqueles juízes uma parcela de responsabilidade, depois de terem protagonizado cenas deprimentes, nem suavizadas com o patético pedido de desculpas que a ministra Cármen Lúcia, envergonhada, enviou aos brasileiros ofendidos. 
2 – Mas, se o momento é de desesperança, ainda não é de desespero, diria o ministro e jurista Afonso Arinos, quando se via diante de situações semelhantes.
Porque a crônica política e a História ensinam que o deixar de votar. como forma de protesto, nunca ajudou a resolver os males praticados por políticos e juízes, quando descem ao mais baixo nível de prestígio. Contrariamente ao que aspiram descrentes e desiludidos, a obra da abstenção é exatamente indesejada por quem se preocupa sinceramente. Na verdade, o que ela faz nada mais é que consolidar o projeto dos maus. Os maus políticos e seus seguidores nunca deixam de votar; precisam da bênção das urnas para prosseguir em seu caminho sinistro. Para eles, tanto melhor a distância dos bons e dos verdadeiros patriotas.
Como proposta para uma reflexão objetiva, cabe ter em mente, então, que o desânimo cívico, que anima a ideia da abstenção, prospera é nas camadas mais esclarecidas e conscientes da sociedade. Ora, se estas se abstêm, o que fazem é deixar abertas as portas a quem usa o voto para conveniências e propósitos distantes dos interesses da nação.
(Os aproveitadores indesejáveis são gratos. Agradecem, e, com maldosa ironia, definem as ausências como direito legítimo de ausência...).
Voltando à previsão pessimista das primeiras linhas, é fora de dúvida que o abstencionismo pode contribuir, ainda, para reaquecer a velha discussão sobre o voto facultativo, que, quatro décadas passadas, segundo o Ibope da época, já contaria com a simpatia de 64% do eleitorado. A faculdade chegou a ganhar, em dezembro de 1998, a maioria da Comissão de Reforma Política do Senado. Ideia natimorta.
O fracasso decepcionou a muitos, entre os quais, se não falha a memória, o senador gaúcho José Fogaça, do PMDB. Dizia que o voto pode ser obrigatório, mas nada obriga o eleitor a se deter e votar diante de casos simples ou complexos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

 

Quem é esse herói?

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

No frigir dessa crise, repleta de imprevisibilidades – (ninguém sabe onde ela vai terminar, e quem disser que sabe tá mal informado) – fico inclinado a sugerir melhor estudo sobre a personalidade e a psiquê do banqueiro Daniel Vorcaro, a grande figura que há pouco emergiu de um país tão pobre de heróis.  É o promotor inconteste da grande tragédia que afoga o Supremo Tribunal Federal, de onde estão saindo farpas que arranham deputados e senadores, afetam amigos do presidente da República e influenciam pesquisas sobre tendências do eleitorado. Ele, o dono de extraordinária capacidade de esparramar o lixo que ficou das festas babilônicas em que recebia aproveitadores de horas felizes. Estaria essa personalidade a merecer um diagnóstico no campo da criminologia e da psiquiatria? 
Preso, forçado a ficar calado, já agora sem poder servir charutos e uísques caríssimos aos amigos, sob o fog londrino, e impedido de contratar escritórios de advocacia íntimos de ministros do STF; ainda assim é a grande estrela da crise, galã que domina completamente os horários nobre da TV. Ninguém o supera na linha da notoriedade.
Graças ao que andaram denunciando, muito mais pelo que ainda podem comprometer gente dos altos escalões, os indiscretos celulares de Vorcaro têm competência para derrubar ministros, como também podem, com o silêncio, conservá-los onde estão. “Silêncio obsequioso”, dirão, gratos, os raros que escaparem, lembrando a conhecida expressão da Igreja, por se livrarem dos incômodos da moral e da Justiça.
O ex-banqueiro (por que ex?, se o Master ainda reúne tanta força para demolir gente corrupta) é o herói poderoso do momento, mesmo se vestido com a capa de um heroísmo às avessas.
 2 - Os últimos dias do desmoronamento do Supremo Tribunal Federal, que atingiu os mais baixos níveis da respeitabilidade junto à opinião pública, também revelaram, entre os atores salientes, a habilidade de esgrimistas, ministros que já não contentes com as decisões monocráticas, que prendem e libertam a mãos cheias, partiram para os floretes, espetam o adversário, causam tormentos, sem que tenham de matá-lo. Jamais a fatalidade, porque quem agride hoje pode ser a salvação de amanhã.
As pugnas resultantes do vazamento de dados investigados ou em fase de investigação sobre as intimidades do banco Master com ministros, com a Polícia Federal e com a Procuradoria Geral da República, levam a lembrar a tragédia da república do Galeão, que empurrou Getúlio Vargas para o suicídio. Lá, como agora, a perigosa associação de suspeitas, denúncias e ameaças de atentados.   
Hoje, transformado em palco de envolvimentos espúrios, o Supremo é a bola da vez, centro de um conturbado cenário em que ministros e trâmites serviram, de bom grado, a interesses de um banqueiro que penetrou nos gabinetes, fez ali amizades bem remuneradas e diligentes apoiadoras de sonhos bilionários sem medidas. Ingredientes que explicam essa imensa confusão em que estamos metidos.
3 – Eis que chega o momento do espetáculo televisivo, prometido para a reunião do Tribunal desta terça-feira, agora em que a ordem é revelar, sem limites, todos os segredos já investigados em relação ao ministro Alexandre de Moraes, sob quem pesa fogo mais intenso.  
(Indispensável alguma cautela quanto às reais intenções de quem propõe a revelação de tudo e de todos a um só tempo. Pode ser uma bela artimanha, porque, se tanta gente tem contas a prestar, tão graves os envolvimentos, a maldade é dar capilaridade e visibilidade a todos os culpados, porque, se a confusão é grande, fica mais fácil lançar mão do pretexto safado de que a hora só deve cuidar de eleições tão próximas...)

terça-feira, 8 de setembro de 2026

 

No fundo do poço
Desejável seria que as crises se restringissem aos agentes políticos; no máximo, nos limites dos poderes Executivo e Legislativo, pois, assim fosse, a suprema corte de Justiça ficaria como uma espécie de porto seguro, onde o país pudesse fundear esperanças de paz e melhores tempos. Para geral frustração, as tensões e os interesses do momento arrobaram as portas das salas togadas, de onde se esperava exemplo de harmonia inspirada nos altos anseios dos brasileiros. Porque na casa maior da lei é onde, supostamente, encontram domicílio as respostas para grandes e últimas ansiedades. Mas o barco da Justiça soçobrou, agarrado em suspeitas de prática de crimes engendrados nos gabinetes, arrastando consigo os comandos da Procuradoria Geral da República e da Polícia Federal. E ministros num deprimente pugilato.
 Chegamos ao fundo do poço. 
Os últimos episódios dos conflitos no STF mostram que não é mais possível encontrar ali um exemplo de harmonia e seriedade no tratamento das grandes questões. O que mais esperar da Justiça, além da avalancha de maus exemplos?
Pior para o Brasil e sua Independência, aniversariantes de ontem, sobretudo agora, em tempo de processo eleitoral, quando a sociedade – não há negar -  vive momento crucial para definir o futuro. Hora em que a harmonia entre poderes e poderosos seria essencial para instruir e orientar o voto pensado e bem cuidado. Isso não é da magistratura maior que podemos esperar, porque, pobre coitada, vive o momento mais crítico de sua história. Repudiada, desacreditada. Seus ministros, se não estão sob suspeita de delinquir, pecam pela omissão. A casa pegando fogo, e a maioria deles com olhar de paisagem. Nada têm a ver com os desaforos trocados entre os doutores Moraes e Mendonça. Como se morassem num outro mundo.  
2 – O que fazer, diante dessa dolorosa encruzilhada em que o Brasil e seus poderes se meteram? Querem alguns que o presidente da República entre em cena para apaziguar os ânimos, acalmar ministros e que saibam administrar suas culpas. Mas é uma sugestão, se bem-intencionada em alguns, também revela maldade da parte dos que apostam na ampliação do conflito. O Executivo corre o risco de esbarrar em dificuldades,  acaba sendo acusado de interferir na ordem doméstica do Supremo. Pode sair chamuscado. Aliás, nesta hora, o presidente nem devia ter sugerido reforma do Judiciário no próximo ano. Melhor faria se apressasse a indicação ao Senado de um novo ministro para a corte, onde a vaga de Barroso se pereniza. Seria um jurista acima da suspeita de simpatias partidárias, capaz de remover o clima das tensões, que ameaçam prolongar-se.
3 – Não há quem seja capaz de invejar, nesta hora, o presidente do STF, Édson Fachin, em quem o suposto temperamento contemporizador está à prova nesta semana, talvez a mais delicada do cargo que ocupa; prova difícil e delicada, porque o que fizer para tirar a corte da instabilidade estará tendendo por uma das correntes internas em conflito, principalmente alimentando contrariedades entre os ministros Moraes e Mendonça, pivôs do grave desequilíbrio.
Nem se sabe como haveria de convencer os colegas suspeitos de deslizes a se afastarem, temporariamente, até que se esclareça, por exemplo, a extensão de suas intimidades com o banqueiro Daniel Vorcaro.
Sendo este o painel, Fachin não terá como avançar seu plano de normas mínimas de conduta na convivência de ministros e suas responsabilidades perante a Constituição. É desafio demasiado para quem pisa em ovos, carregando copos de cristal.
4 – Na deplorável quadra, para piorar horizonte já tão sombrio, leva-se em conta que na crista de tamanhos embaraços não há apenas a tragédia de estar ministro do Supremo comprometido com um banqueiro criminoso, mas constatar que o que realmente move essa crise é o vazamento de dados das investigações. Balança mais o Supremo Tribunal nem é o escândalo do crime, mas a notícia do escândalo. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

 

 

Rumo ao segundo round

A menos que os institutos de pesquisa da tendência eleitoral incorram em erro coletivo - pouco provável que aconteça -, a sucessão presidencial caminha para ser decidida no segundo turno, experiência cada vez menos incomum entre nós, pois, desde 1989, só em duas vezes o presidente foi conhecido em turno único. Sobre o que vão nos dizer as urnas, dentro de um mês, a segunda convocação parece inevitável, por força da polarização, fenômeno que antecipa favoritismos apaixonados, acolhe apenas dois como favoritos, divide com eles as paixões e preferências. Contudo, caprichoso, não permite a maioria absoluta, a graça experimentada por Fernando Henrique.

Pois bem, polarizadas as preferências, caminha-se, facilmente,  para o tira-teima, desfecho que nos aguarda em 25 de outubro. Um redobrado sacrifício para os candidatos, que não escapam logo de dois desafios pela frente: construir alianças com partidos e forças políticas que, no primeiro turno, preferiram quem teve votações insuficientes; e, paralelamente, tentar romper as muralhas da rejeição que os cercam. Não é pouco.

Adiro aos que definem o segundo turno entre os mais felizes aperfeiçoamentos da legislação, quando se leva em conta que o ideal democrático é ampliar o direito de opção do eleitorado. Ou, como dizia, na França, Charles De Gaulle, a quem se deveu a primeira experiência, se o primeiro turno é o direito de votar com o coração, no segundo o que se impõe é votar com a razão. O primeiro desova protestos; o segundo encoraja a reflexão.

Aqui mesmo neste JB, Villas-Boas Corrêa, que há dez anos nos deixou, foi um entusiasta do segundo round entre os dois favoritos das urnas. “Com a enxurrada de legendas, corremos o risco de eleger um presidente com, digamos, 20% dos votos,  receita certa de turbulências e desestabilização do governo”. Diria ele que o segundo turno arruma a casa, evita a eleição de um candidato carregado numa onda emocional. O raciocínio é perfeito. 

2 - Resta, contudo, um problema sério, e dele não sabemos como escapar. Viu-se em 2022, quando o candidato vitorioso elegeu-se com modesta diferença de votos, algo em torno de 1,5%. Para o bem da estabilidade política, ideal é que o vitorioso, seja quem for, vença beneficiado por uma diferença expressiva de votos, porque é a partir daí que pode organizar as bases da governabilidade.

O presidente Lula venceu com 50 milhões de votos, mas, olhando para o lado, viu que outros 50 milhões ficaram com seu opositor. Conclui-se que, em casos como aquele, qualquer apoio, por mais modesto que tenha sido, arvora-se como decisivo. Quem o apoiou sentiu-se no direito de cobrar uma fatia do bolo vitorioso, que, com tantos comensais, teve de ser enorme, cheio de ministérios desnecessários e generosidades sem medidas. Não demorou muito para ver, no Congresso, a tramitação de seus projetos custando favores.

3 - Quando estabelece a legislação que eventual aprovação no primeiro turno dá-se pela maioria de votos válidos, menos os brancos e nulos, são cometidos dois pecados. O primeiro é negar a validade ativa do voto em branco, que é o nosso direito de não escolher um dos candidatos. O segundo é considerar como iguais, para efeito de condenação, o voto branco e o nulo. Aquele, revela apenas ausência de opção; este é instrumento de raiva, nega a utilidade da manifestação. Coisas totalmente diferentes.