terça-feira, 17 de março de 2026

 

 Risco de um martírio

(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Se uma tragédia sobrevier à degeneração gradual da saúde de Jair Bolsonaro, a campanha eleitoral será condenada à transformação do palanque em cadafalso, onde a direita pretenderá impor Lula como algoz e aclamar seu oponente como mártir. Ele deve saber disso, como também precisa saber que não viriam em seu socorro os bons amigos do Supremo Tribunal Federal, que condenaram o ex-presidente à prisão. De camarote, os togados poderão assistir ao naufrágio nas urnas, até porque não dependem de votos.
Nesta altura do ano eleitoral, o martírio seria receita certa para se transformar numa avalancha contra o governo e atropelo da candidatura de Lula.
2 - Quando se trata de falar aos deputados, nunca se sabe quem tem maior influência no discurso e nas decisões do atual presidente. Para alguns, parece que a última palavra é uma versão singular de monólogo; ele falando com ele mesmo... Pode ser, porque Lula, que constantemente se jacta de não ostentar diplomas, compensa os poucos estudos com o poder da intuição. Ele intui, embora nem sempre com bons resultados.
Estranho é que essa capacidade de percepção não o leve a tirar da oposição a poderosa bandeira da anistia, muito mais útil para influenciar, quando os ventos sopram para a radicalização. Por iniciativa própria ou por muito influenciar junto aos amigos diletos do Supremo Tribunal, o desarmamento das políticas de tensão o elevaria à posição de estadista superior, acolhendo o índole natural do brasileiro, arredio à insensibilidade de julgadores e amante dos pacificadores. 
O presidente Lula estaria exposto à tragédia do desafeto Jair Bolsonaro, cuja saúde, como se viu no fim da semana, recomenda, no mínimo, o cumprimento da pena em prisão domiciliar.
Relações com o Tio San 
 
 O Congresso Nacional, governadores e entidades de representação social e econômica continuam mostrando desânimo para discutir o problema da exclusão nas relações do Brasil com os Estados Unidos, suas consequências imediatas ou futuras, além dos impasses políticos entre as duas capitais, que vão se revelar cada dia mais sérios, quaisquer que sejam os anexos em que desejamos analisá-los. As dificuldades nascem de ressentimentos provocados por antipatias mútuas com inspiração no campo ideológico, logo evoluídas para desconfianças no trato das questões de estado. Disso ficou a certeza de que antigas alianças já não são as mesmas, mas quase sempre reduzidas ao mínimo das formalidades diplomáticas que Lula e Trump permutam em ligações telefônicas de pouca duração, ou no breve encontro que tiveram na Casa Branca; e numa reunião, cancelada este mês, com duvidoso adiamento para um dia qualquer de abril.
Seria conveniente, em particular na Comissão de Relações Exteriores do Senado, um estudo da progressão das dificuldades que vão se ampliando; dificuldades que ganharam força na sobretributação, prejudicando parte sensível das exportações. Tinha tudo para se limitar a um fato comum e isolado, até porque foi algo que o governo americano impôs a vários outros países. Os prejuízos couberam facilmente nos limites de interesses comerciais; mas não conosco, porque, desde então, evoluímos para os apelos à discórdia.  
2 – As relações se tornaram mais frias, há tempos, quando o governo deixou claro que, no embate dos Estados Unidos com a ditadura teocrática do Irã, as simpatias brasileiras tendiam para o regime dos aiatolás. Concomitantemente, cresceram as malquerenças com Israel, também aí uma contraposição ao governo Trump.
Aos ianques ainda aborrecemos quando a Venezuela foi invadida e presa, como bandido comum, o presidente Maduro, amigo em quem Lula devotava especial admiração. Inaceitável a intervenção armada, o Brasil protestou, mesmo com pouca ênfase. Trump não gostou, mas fingiu que não sentiu.     
É importante considerar que, a partir de então, a Casa Branca vem testando nossas resistências. Lance mais recente foi o lançamento do programa Escudo das Américas, para que, aliados em torno de um objetivo único, 12 países do continente possam reagir ao crime organizado. Para o lançamento solene, ausentes do Brasil, Colômbia e México, como se fossem peças estranhas a uma questão de tamanho continental. Veio a ironia: Trump justificou, dizendo que nosso governo estava ocupado...
Quanto ao nosso lado, um desafio avaliador para incomodar foi Washington define, formalmente, como terroristas os indesejáveis ​​PCC e CV, o que, no entendimento de Brasília, é porta aberta para eventual intervencionismo militar. Os americanos riem, quando argumentamos que sabemos como cuidar dos nossos crimes, salvo se escaparem para atividades transnacionais; riem, porque, lá, a ideia predominante é que Brasília não tem como combater o crime organizado, intrometido nas entradas do poder. Garantam que podem provar o que entendem não ser mais que mera suspeita.  
Ao Escudo de Trump vem um segundo impasse: o alto funcionário do Departamento de Estado, Darren Beattie, fingindo conferência com o ex-presidente Jair Bolsonaro, é proibido de desembarcar. Nada demais, não fosse o fato de Bolsonaro ser o símbolo do antilulismo em ano eleitoral. Darren ficou impedido, e já se sabe que isso fez nos assessores do Departamento de Estado.  
A soma dessas dificuldades, que preocupam porque se ampliam cada vez mais, mostra que o assunto merece ser pautado por todas as classes responsáveis, a começar pelas casas políticas do Congresso. 

terça-feira, 10 de março de 2026

 

Polarização inconveniente 

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Um olhar sobre a eleição presidencial, distante pouco mais de sete meses, deixa claro algumas inconveniências capazes de dificultar ou comprometer. Uma delas, com efeitos para futuro imediato ou distante, é a polarização a que vem sendo empurrado o processo. O que vemos é, com grande antecedência, o eleitor condenado a caminhar para as urnas com a humilde missão de apenas ser contra ou a favor; apoiar um dos dois candidatos não por desejá-lo, mas porque odeia ou outro. Nada mais que isso. Os sentimentos extremos vão tomando os espaços que, em pleito normal e casual, serão dedicados a projetos e ideias, principalmente num país que se mostra cuidadoso de rumores e sem bandeira.
Não bastassem os temores da radicalização, a junta-se outra, que parece estar preocupando os setores responsáveis ​​da Justiça. Se, por um lado, isso é do agrado dos militantes raivosos, que gostam ou odeiam, há o enorme risco de se afastar da parcela do eleitorado que não se deixa envolvido, preferindo tomar parte na multidão dos que se abstêm. Se não se sensibilizar, melhor distanciar-se.
A abstenção é algo para se preocupar. Tendo sido recordista há quatro anos, a ausência em massa deixou longe das urnas nada menos de 32 milhões de brasileiros que estariam aptos ao exercício do voto. Significaram 20,9% do eleitorado. Agravam-se as variações pessimistas quando se sabe que há cinco milhões de títulos cancelados. Eram portados pelos desinteressados, que foram submetidos a preferir-se às multas que o TSE ameaça os reincidentes.
2 – Os sinais de um outubro refletem apenas dois candidatos factíveis na corrida são mais graves exatamente para confirmar a inexistência de cuidados e uma reflexão patriótica sobre os destinos do Brasil. Submergem, descuidadas, as questões mais importantes para a sociedade.
Chega-se ao ponto em que esse perigo prenuncia dificuldades para o próprio vencedor, seja ele quem para, porque, sendo imenso o abstencionismo, vai enfrentar a dificuldade política da ilegitimidade, das bases vulneráveis. Uma eleição não legitimada, presença pela grandeza, está condenada a dificuldades e tropeços.
 
O contágio
O ministro Édson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, é homem de muitas leituras, como faz entender nos discursos e nos votos que foram levados ao Pleno. O que permite presumir que já tenha passado os olhos em Mateus, 9, no Novo Testamento, de onde se extrai lição oportuna sobre os riscos de contaminação do corpo sadio com a doença de alguns de seus órgãos. Melhor cortar a mão e o pé defeituoso, ensinar o evangelista, e atirá-los ao fogo do geena, para não comprometer o organismo inteiro.
Pois é para salvar o que resta do antigo prestígio da corte que comanda, que o doutor Fachin precisa entrar em campo, avançar com seu prometido elenco de regras de conduta a serem cumpridas por seus pares. Deles é necessário um rigoroso estudo dos princípios de moral e ética nas decisões e no comportamento diante da sociedade. E, se possível, encostar os maus.
Dois ou três ministros, hoje escalpelados pela opinião pública, são minoria, mas, tal como anuncia o Evangelho, conseguindo denegrir o colegiado.  

quarta-feira, 4 de março de 2026

 

Maioridade penal

(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" )) 

Para aproveitar o embalo das atenções que absorvem a Câmara em torno da segurança pública, sob o clamor da sociedade por instrumentos eficazes ante a onda avassaladora da violência, os deputados esperam ter condições de, amanhã à tarde, levar a plenário o projeto de redução da maioridade penal para 16 anos. É matéria rendida, por assim dizer, pois ali já passou aprovado, e só não prosperou porque, ao esbarrar no Senado, seu presidente Pacheco a engavetou, para alegrar governantes, contrários a esse avanço, embora recomendado pela experiência e por grandes juristas.
Em nossos dias, para acentuar a necessidade de se quebrar a inimputabilidade, certamente contribui o fato de a rapaziada ter papel cada vez mais saliente na história dos delitos, não raro usado pelo crime organizado, sob a promessa de que, por mais hedionda que tenha sido sua infração, o castigo não precisa de ser além de poucos meses em qualquer instituição socioeducativa, de onde, longe de emendar-se, sairá aperfeiçoada para o mal, esperança para, em liberdade, prestar novos serviços à violência urbana.
2 – É insustentável, já desbotado pela experiência, o argumento de que só depois dos 18 anos o jovem pode responder pelos desvios que pratica. Muito antes disso, por imposição do universo de informação com que ele convive, sabe muito bem fazer distinção entre o certo e o errado, o que convém ou não convém. Se optar pelo pior, não terá sido por ignorar os princípios básicos de um meio social em que vive. Fora certa mistura de hipocrisia e contradição: um jovem bandido, um pouco distante da maioria, pode votar, pode dirigir veículo automotor, gerenciar empresas e até empunhar fuzil no baile funk. Por que não ser responsável quando mata e rouba? 
Foi com base no conhecimento e na capacidade de discernir que a legislação portuguesa definia como imputável o gajo de 16 anos. A Alemanha, mais rigorosa, cobra conformidade à lei aos que chegam aos 14, exemplo que o Congresso da Argentina também mencionou na semana passada.
(É de 2008 o “Código da Vida”, biografia do jurista Saulo Ramos, editada pelo Planeta do Brasil. Leio na página 325, “somente três países no mundo - Brasil, Colômbia e Peru - mantêm essa velharia de maioridade penal aos 18 anos. O resto do mundo fixou a responsabilidade abaixo dos 16. E o fez racionalmente, sem emoção, diante da atualidade cientificamente comprovado: o jovem acima de 10 anos distingue-se perfeitamente entre o bem e mal").
3 – Os autores sugerem que, em 2028, quem participar da eleição participe igualmente de um referendo, de forma a que todos, inclusive os que naquele ano tenham 16, possam manifestar-se a respeito. Um cuidado que se revela dispensável, porque todas as consultas que foram feitas à opinião pública são de manifestação de aprovação.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

 

Além da escala 6 x 1

No rastro da discussão em torno de um novo modelo para as relações de trabalho, e deste com o mercado, extinguindo-se a velha jornada 6x1, é possível identificar dois temas paralelos, de interesse inegável; apenas para pinçar os dois mais excitantes. Algo de que precisamos cuidar, independentemente do comportamento do Congresso Nacional quanto à ampliação das horas de descanso prometidas para trabalhadores que ainda não têm.  
Não há garantia de que questão tão polêmica, tratada com reservas pelos setores produtivos, possa gerar bons resultados para seus proponentes, em tempo de resultar em simpatias e gratidões em ano eleitoral. Mas isso não invalida, de alguma forma, a necessidade de se aprofundar o estudo sobre a produtividade. E, não menos importante, conferir estímulo ao direito de negociações diretas entre os representantes do capital e do trabalho; sobretudo ao se considerar que as forças que geram a produção guardam diferenças significativas, impossíveis de serem desconsideradas, quando se trata de avançar sem sempre delicado ajuste de interesses.
O primeiro temor leva à questão da produtividade, que já merecia ser cuidada, antes mesmo de entrar na pauta o projeto da escala 6 x 1. Basta considerar que, nos últimos anos, ela sofreu redução da ordem de 30%, em comparação com experiências externas; com os Estados Unidos, por exemplo. Se, na década passada e recentemente, nossos índices nesse campo não sofreram situação mais preocupante demonstra ao desempenho exitoso do agronegócio.
O Congresso, antes mesmo que o Executivo se sensibilizasse para tanto, deveria se dedicar ao assunto, cuja complexidade, somada à carência de avaliações técnicas, tornou-se, por isso mesmo, tema favorito dos adversários da nova proposta do descanso esticado, que contempla uma semana com dois dias de ócio.
Um detalhe, entre muitos que explicam maior interesse político nessa área, é que a produtividade mostra estar sujeita a influências inevitáveis, como a interferência da sombra da automação e da adoção de recursos da tecnologia e da lógica, inacessíveis a pequenos e médios produtores, que são a maioria. Produzir mais e melhor, com vistas a um mercado sempre exigente, tem, em outro poderoso desafio, a carga tributária, que no Brasil é predadora olímpica.
É preciso insistir em que o Congresso se detenha sobre tal desafio, mesmo que uma nova escala de trabalho chegue a um ritmo de ser alvo de uma campanha eleitoral.
2 – O segundo ponto levantado é a necessidade de o país assumir uma coragem de confiar mais no poder da livre negociação entre patrões e empregados. Os conflitos das jornadas reduzidas causariam menos preocupação se os acordos entre as partes, preservados interesses comuns e possíveis, fossem práticas extremamente impostas. A experiência de outros países sugere que o Brasil também pode avançar nesse campo, libertando-se, tanto quanto possível, da interferência dos poderes, porque o papel deles que se espera é dirimir dúvidas e remover impasses. O que já seria muito.
Quanto à virtude da livre negociação, vem à lembrança o que ensinou Marcelo Pimentel, veterano ministro do Tribunal Superior do Trabalho, meio século atrás: “Através da negociação, as vantagens são ajustadas à realidade de cada setor da produção” Nada mais que isso.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

 

Por falar em condutas 

(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Três fatos, mais recentemente, chamam atenção, quando se trata de uma pauta primária para as eleições de outubro. A primeira foi a iniciativa da ministra Cármen Lúcia, membro do Tribunal Superior Eleitoral, ao elaborar um decreto de recomendações aos juízes que terão atuação direta no pleito de outubro. Nada a levou a exigir em demasia, até porque as normas de seriedade que a preocupam gozam de antiguidade, são decorrentes da responsabilidade proveniente de autoridades, que têm obrigações de cumprimento o que está resumido em uma dezena de advertências. Em rigor, nem era preciso lembrar que se desativasse as normas de seriedade a quem prestou juramento de acatá-las como dever da função.
Aos recomendados falaram-se em não receber presentes de detalhes, um certo acanhamento em atos festivos que ensejarem alguma intimidação com partidos e candidatos. Como contestar isso?  
O que talvez autorize a iniciativa da ministra, é que essas e outras inconveniências não são raras; pelo contrário, comuns nos debates eleitorais a que assistimos nos rincões deste país, onde não há propriamente lideranças, mas chefias. Orado eleito rebelde sofre perseguições e constrangimentos dos poderosos do lugar.
Como conter tais abusos, levando os criminosos a sofrerem penas justas, é assunto que fica para nossa proposta moralizadora da ministra.
2 – Gostamos ou não do ministro Flávio Dino, numerosos somos em ambos os casos, não seria possível contestá-lo, quando se levanta contra duas coisas que perturbam a já escassa e capenga a moralidade na política e nos serviços públicos. A primeira diz respeito às emedas parlamentares, que neste ano vão custar R$ 60 bilhões aos pagadores de impostos; e, agora, sem qualquer acanhamento, com prazo para liberação até junho, o que expõe, com nitidez, que o objetivo delas não é outro que não facilite a reeleição dos deputados e senadores que as propuseram.
A segunda, iniciativa mais recente, é a sua incursão em outra área de escândalo, a dos penduricalhos, revestidos como abonos, distribuídos pelos poderes, sem exceção do Supremo Tribunal, onde o ministro o Dino tem assento. Não se sabe se sua robustez seria suficiente para enfrentar os pares da toga e atacar essas pessoas, que também ali se fazem presentes, agora com o cheiro inconfundível de incenso nas narinas de funcionários eleitos.
3 – Outro fato a chamar a atenção nos dias recentes foi a vigilância das pesquisas eleitorais em todos os grandes estados. Com uma coincidência em quase todas elas: a tendência dos brasileiros é eleger a deficiência da segurança como o problema maior e mais sensível da sociedade, a reclamação do poder público ações objetivas e concretas. Saúde, transporte, desemprego e educação são deficiências denunciadas pelos entrevistados de todos os cantos, mas longe de destronar a sinistra liderança da insegurança. Porque, como nunca dantes, mata-se, rouba-se, sequestra-se, corrompe-se. 
A preocupação é mais que pertinente, e não deve surpreender, porque é um problema que cresceu, e vai crescendo, como resultado daquele que é – este sim – o maior entre todos os problemas do Brasil: a impunidade, o que as pesquisas não mostram. Mas é ela que cria campos cada vez mais férteis para o crime, numa variedade de tolerâncias, que vão desde as generosas audiências de custódia até os afagos com que a Justiça contempla os criminosos condenados.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

 

Primeiras peças da bateria  

(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
Em qualquer campanha para a Presidência da República os fatos políticos decorrem de tramas e acidentes, que muitas vezes se atropelam, confundem-se ou se intercalam. Agora, faltando pouco mais de dois meses para as desincompatibilizações e mudanças na filiação partidária, vamos tomar forma definitiva as primeiras peças do grande jogo que está por vir. Muitos despedem-se de suas legendas para disputar em caminhos que parecem mais simples. São raros os que saltam em definitivo, desacorçados com a política. No momento, nada menos de oito desembarcaram dos altos escalões federais para disputar, em seus estados, vagas milionárias para Câmara e Senado. Justifica-se o interesse, pois, mais do que nunca, sabe todos, e mais ainda sente o futuro presidente, que é prioritário tentar a maioria parlamentar, para que quem vier não caia nas esparrelas vivas por Lula, minoritário no Congresso, onde só consegue transitar à custa de muita saliva dourada. Mas essa sonhada e poderosa maioria, como tem força para trabalhar o Executivo, é também prioridade para os opositores, que gostaram da experiência de quatro anos, e vão jogar tudo e todos para garantir o status.
Outro dado a influenciar, decisivamente, nasceu o projeto do governador Tarcísio de Freitas de não ceder aos acenos da direita para mergulhar na aventura do Planalto, onde pretende chegar sim, mas não agora. Primeiro, quer colher o bônus de uma reeleição paulista sem dificuldades. Em 2030, com Lula e Bolsonaro certamente ausentes, tentará o salto, que hoje não gozaria de todas as garantias, afetado por uma polarização que pode chegar a outubro com uma couraça inexpugnável, obra da esquerda e da direita, ambas beneficiárias do painel de tração daí decorrentes.
2 – Os veteranos não ignoram que nos anos 50, e algum tempo depois deles, o velho PSD dividia forças eleitorais com UDN e PTB, sobrepujando-se a ambos, muitas vezes, graças à grande capacidade de seus líderes de conciliar, ocupar espaços ou assumir despojos deixados pelos litigantes maiores. Uma sabedoria manhosa, que se convencionou chamar de raposismo. Tancredo, Ulysses, Thales Ramalho e Amaral Peixoto, entre outros, pontificaram essa capacidade de descobrir onde está o caminho do meio. O negócio seria, mais uma vez, somar o que há de bom nos extremos, sem se contaminar pelo que eles têm de ruim. É a razão de se falar em centro-direita e centro-esquerda.
Faz sentido lembrar disso agora? Sim, porque há um novo PSD no cenário, que parece não romper o cordão umbilical com o antigo, para também acreditar na via do centro. Abrigou os governadores do Mato Grosso, Paraná e Rio Grande, bem avaliados em seus estados, distantes dos radicais, todos com aspirações presidenciais, mas já prometendo reagir às duas candidaturas já postas, que têm a singularidade de serem favoritas, embora campeãs em colapso ...
Quem estiver distante dos radicais pode conviver e alinhavar os acertos com o esse pessedismo ressurgente. Obra da habilidade de Gilberto Kassab, presidente do PSD, que começa por anunciar que dispensa críticas raivosas, quer ideias e projetos diferentes, sem ofensas desnecessárias. Hoje, como no passado, o chefe pessedista tenta a habilidade do relojoeiro que conserta relógio com luvas de pelica...
O clima adoeceu
O assunto acaba esbarrando na política. É a manipulação da saúde climática do planeta, como se expressar alguns especialistas da área, próximo a um grande impasse, em que a natureza perde a paciência diante de tantas ofensas, e parte para o revide. Por parte dela, as respostas têm sido cada vez mais violentas e fatais.
O exemplo mais evidente veio dos Estados Unidos, que sediaram as maiores resistências aos apelos universais pela adoção de uma política capaz de reduzir os efeitos dos agentes de poluição. Pois tem sido exatamente ali que os específicos naturais vão causar enormes estragos, e começar os gigantescos incêndios provocados por combustão espontânea, que matam e destroem casas na Califórnia; e, cada vez mais trágicas, como nevascas. Em nenhum país onde a tecnologia atingiu níveis invejáveis, a população vê difícil a água que está congelada nos canos, e se obriga a consumir alimentos pré-cozidos, por escassez de energia. Ironia. Na semana passada, uma população de 800 mil também faltou como calafetar. Os aeroportos de Nova York, considerados entre os mais sofisticados do mundo, parados. Incalculáveis ​​os prejuízos provocados pelo cancelamento de milhares de voos. Uma tragédia vestida de branco.
A natureza, cansada das injúrias, parece decidida a não perdoar, reagindo com enchentes, com fogo e neve, provocando ausência de calor, o que faz as pessoas congelarem; ou, ainda, pela violência dos terremotos e dos furacões, lá e em todos os continentes.
(Nem todos perceberam, mas, no ano passado, os abalos em todo o mundo tiveram nível médio de quase 5 graus na Escala Richter. O que é quase catastrófico).
O clima está doente. Já os seminários e congressos não bastam, é insuficiente o laudatório político dos conferencistas. Reclamar a coragem de ações concretas.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

 

Uma ONU reformada

(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" )) 

A verdade e a experiência ensinam que nada é tão ruim no tempo e no espaço, que deles não se possa extrair algum proveito. Talvez seja oportuno acomodar no espírito dessa sabedoria o quadro conturbado nas relações internacionais, em grande parte devido ao temperamento mercurial do presidente Trump. Pois, se nada é tão ruim, parece possível que de tudo isso nasça uma nova ordem política de convivência entre os países e seus governos. Estaria essa ordem baseada e inspirada na reformulação da Organização das Nações Unidas, que, a despeito da excelência de seus propósitos, não tem conseguido botar ordem no mundo; e a paz, ideal consagrado como o maior de seus objetivos, não consegue avançar; muito menos fazer-se respeitar. Antiga, nascido sob o calor de uma guerra mundial que acabava de acontecer, envelheceu, está a reclamar reajustes.  
O entrave maior, muito claro no curso de seguidos episódios, está no Conselho de Segurança, constituído e administrado por cinco países que, na maioria das vezes, têm responsabilidades diretas ou indiretas nos conflitos que eles mesmos geram ou deles tiram proveitos... Fundamental, portanto, seria a ampliação do número de cadeiras nesse poderoso colegiado, de maneira que ali se dê abrigo e direito de voto a todos os povos, eleitores permanentes, não apenas fortuitos ou acidentais.
(O presidente Trump jamais figurou entre os admiradores da ONU, como parte de uma conhecida aversão por instituições internacionais. A Otan e as organizações da Saúde e do Comércio são alguns exemplos. Percebe-se essa antipatia no seu projeto mais recente, o Conselho da Paz, envolvendo 60 países, unidos para a reconstrução de Gaza em ruínas, mas sem a presença dos palestinos, principais interessados, donos da terra).
Não é de agora, mas de muitos anos passados, com Juscelino, Jânio ou Fernando Henrique que o Brasil levanta uma voz ativa em nome da reestruturação desse Conselho. Somaram-se a muitas outras delegações que integram a ONU, em cujo plenário, sabem todos, nos momentos críticos a palavra final tem sotaque inglês, francês, russo ou chinês. Não há ali outro idioma quando suscitadas questões de segurança e de guerras que têm hora para começar, mas não sabem como acabar.
 Se a expansão da representatividade sempre foi uma imposição da sensatez, muito mais nestes dias em os três membros mais influentes -  Estados Unidos, Rússia e China – ensaiam transformar o globo num bolo, onde as cerejas estão na superfície ou no subsolo, e dividido entre eles: os russos com a Ucrânia e depois outros satélites; a China cada vez mais animada em tomar Taiwan e ilhas longamente colonizadas pelo Japão; e Estados Unidos, com pouco convincentes argumentos para assumir totalmente a Groenlândia, além da América Latina, que Trump tem na conta de um quintal inacessível a quem vem de outras plagas, que não sejam os ianques.