terça-feira, 21 de julho de 2026

 

O que falta na campanha eleitoral

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
A bem pensar, estivesse nossa organização político-partidária em estágio mais evoluído, a campanha eleitoral de outubro teria dado, ontem, o passo definitivo, com a abertura da temporada das convenções, que podem se estender pelas próximas duas semanas. Apenas o primeiro passo para a eleição, porque ainda falta acontecer muita coisa no emaranhado dos bastidores, antes que os partidos enviem suas atas finais à Justiça. Só então, tirante a expectativa de eventuais impugnações, bem ou mal as peças do grande jogo estarão postas no tabuleiro.
O que nos espera é um pleito com certas indagações capazes de justificar dúvidas, para não dizer apreensões. É o caso, entre outros, do quadro que se abre na corrida pela Presidência da República, que deixa a nítida impressão de que os postulantes se satisfazem com a triste realidade da polarização, serviçal  indistinta 00aos envolvidos na guerra pelo poder, partam de onde partir os tiroteios. Dos nomes propostos (não se sabe sobre os que ainda possam vir), o que se tem oferecido ao eleitorado é esse estranho plebiscito sobre simpatias e antipatias, destinado a conferir ao voto nada mais que o direito de fazer opção pelo inimigo do outro... Não a opção por quem parecer mais qualificado, o que lamentavelmente se afigura secundário; mas votar no adversário de quem não se deseja. Não é outra coisa o que vem sugerindo o discurso das pré-candidaturas. Voto contra, não a favor. 
(Ser a favor só por odiar quem está do outro lado. Aliás, não seria coisa nova entre nós. Seis décadas passadas, em conversa amistosa com Tancredo Neves, Jânio Quadros já advertia: “meu caro Tancredo, atente para o fato de que o povo não gosta de amar; gosta é de odiar”).
O clima de hostilidades, não raro avançando sobre questões de natureza familiar, empobrece o desejável debate sobre temas que são do interesse geral. Estamos correndo o risco, neste tempo eleitoral, de não sentir brotar ideias inovadoras frente a uma sociedade que reclama abertura de novos horizontes. Apenas para lembrar uma das questões mais agudas, o fenômeno sociológico que alterou conceitos de maioria e minoria na sociedade. As mulheres e os negros não mais constituem minoria, tornaram-se maioria da população. O que os candidatos têm a dizer sobre isso, além das velhas e cansadas falsas promessas eleitoreiras? Já não são mais os indigentes das estatísticas; e os candidatos e seus partidos não se mostram sensíveis.
2 – O povo e seu voto também não podem estar alheios aos desafios que surgem no campo das relações do Brasil com países de estreita convivência. Nem se fala no governo dos Estados Unidos, porque quanto àquele os desencontros devem cessar ou diminuir, tão logo se conheça a sucessão presidencial, na qual os americanos têm preferência bem definida. Trump não passaria o resto da vida de cara amarrada se as urnas não lhe forem simpáticas. ...
Afora os americanos, a campanha devia conferir justo espaço para o eleitor mostrar como deseja ver o país posicionado frente às realidades da geopolítica. Nós e o resto do mundo; nós e as diferenças em relação à América Latina, à qual estamos ligados de corpo e alma; nós e as civilizações orientais, pois delas importamos muito da nossa cultura, como atesta o sangue que corre nas veias de milhões de descendentes, que têm o título eleitoral à mão. É outra realidade que não pode passar em branco, quando vai chegando a hora de definir rumos.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

 

Emendas na berlinda

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil"))
 Quem se dispuser a sair à caça de unanimidades na vida política do Brasil  haverá de encontrar, com facilidade, a velha suspeição que pesa sobre as emendas parlamentares, que vêm frequentando, com desenvoltura, a crônica dos grandes escândalos. Outra unanimidade é que ninguém sabe como salvá-las da corrupção, preservadas no que tiverem de raras boas intenções. Ninguém tem o remédio, como se constatou nas numerosas entrevistas de especialistas no fim de semana, quando despencava sobre Valdemar Costa Neto, presidente do PL, uma violenta carga de denúncias. Ele não é deputado, mas orientou o destino de emendas que, bem somadas, chegaram a R$ 119 milhões. Além do mais, o que pode garantir que Valdemar é um solitário nessa prática? Que outros, igualmente sem mandato, mas com as chaves do cofre do fundo partidário, não estariam gozando do mesmo privilégio?
 Esse nível de infâmia, isto é, a desnecessidade de ser deputado para destinar emendas que dependem de decisão parlamentar, figurava, até há pouco, entre defeitos inimagináveis de uma realidade política já infestadas de desvios e gatunagens. É mais um episódio que leva a crer estarmos num singular país em que até o impossível é possível.
Os jornais televisivos do fim de semanas esgotaram tempo e espaço para desnudar as emendas, colocando à mostra suas intimidades, defeitos e vícios. Algumas vozes credenciadas coincidem em que os desvirtuamentos avançaram para o status dos grandes escândalos; mas os muitos entrevistados, ainda que donos de uma bagagem qualificada, não souberam dizer aos telespectadores em que caminho convém seguir para corrigir o grande problema.
(O mal original dessas emendas, que acabaram virando cabos eleitorais, é que elas extrapolam os limites do Legislativo e incursionam na seara das prerrogativas da política financeira do Executivo, tornando-o refém. Famintas, têm apetite que cresce na mesma proporção em que se avolumam os orçamentos da União. Hoje, consomem algo em torno de R$ 90 bi).
Experientes constitucionalistas e tributaristas, entre os quais, de tão frequentes na tela já parecem artistas de TV, não acendem uma luz; não indicam a solução para o problema. Apenas concordam em um ponto: mesmo sangrando, o Executivo não tem força suficiente para reagir, porque sempre depende dos senadores e deputados para ter aprovados projetos de interesse dele. Resta esse poderoso impasse.
No dia – em que dia? – que o Congresso conscientizar-se de que a deformação das emendas parlamentares chegou a um ponto insustentável, talvez se anime a adotar a medida cirúrgica radical: congelá-las, durante dois anos, tempo correspondente à metade do mandato, e, nesse ínterim, sem liberar qualquer tipo de emenda, estabelecer novos critérios, limites e severas limitações para aplicação dos recursos, sejam eles originários de iniciativas pessoais ou de bancada.
E levar a sério a rastreabilidade. Deixar bem marcada a digital do proponente, para que, dos males, o menor: emendas a salvo de ingerências, como essa que acabamos de ver.
É preciso ir fundo na apuração. Deputados subjugados a interesse externo, apoiados por funcionários coniventes, são parte de uma associação criminosa, digna de cair no colo do artigo 288 do Código Penal.

terça-feira, 7 de julho de 2026

 

Enfim, o tempo eleitoral

(( Wilson Cid, hoje  no "Jornal do Brasil ))
 
Mal começado o ano, sem se permitir ignorar o que seria mais importante no calendário, não houve quem negasse a prioridade das eleições de outubro. Tanto assim, que logo setores competentes começaram a cobrar dos partidos e de suas lideranças que dessem mãos à obra, com propostas programáticas e soluções engenhosas para os grandes problemas do país; e que, em nome dos interesses nacionais, abraçassem essa causa, antes mesmo de serem conhecidos os postulantes à Presidência da República e à governadoria dos estados. Porque, já em janeiro, seria conveniente abrir logo à discussão tais plataformas, de maneira que os candidatos que viessem saberiam o acervo das questões a serem ajustadas aos seus ideários e às suas intenções junto ao eleitorado.
Pois bem, acabou prevalecendo um velho comodismo, segundo o qual, não tem cabimento, nem faz sentido, tratar de eleições antes do carnaval, uma quadra caracterizada, marcadamente, pela singular competência de passar por cima das coisas sérias. Depois, a oportunidade do discurso foi novamente adiada, porque chegaria a Semana Santa, outro divisor importante do calendário, tempo destinado a reflexões sobre a Paixão, embora, na verdade, transformada por milhões em temporada de ócio à beira do mar. Como destinar tempo para as eleições? Nem pensar.
Neste ano, também haveria de concorrer a Copa do Mundo, dona de fervoroso sentimento nacional, outro motivo para protelar conversas sobre as eleições. Mas, antes delas, um assunto de que devíamos estar cuidando há mais de ano: o verdadeiro projeto nacional que nos falta, sempre relegado às improvisações, refém do temperamento dos governantes, das conveniências e visões pessoais sobre os caminhos a seguir.
Restando três meses para as eleições majoritária e proporcional,  não nos resta tempo para dar trato a essa questão tão relevante, o projeto nacional. Seria pedir muito. Mas os partidos e os candidatos já fariam algo se nos dissessem, nos palanques que começam a ser montados, o que pensam sobre tal prioridade, eternamente relegada com impatriótica devoção.  
Sem o jogo desigual
 
Na história dos avanços e retrocessos da legislação eleitoral brasileira há duas conquistas de valor incontestável. A primeira, adotada com base em experiência de De Gaulle, na França, foi a adoção do segundo turno para eleição majoritária em que os principais candidatos não alcancem maioria. Muito importante, porque, na disputa que ficou restrita a dois favoritos, dá-se o direito de participação de eleitores que, na votação anterior, preferiram candidatos relegados.  
A segunda conquista, não menos digna de ser preservada, trata do impedimento de candidatos que ocupam cargo público executivo de promover, com três meses de antecedência, a inauguração de obras realizadas ou prometidas. Permitir festas dessa natureza seria a celebração de vantagem sobre os demais concorrentes, injustiça que se torna maior quando se sabe que é fazer festa com dinheiro de impostos.
No último sábado expirou o prazo para essa distorção, não sem o protesto dos candidatos que gozariam dos eventos inauguratórios, entre os quais o próprio presidente Lula, para quem a restrição é mera palhaçada... Goste ou não goste, é o mínimo que se pode fazer para limitar desigualdades entre os que correm em raias paralelas, com o mesmo objetivo.

terça-feira, 30 de junho de 2026

 O que falta nessas convenções?


(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Amanhã começa o mês das convenções partidárias, com prazo para se processarem entre o dia 20 e 5 de agosto. Muito importantes, porque sem elas o sistema eleitoral não admite candidaturas. O que significa ser, efetivamente, a abertura da temporada de caça aos votos, com todos os postulantes formalmente lançados.
Tempos idos, sempre havia alguém defendendo a adoção do voto avulso para o candidato sem qualquer filiação partidária, acima de convenções. Mas a ideia era logo abandonada, e os partidos, diretamente interessados, cuidavam de sepultar a novidade; e com eles acabava concordando a Justiça, temerosa de que, acima do desejável direito de o voto optar por qualquer cidadão, corria-se o risco de a apuração resultar em imensa confusão, pois seriam milhões de candidatos... 
Mas essas assembleias partidárias continuam distantes do que seria ideal. A começar por um defeito evidente, que ninguém pode negar: a finalidade de reunir convencionais tem apenas a intenção de garantir quórum para decisões já tomadas em gabinetes, onde se formatam interesses de grupos e predomina a vontade de poucos, os caciques, que decidem. E esta é uma realidade da qual fazem parte todas as agremiações políticas.
A escolha dos candidatos é algo semelhante ao prato feito, servido de acordo com a vontade dos donos da festa, que também impõem o cardápio das alianças, muitas vezes intragáveis, de difícil digestão. O convencional assiste à encenação, bate palmas e homologa, para só ser chamado dentro de dois anos, quando de nova eleição.
As convenções, diferentemente do que se vê, deviam ser periódicas, para que os filiados influíssem na gestão e no destino dos partidos, não apenas   como peça validativa em ano eleitoral.
Entendendo Trump
Não só no Brasil, em qualquer lugar do mundo civilizado encarregados dos negócios externos de seus países vivem maus momentos para analisar e entender Donald Trump; porque nunca se sabe se o que ele diz, repetidamente, é parte de meros desejos pessoais, ou se, de fato,  seu país cultiva delírios expansionistas, para mandar em tudo e em todos. Pode ser isso, a se julgar pela frequência como o presidente avança em incursões totalmente fora dos padrões da diplomacia.
Ora, se este é um cenário que se espalha mundo afora, não haveria de ser o Brasil exceção. Também aqui incomoda esse internacionalismo, já não apenas por ter a Casa Branca definido como terrorismo o nosso crime organizado, sob a alegação de que a bandidagem nacional é mais perigosa, por ser tragédia exportável, vai além das fronteiras. Uma conceituação discutível.
Mas as preocupações naturalmente se dilatam quando Washington insinua particular interesse no destino da eleição presidencial brasileira. Cabe uma interpelação, pela via do Congresso Nacional, para que Trump ou seus assessores informem se se trata apenas de simpatia por um dos candidatos, o que seria tolerável; ou, na contramão, têm real intenção de interferir no processo.
Temos direito de saber, com interlocução séria e respeitosa, não com bravatas de falso nacionalismo de palanque eleitoral e bazófias. O caminho adequado é a Comissão de Relações Exteriores do Senado. Sem tardança, porque a eleição já vai bater à porta.

O que falta nessas convenções? Amanhã começa o mês das convenções partidárias, com prazo para se processarem entre o dia 20 e 5 de agosto. Muito importantes, porque sem elas o sistema eleitoral não admite candidaturas. O que significa ser, efetivamente, a abertura da temporada de caça aos votos, com todos os postulantes formalmente lançados. Tempos idos, sempre havia alguém defendendo a adoção do voto avulso para o candidato sem qualquer filiação partidária, acima de convenções. Mas a ideia era logo abandonada, e os partidos, diretamente interessados, cuidavam de sepultar a novidade; e com eles acabava concordando a Justiça, temerosa de que, acima do desejável direito de o voto optar por qualquer cidadão, corria-se o risco de a apuração resultar em imensa confusão, pois seriam milhões de candidatos... Mas essas assembleias partidárias continuam distantes do que seria ideal. A começar por um defeito evidente, que ninguém pode negar: a finalidade de reunir convencionais tem apenas a intenção de garantir quórum para decisões já tomadas em gabinetes, onde se formatam interesses de grupos e predomina a vontade de poucos, os caciques, que decidem. E esta é uma realidade da qual fazem parte todas as agremiações políticas. A escolha dos candidatos é algo semelhante ao prato feito, servido de acordo com a vontade dos donos da festa, que também impõem o cardápio das alianças, muitas vezes intragáveis, de difícil digestão. O convencional assiste à encenação, bate palmas e homologa, para só ser chamado dentro de dois anos, quando de nova eleição. As convenções, diferentemente do que se vê, deviam ser periódicas, para que os filiados influíssem na gestão e no destino dos partidos, não apenas como peça validativa em ano eleitoral. Entendendo Trump Não só no Brasil, em qualquer lugar do mundo civilizado encarregados dos negócios externos de seus países vivem maus momentos para analisar e entender Donald Trump; porque nunca se sabe se o que ele diz, repetidamente, é parte de meros desejos pessoais, ou se, de fato, seu país cultiva delírios expansionistas, para mandar em tudo e em todos. Pode ser isso, a se julgar pela frequência como o presidente avança em incursões totalmente fora dos padrões da diplomacia. Ora, se este é um cenário que se espalha mundo afora, não haveria de ser o Brasil exceção. Também aqui incomoda esse internacionalismo, já não apenas por ter a Casa Branca definido como terrorismo o nosso crime organizado, sob a alegação de que a bandidagem nacional é mais perigosa, por ser tragédia exportável, vai além das fronteiras. Uma conceituação discutível. Mas as preocupações naturalmente se dilatam quando Washington insinua particular interesse no destino da eleição presidencial brasileira. Cabe uma interpelação, pela via do Congresso Nacional, para que Trump ou seus assessores informem se se trata apenas de simpatia por um dos candidatos, o que seria tolerável; ou, na contramão, têm real intenção de interferir no processo. Temos direito de saber, com interlocução séria e respeitosa, não com bravatas de falso nacionalismo de palanque eleitoral e bazófias. O caminho adequado é a Comissão de Relações Exteriores do Senado. Sem tardança, porque a eleição já vai bater à porta.

 

O que falta nessas convenções?

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Amanhã começa o mês das convenções partidárias, com prazo para se processarem entre o dia 20 e 5 de agosto. Muito importantes, porque sem elas o sistema eleitoral não admite candidaturas. O que significa ser, efetivamente, a abertura da temporada de caça aos votos, com todos os postulantes formalmente lançados.
Tempos idos, sempre havia alguém defendendo a adoção do voto avulso para o candidato sem qualquer filiação partidária, acima de convenções. Mas a ideia era logo abandonada, e os partidos, diretamente interessados, cuidavam de sepultar a novidade; e com eles acabava concordando a Justiça, temerosa de que, acima do desejável direito de o voto optar por qualquer cidadão, corria-se o risco de a apuração resultar em imensa confusão, pois seriam milhões de candidatos... 
Mas essas assembleias partidárias continuam distantes do que seria ideal. A começar por um defeito evidente, que ninguém pode negar: a finalidade de reunir convencionais tem apenas a intenção de garantir quórum para decisões já tomadas em gabinetes, onde se formatam interesses de grupos e predomina a vontade de poucos, os caciques, que decidem. E esta é uma realidade da qual fazem parte todas as agremiações políticas.
A escolha dos candidatos é algo semelhante ao prato feito, servido de acordo com a vontade dos donos da festa, que também impõem o cardápio das alianças, muitas vezes intragáveis, de difícil digestão. O convencional assiste à encenação, bate palmas e homologa, para só ser chamado dentro de dois anos, quando de nova eleição.
As convenções, diferentemente do que se vê, deviam ser periódicas, para que os filiados influíssem na gestão e no destino dos partidos, não apenas   como peça validativa em ano eleitoral.
Entendendo Trump
Não só no Brasil, em qualquer lugar do mundo civilizado encarregados dos negócios externos de seus países vivem maus momentos para analisar e entender Donald Trump; porque nunca se sabe se o que ele diz, repetidamente, é parte de meros desejos pessoais, ou se, de fato,  seu país cultiva delírios expansionistas, para mandar em tudo e em todos. Pode ser isso, a se julgar pela frequência como o presidente avança em incursões totalmente fora dos padrões da diplomacia.
Ora, se este é um cenário que se espalha mundo afora, não haveria de ser o Brasil exceção. Também aqui incomoda esse internacionalismo, já não apenas por ter a Casa Branca definido como terrorismo o nosso crime organizado, sob a alegação de que a bandidagem nacional é mais perigosa, por ser tragédia exportável, vai além das fronteiras. Uma conceituação discutível.
Mas as preocupações naturalmente se dilatam quando Washington insinua particular interesse no destino da eleição presidencial brasileira. Cabe uma interpelação, pela via do Congresso Nacional, para que Trump ou seus assessores informem se se trata apenas de simpatia por um dos candidatos, o que seria tolerável; ou, na contramão, têm real intenção de interferir no processo.
Temos direito de saber, com interlocução séria e respeitosa, não com bravatas de falso nacionalismo de palanque eleitoral e bazófias. O caminho adequado é a Comissão de Relações Exteriores do Senado. Sem tardança, porque a eleição já vai bater à porta.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

 

U bom costume 

(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Em outros tempos era assim. Ao servidor público graduado, notadamente se exercesse mandato eletivo, recomendava-se que, estando sob suspeita de ato ilícito, deixasse imediatamente a carga ou função, ainda que pretextando inocência. E distante permanência, à espera da conclusão das sindicâncias, se foi feito ou não. Agia por conta própria, sem necessidade de insinuações para desocupar a cadeira. Era um bom traje. Não é mais.
Jaques Wagner desviou-se da liderança do governo no Senado, quando um ministro do Supremo Tribunal e da Polícia Federal concluiu que são graves as suspeitas de suas relações com o Banco Master, por ele defendido com ânimo no Congresso, além de ser simpático a outros interesses do banqueiro Daniel Vorcaro. Afastando-se, evitaria constrangimento para o presidente da República, que, em nome de uma amizade que vai para mais de 40 anos, não teve outro remédio: cozinhar o caso em fogo brando, esperar que se arrefeçassem as calorias da hora, e o problema milagrosamente pudesse esvaziar-se por si mesmo.
Ou, então, torcer para que o problema recente seja esquecido, por força de outras crises prontas para morrer. No Brasil há sempre um escândalo na fila, esperando vaga para ocupar vagas e manchetes. Nas últimas semanas, Wagner foi antecedido por Ciro Nogueira, Hugo Mota, Alcolumbre, com gravação digital na carteira de Vorcaro. Agora, sai Flávio entra Wagner. Quem virá depois?  
Chegou a hora que pode ser decisiva para o desfecho, tanto quanto possível menos doloroso para a vida do governo. A desvantagem é evidente, quando algumas vozes mais credenciadas sobem a rampa com o dever de anunciar. É preciso correr contra o tempo, porque o caso Wagner empurra o presidente contra duas paredes, onde pode dar perigosas cabeçadas. Dois problemas. O primeiro é que, sendo o líder moralmente desautorizado, as dificuldades e o custo das tramitações no Senado podem sair do controle, considerando-se que a gestão Lula já caminha maus pedaços na Casa. Quanto à sorte dos vetos, nem se fala.
A segunda dificuldade é que, nesse episódio, sai esfolada a candidatura do senador ao governo da Bahia, onde brota uma preocupação particular para o presidente e seu PT: ali, pelo menos até agora, fora de Wagner não há salvação; e um desempenho insuficiente entre os baianos pode comprometer o destino petista neste 2026.
Por dedução
 
Nos altos escalões ficou definido que pecam por palidez e brandura como propostas de delação com que o banqueiro pretende aliviar suas diferenças com a justiça, melhorando as condições do cárcere. Duas tentativas frustradas, como também desconsideradas são as intervenções dos defensores no seu esforço para o acordo de premiação.
Deduz-se. O ministro Mendonça e a Polícia Federal sabem muito sobre as fachadas do Banco Master. Podem dispensar delações, o que parece claro, quando chegam à jugular do poder, e batem à porta do líder do governo no Senado, um passo poderoso no terreno das amizades estreitíssimas que o banqueiro teme nomear.  
Vorcaro deve se abrir de vez. Nada mais a perder, mas talvez ainda possa ganhar alguns pontos no balanço final dessa tragédia.
Hora de cuidar do próprio destino, esquecer amigos tão generosamente beneficiados, e que agora o abandonam.
Já que há pouco conversamos da Bahia ao banqueiro convém lembrar de Quincas Berro D'Água, personagem de Jorge Amado: chega a hora em que cada um cuide de seu próprio enterro, porque o impossível não há...

terça-feira, 16 de junho de 2026

 

Nada mais escandaliza

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Uma coisa muito grave, acentuada a cada dia mais, é a triste constatação de que o país vai perdendo sua capacidade de escandalizar-se, deixando correr, por conta do inevitável, fatos e situações da maior gravidade, tal como se dá com o império da corrupção. Vive-se uma quadra em que tudo é natural ou inevitável. Deixar como está.
Nessa rota, espantou muito, pela gravidade e pela carência de desdobramentos imediatos, a confissão, quase patética, do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, declarando que o Brasil desceu a uma total incapacidade de manter a soberania territorial frente a qualquer nação agressora. Não há mais como preservar sua integridade, porque o que temos de munição se esgota dentro de 30 dias. Não há peças de reposição e é total a carência de combustíveis. O que significa que nossos tanques, ou apodrecem nos quartéis, ou consumiriam 50 dias para atravessar alguns estados, e chegar ao inimigo que estivesse distante. Os aviões não podem voar, os navios com as amarras atracadas. O quadro, traçado pelo ministro, foi um desabafo diante de generais comandantes calados. Deviam, ao menos, explicar como fica o ânimo da tropa e das escolas de formação de oficiais.
 (Pois é diante dessa paisagem sombria que decidimos debochar do destino e da sorte, vendendo as armas ainda prestáveis que fabricamos, para que os vizinhos se fortaleçam...)
Doutor Múcio não disse, nem lhe foi perguntado, se a Presidência da República tem ciência desse caos, e, se não o ignora, quais as medidas de urgência a serem tomadas. Faz sentido, porque, em plena campanha eleitoral, um dos temas favoritos do governo tem sido a luta pela soberania, depois que os Estados Unidos entraram na órbita nacional para decidir que, no Brasil, crime organizado é o mesmo que terrorismo.
Em qualquer lugar do mundo onde o encarregado da segurança nacional confesse tamanha indefesa a consequência lógica estaria na decretação de estado de emergência. Não sendo a assim, ele se veria na contingência de demitir-se, já que nada pode fazer no cargo que ocupa.  
Com o Brasil de tal maneira desagasalhado de segurança, quadro tão grave justificaria a convocação extraordinária do Congresso; mais ainda porque o ministro foi além, ao agravar sua fala indicando quais são os nossos pontos mais frágeis na eventualidade de uma invasão. Mostrou as pegadas da fragilidade. Ficou exposto, pela voz mais credenciada, que a região Norte vive totalmente desprovida de blindagem, não sendo diferente a realidade das vastas fronteiras. Um permanente aceno aos maus vizinhos, afiançou o ministro da Defesa.
(Um caso de risco concreto estaria na recente ameaça da Venezuela de  conquistar a região de Essequibo, na Guiana. Se partisse para a aventura, teria, forçosamente, de transitar por território brasileiro, e não haveria como impedir a ofensa).
É triste saber de tudo isso.