quarta-feira, 15 de julho de 2026

 

Emendas na berlinda

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil"))
 Quem se dispuser a sair à caça de unanimidades na vida política do Brasil  haverá de encontrar, com facilidade, a velha suspeição que pesa sobre as emendas parlamentares, que vêm frequentando, com desenvoltura, a crônica dos grandes escândalos. Outra unanimidade é que ninguém sabe como salvá-las da corrupção, preservadas no que tiverem de raras boas intenções. Ninguém tem o remédio, como se constatou nas numerosas entrevistas de especialistas no fim de semana, quando despencava sobre Valdemar Costa Neto, presidente do PL, uma violenta carga de denúncias. Ele não é deputado, mas orientou o destino de emendas que, bem somadas, chegaram a R$ 119 milhões. Além do mais, o que pode garantir que Valdemar é um solitário nessa prática? Que outros, igualmente sem mandato, mas com as chaves do cofre do fundo partidário, não estariam gozando do mesmo privilégio?
 Esse nível de infâmia, isto é, a desnecessidade de ser deputado para destinar emendas que dependem de decisão parlamentar, figurava, até há pouco, entre defeitos inimagináveis de uma realidade política já infestadas de desvios e gatunagens. É mais um episódio que leva a crer estarmos num singular país em que até o impossível é possível.
Os jornais televisivos do fim de semanas esgotaram tempo e espaço para desnudar as emendas, colocando à mostra suas intimidades, defeitos e vícios. Algumas vozes credenciadas coincidem em que os desvirtuamentos avançaram para o status dos grandes escândalos; mas os muitos entrevistados, ainda que donos de uma bagagem qualificada, não souberam dizer aos telespectadores em que caminho convém seguir para corrigir o grande problema.
(O mal original dessas emendas, que acabaram virando cabos eleitorais, é que elas extrapolam os limites do Legislativo e incursionam na seara das prerrogativas da política financeira do Executivo, tornando-o refém. Famintas, têm apetite que cresce na mesma proporção em que se avolumam os orçamentos da União. Hoje, consomem algo em torno de R$ 90 bi).
Experientes constitucionalistas e tributaristas, entre os quais, de tão frequentes na tela já parecem artistas de TV, não acendem uma luz; não indicam a solução para o problema. Apenas concordam em um ponto: mesmo sangrando, o Executivo não tem força suficiente para reagir, porque sempre depende dos senadores e deputados para ter aprovados projetos de interesse dele. Resta esse poderoso impasse.
No dia – em que dia? – que o Congresso conscientizar-se de que a deformação das emendas parlamentares chegou a um ponto insustentável, talvez se anime a adotar a medida cirúrgica radical: congelá-las, durante dois anos, tempo correspondente à metade do mandato, e, nesse ínterim, sem liberar qualquer tipo de emenda, estabelecer novos critérios, limites e severas limitações para aplicação dos recursos, sejam eles originários de iniciativas pessoais ou de bancada.
E levar a sério a rastreabilidade. Deixar bem marcada a digital do proponente, para que, dos males, o menor: emendas a salvo de ingerências, como essa que acabamos de ver.
É preciso ir fundo na apuração. Deputados subjugados a interesse externo, apoiados por funcionários coniventes, são parte de uma associação criminosa, digna de cair no colo do artigo 288 do Código Penal.

terça-feira, 7 de julho de 2026

 

Enfim, o tempo eleitoral

(( Wilson Cid, hoje  no "Jornal do Brasil ))
 
Mal começado o ano, sem se permitir ignorar o que seria mais importante no calendário, não houve quem negasse a prioridade das eleições de outubro. Tanto assim, que logo setores competentes começaram a cobrar dos partidos e de suas lideranças que dessem mãos à obra, com propostas programáticas e soluções engenhosas para os grandes problemas do país; e que, em nome dos interesses nacionais, abraçassem essa causa, antes mesmo de serem conhecidos os postulantes à Presidência da República e à governadoria dos estados. Porque, já em janeiro, seria conveniente abrir logo à discussão tais plataformas, de maneira que os candidatos que viessem saberiam o acervo das questões a serem ajustadas aos seus ideários e às suas intenções junto ao eleitorado.
Pois bem, acabou prevalecendo um velho comodismo, segundo o qual, não tem cabimento, nem faz sentido, tratar de eleições antes do carnaval, uma quadra caracterizada, marcadamente, pela singular competência de passar por cima das coisas sérias. Depois, a oportunidade do discurso foi novamente adiada, porque chegaria a Semana Santa, outro divisor importante do calendário, tempo destinado a reflexões sobre a Paixão, embora, na verdade, transformada por milhões em temporada de ócio à beira do mar. Como destinar tempo para as eleições? Nem pensar.
Neste ano, também haveria de concorrer a Copa do Mundo, dona de fervoroso sentimento nacional, outro motivo para protelar conversas sobre as eleições. Mas, antes delas, um assunto de que devíamos estar cuidando há mais de ano: o verdadeiro projeto nacional que nos falta, sempre relegado às improvisações, refém do temperamento dos governantes, das conveniências e visões pessoais sobre os caminhos a seguir.
Restando três meses para as eleições majoritária e proporcional,  não nos resta tempo para dar trato a essa questão tão relevante, o projeto nacional. Seria pedir muito. Mas os partidos e os candidatos já fariam algo se nos dissessem, nos palanques que começam a ser montados, o que pensam sobre tal prioridade, eternamente relegada com impatriótica devoção.  
Sem o jogo desigual
 
Na história dos avanços e retrocessos da legislação eleitoral brasileira há duas conquistas de valor incontestável. A primeira, adotada com base em experiência de De Gaulle, na França, foi a adoção do segundo turno para eleição majoritária em que os principais candidatos não alcancem maioria. Muito importante, porque, na disputa que ficou restrita a dois favoritos, dá-se o direito de participação de eleitores que, na votação anterior, preferiram candidatos relegados.  
A segunda conquista, não menos digna de ser preservada, trata do impedimento de candidatos que ocupam cargo público executivo de promover, com três meses de antecedência, a inauguração de obras realizadas ou prometidas. Permitir festas dessa natureza seria a celebração de vantagem sobre os demais concorrentes, injustiça que se torna maior quando se sabe que é fazer festa com dinheiro de impostos.
No último sábado expirou o prazo para essa distorção, não sem o protesto dos candidatos que gozariam dos eventos inauguratórios, entre os quais o próprio presidente Lula, para quem a restrição é mera palhaçada... Goste ou não goste, é o mínimo que se pode fazer para limitar desigualdades entre os que correm em raias paralelas, com o mesmo objetivo.

terça-feira, 30 de junho de 2026

 O que falta nessas convenções?


(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Amanhã começa o mês das convenções partidárias, com prazo para se processarem entre o dia 20 e 5 de agosto. Muito importantes, porque sem elas o sistema eleitoral não admite candidaturas. O que significa ser, efetivamente, a abertura da temporada de caça aos votos, com todos os postulantes formalmente lançados.
Tempos idos, sempre havia alguém defendendo a adoção do voto avulso para o candidato sem qualquer filiação partidária, acima de convenções. Mas a ideia era logo abandonada, e os partidos, diretamente interessados, cuidavam de sepultar a novidade; e com eles acabava concordando a Justiça, temerosa de que, acima do desejável direito de o voto optar por qualquer cidadão, corria-se o risco de a apuração resultar em imensa confusão, pois seriam milhões de candidatos... 
Mas essas assembleias partidárias continuam distantes do que seria ideal. A começar por um defeito evidente, que ninguém pode negar: a finalidade de reunir convencionais tem apenas a intenção de garantir quórum para decisões já tomadas em gabinetes, onde se formatam interesses de grupos e predomina a vontade de poucos, os caciques, que decidem. E esta é uma realidade da qual fazem parte todas as agremiações políticas.
A escolha dos candidatos é algo semelhante ao prato feito, servido de acordo com a vontade dos donos da festa, que também impõem o cardápio das alianças, muitas vezes intragáveis, de difícil digestão. O convencional assiste à encenação, bate palmas e homologa, para só ser chamado dentro de dois anos, quando de nova eleição.
As convenções, diferentemente do que se vê, deviam ser periódicas, para que os filiados influíssem na gestão e no destino dos partidos, não apenas   como peça validativa em ano eleitoral.
Entendendo Trump
Não só no Brasil, em qualquer lugar do mundo civilizado encarregados dos negócios externos de seus países vivem maus momentos para analisar e entender Donald Trump; porque nunca se sabe se o que ele diz, repetidamente, é parte de meros desejos pessoais, ou se, de fato,  seu país cultiva delírios expansionistas, para mandar em tudo e em todos. Pode ser isso, a se julgar pela frequência como o presidente avança em incursões totalmente fora dos padrões da diplomacia.
Ora, se este é um cenário que se espalha mundo afora, não haveria de ser o Brasil exceção. Também aqui incomoda esse internacionalismo, já não apenas por ter a Casa Branca definido como terrorismo o nosso crime organizado, sob a alegação de que a bandidagem nacional é mais perigosa, por ser tragédia exportável, vai além das fronteiras. Uma conceituação discutível.
Mas as preocupações naturalmente se dilatam quando Washington insinua particular interesse no destino da eleição presidencial brasileira. Cabe uma interpelação, pela via do Congresso Nacional, para que Trump ou seus assessores informem se se trata apenas de simpatia por um dos candidatos, o que seria tolerável; ou, na contramão, têm real intenção de interferir no processo.
Temos direito de saber, com interlocução séria e respeitosa, não com bravatas de falso nacionalismo de palanque eleitoral e bazófias. O caminho adequado é a Comissão de Relações Exteriores do Senado. Sem tardança, porque a eleição já vai bater à porta.

O que falta nessas convenções? Amanhã começa o mês das convenções partidárias, com prazo para se processarem entre o dia 20 e 5 de agosto. Muito importantes, porque sem elas o sistema eleitoral não admite candidaturas. O que significa ser, efetivamente, a abertura da temporada de caça aos votos, com todos os postulantes formalmente lançados. Tempos idos, sempre havia alguém defendendo a adoção do voto avulso para o candidato sem qualquer filiação partidária, acima de convenções. Mas a ideia era logo abandonada, e os partidos, diretamente interessados, cuidavam de sepultar a novidade; e com eles acabava concordando a Justiça, temerosa de que, acima do desejável direito de o voto optar por qualquer cidadão, corria-se o risco de a apuração resultar em imensa confusão, pois seriam milhões de candidatos... Mas essas assembleias partidárias continuam distantes do que seria ideal. A começar por um defeito evidente, que ninguém pode negar: a finalidade de reunir convencionais tem apenas a intenção de garantir quórum para decisões já tomadas em gabinetes, onde se formatam interesses de grupos e predomina a vontade de poucos, os caciques, que decidem. E esta é uma realidade da qual fazem parte todas as agremiações políticas. A escolha dos candidatos é algo semelhante ao prato feito, servido de acordo com a vontade dos donos da festa, que também impõem o cardápio das alianças, muitas vezes intragáveis, de difícil digestão. O convencional assiste à encenação, bate palmas e homologa, para só ser chamado dentro de dois anos, quando de nova eleição. As convenções, diferentemente do que se vê, deviam ser periódicas, para que os filiados influíssem na gestão e no destino dos partidos, não apenas como peça validativa em ano eleitoral. Entendendo Trump Não só no Brasil, em qualquer lugar do mundo civilizado encarregados dos negócios externos de seus países vivem maus momentos para analisar e entender Donald Trump; porque nunca se sabe se o que ele diz, repetidamente, é parte de meros desejos pessoais, ou se, de fato, seu país cultiva delírios expansionistas, para mandar em tudo e em todos. Pode ser isso, a se julgar pela frequência como o presidente avança em incursões totalmente fora dos padrões da diplomacia. Ora, se este é um cenário que se espalha mundo afora, não haveria de ser o Brasil exceção. Também aqui incomoda esse internacionalismo, já não apenas por ter a Casa Branca definido como terrorismo o nosso crime organizado, sob a alegação de que a bandidagem nacional é mais perigosa, por ser tragédia exportável, vai além das fronteiras. Uma conceituação discutível. Mas as preocupações naturalmente se dilatam quando Washington insinua particular interesse no destino da eleição presidencial brasileira. Cabe uma interpelação, pela via do Congresso Nacional, para que Trump ou seus assessores informem se se trata apenas de simpatia por um dos candidatos, o que seria tolerável; ou, na contramão, têm real intenção de interferir no processo. Temos direito de saber, com interlocução séria e respeitosa, não com bravatas de falso nacionalismo de palanque eleitoral e bazófias. O caminho adequado é a Comissão de Relações Exteriores do Senado. Sem tardança, porque a eleição já vai bater à porta.

 

O que falta nessas convenções?

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Amanhã começa o mês das convenções partidárias, com prazo para se processarem entre o dia 20 e 5 de agosto. Muito importantes, porque sem elas o sistema eleitoral não admite candidaturas. O que significa ser, efetivamente, a abertura da temporada de caça aos votos, com todos os postulantes formalmente lançados.
Tempos idos, sempre havia alguém defendendo a adoção do voto avulso para o candidato sem qualquer filiação partidária, acima de convenções. Mas a ideia era logo abandonada, e os partidos, diretamente interessados, cuidavam de sepultar a novidade; e com eles acabava concordando a Justiça, temerosa de que, acima do desejável direito de o voto optar por qualquer cidadão, corria-se o risco de a apuração resultar em imensa confusão, pois seriam milhões de candidatos... 
Mas essas assembleias partidárias continuam distantes do que seria ideal. A começar por um defeito evidente, que ninguém pode negar: a finalidade de reunir convencionais tem apenas a intenção de garantir quórum para decisões já tomadas em gabinetes, onde se formatam interesses de grupos e predomina a vontade de poucos, os caciques, que decidem. E esta é uma realidade da qual fazem parte todas as agremiações políticas.
A escolha dos candidatos é algo semelhante ao prato feito, servido de acordo com a vontade dos donos da festa, que também impõem o cardápio das alianças, muitas vezes intragáveis, de difícil digestão. O convencional assiste à encenação, bate palmas e homologa, para só ser chamado dentro de dois anos, quando de nova eleição.
As convenções, diferentemente do que se vê, deviam ser periódicas, para que os filiados influíssem na gestão e no destino dos partidos, não apenas   como peça validativa em ano eleitoral.
Entendendo Trump
Não só no Brasil, em qualquer lugar do mundo civilizado encarregados dos negócios externos de seus países vivem maus momentos para analisar e entender Donald Trump; porque nunca se sabe se o que ele diz, repetidamente, é parte de meros desejos pessoais, ou se, de fato,  seu país cultiva delírios expansionistas, para mandar em tudo e em todos. Pode ser isso, a se julgar pela frequência como o presidente avança em incursões totalmente fora dos padrões da diplomacia.
Ora, se este é um cenário que se espalha mundo afora, não haveria de ser o Brasil exceção. Também aqui incomoda esse internacionalismo, já não apenas por ter a Casa Branca definido como terrorismo o nosso crime organizado, sob a alegação de que a bandidagem nacional é mais perigosa, por ser tragédia exportável, vai além das fronteiras. Uma conceituação discutível.
Mas as preocupações naturalmente se dilatam quando Washington insinua particular interesse no destino da eleição presidencial brasileira. Cabe uma interpelação, pela via do Congresso Nacional, para que Trump ou seus assessores informem se se trata apenas de simpatia por um dos candidatos, o que seria tolerável; ou, na contramão, têm real intenção de interferir no processo.
Temos direito de saber, com interlocução séria e respeitosa, não com bravatas de falso nacionalismo de palanque eleitoral e bazófias. O caminho adequado é a Comissão de Relações Exteriores do Senado. Sem tardança, porque a eleição já vai bater à porta.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

 

U bom costume 

(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Em outros tempos era assim. Ao servidor público graduado, notadamente se exercesse mandato eletivo, recomendava-se que, estando sob suspeita de ato ilícito, deixasse imediatamente a carga ou função, ainda que pretextando inocência. E distante permanência, à espera da conclusão das sindicâncias, se foi feito ou não. Agia por conta própria, sem necessidade de insinuações para desocupar a cadeira. Era um bom traje. Não é mais.
Jaques Wagner desviou-se da liderança do governo no Senado, quando um ministro do Supremo Tribunal e da Polícia Federal concluiu que são graves as suspeitas de suas relações com o Banco Master, por ele defendido com ânimo no Congresso, além de ser simpático a outros interesses do banqueiro Daniel Vorcaro. Afastando-se, evitaria constrangimento para o presidente da República, que, em nome de uma amizade que vai para mais de 40 anos, não teve outro remédio: cozinhar o caso em fogo brando, esperar que se arrefeçassem as calorias da hora, e o problema milagrosamente pudesse esvaziar-se por si mesmo.
Ou, então, torcer para que o problema recente seja esquecido, por força de outras crises prontas para morrer. No Brasil há sempre um escândalo na fila, esperando vaga para ocupar vagas e manchetes. Nas últimas semanas, Wagner foi antecedido por Ciro Nogueira, Hugo Mota, Alcolumbre, com gravação digital na carteira de Vorcaro. Agora, sai Flávio entra Wagner. Quem virá depois?  
Chegou a hora que pode ser decisiva para o desfecho, tanto quanto possível menos doloroso para a vida do governo. A desvantagem é evidente, quando algumas vozes mais credenciadas sobem a rampa com o dever de anunciar. É preciso correr contra o tempo, porque o caso Wagner empurra o presidente contra duas paredes, onde pode dar perigosas cabeçadas. Dois problemas. O primeiro é que, sendo o líder moralmente desautorizado, as dificuldades e o custo das tramitações no Senado podem sair do controle, considerando-se que a gestão Lula já caminha maus pedaços na Casa. Quanto à sorte dos vetos, nem se fala.
A segunda dificuldade é que, nesse episódio, sai esfolada a candidatura do senador ao governo da Bahia, onde brota uma preocupação particular para o presidente e seu PT: ali, pelo menos até agora, fora de Wagner não há salvação; e um desempenho insuficiente entre os baianos pode comprometer o destino petista neste 2026.
Por dedução
 
Nos altos escalões ficou definido que pecam por palidez e brandura como propostas de delação com que o banqueiro pretende aliviar suas diferenças com a justiça, melhorando as condições do cárcere. Duas tentativas frustradas, como também desconsideradas são as intervenções dos defensores no seu esforço para o acordo de premiação.
Deduz-se. O ministro Mendonça e a Polícia Federal sabem muito sobre as fachadas do Banco Master. Podem dispensar delações, o que parece claro, quando chegam à jugular do poder, e batem à porta do líder do governo no Senado, um passo poderoso no terreno das amizades estreitíssimas que o banqueiro teme nomear.  
Vorcaro deve se abrir de vez. Nada mais a perder, mas talvez ainda possa ganhar alguns pontos no balanço final dessa tragédia.
Hora de cuidar do próprio destino, esquecer amigos tão generosamente beneficiados, e que agora o abandonam.
Já que há pouco conversamos da Bahia ao banqueiro convém lembrar de Quincas Berro D'Água, personagem de Jorge Amado: chega a hora em que cada um cuide de seu próprio enterro, porque o impossível não há...

terça-feira, 16 de junho de 2026

 

Nada mais escandaliza

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Uma coisa muito grave, acentuada a cada dia mais, é a triste constatação de que o país vai perdendo sua capacidade de escandalizar-se, deixando correr, por conta do inevitável, fatos e situações da maior gravidade, tal como se dá com o império da corrupção. Vive-se uma quadra em que tudo é natural ou inevitável. Deixar como está.
Nessa rota, espantou muito, pela gravidade e pela carência de desdobramentos imediatos, a confissão, quase patética, do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, declarando que o Brasil desceu a uma total incapacidade de manter a soberania territorial frente a qualquer nação agressora. Não há mais como preservar sua integridade, porque o que temos de munição se esgota dentro de 30 dias. Não há peças de reposição e é total a carência de combustíveis. O que significa que nossos tanques, ou apodrecem nos quartéis, ou consumiriam 50 dias para atravessar alguns estados, e chegar ao inimigo que estivesse distante. Os aviões não podem voar, os navios com as amarras atracadas. O quadro, traçado pelo ministro, foi um desabafo diante de generais comandantes calados. Deviam, ao menos, explicar como fica o ânimo da tropa e das escolas de formação de oficiais.
 (Pois é diante dessa paisagem sombria que decidimos debochar do destino e da sorte, vendendo as armas ainda prestáveis que fabricamos, para que os vizinhos se fortaleçam...)
Doutor Múcio não disse, nem lhe foi perguntado, se a Presidência da República tem ciência desse caos, e, se não o ignora, quais as medidas de urgência a serem tomadas. Faz sentido, porque, em plena campanha eleitoral, um dos temas favoritos do governo tem sido a luta pela soberania, depois que os Estados Unidos entraram na órbita nacional para decidir que, no Brasil, crime organizado é o mesmo que terrorismo.
Em qualquer lugar do mundo onde o encarregado da segurança nacional confesse tamanha indefesa a consequência lógica estaria na decretação de estado de emergência. Não sendo a assim, ele se veria na contingência de demitir-se, já que nada pode fazer no cargo que ocupa.  
Com o Brasil de tal maneira desagasalhado de segurança, quadro tão grave justificaria a convocação extraordinária do Congresso; mais ainda porque o ministro foi além, ao agravar sua fala indicando quais são os nossos pontos mais frágeis na eventualidade de uma invasão. Mostrou as pegadas da fragilidade. Ficou exposto, pela voz mais credenciada, que a região Norte vive totalmente desprovida de blindagem, não sendo diferente a realidade das vastas fronteiras. Um permanente aceno aos maus vizinhos, afiançou o ministro da Defesa.
(Um caso de risco concreto estaria na recente ameaça da Venezuela de  conquistar a região de Essequibo, na Guiana. Se partisse para a aventura, teria, forçosamente, de transitar por território brasileiro, e não haveria como impedir a ofensa).
É triste saber de tudo isso.

terça-feira, 9 de junho de 2026

 

Conversa com mineiros

(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

 O que se tem lido, com frequência, nos analistas do momento político, é que posicionamentos em relação às candidaturas à Presidência da República esbarram nas lideranças mineiras, que têm, entre suas habilidades, a capacidade de esgotar o tempo dos fatos e das paciências, para, ao fim e ao cabo, tirar bons proveitos. Lula e o PT estão em areias movediças ali, sabendo que não viabilizam a candidatura de Rodrigo Pacheco ao governo do Estado, e ficam sem palanque. Confirmado que, quando se trata de assuntos regionais, não há diferenças essenciais entre direita e esquerda, até porque a virtude da prudência tem antiga vocação para o centro e horror aos extremos. Minas demora a decidir, e, se decide, não quer dizer que a verdade aparente é a que está valendo.    
Sendo assim, não é missão das mais fáceis conversar sobre política com o mineiro, dizia Saulo Ramos, ministro no governo Sarney, porque nunca se sabe exatamente o que ele pensa ou no que quer que seu ouvinte acredite. Muito antes já se conhecia o desabafo do governador Carlos Lacerda com seu companheiro udenista Bilac Pinto, numa reunião que se desenrolava no palácio Guanabara: “Em conversa com ele nunca se sabe onde ela vai acabar, mas sabe-se que o fim nada tem a ver com o começo”...
Na verdade, vem de mais longe a preocupação com essa lábia política. Quando D Pedro I saiu em viagem para Vila Rica, advertiu-o José Bonifácio: “Não se fie Vossa Alteza Real o que diz aquela gente, que faz de preto o branco, pretendendo mercês”...
2 – Seja pelo raposismo ou pelas manhas montanhezas, diz-se que, se alguém chegou à Presidência da República, é porque passou pelo crivo do Estado, e lá foi majoritário. Exceção, em sete décadas, ficou por conta da eleição de 1950: Getúlio, do PTB, ganhou no Brasil, mas lá a maioria ficou com Eduardo Gomes, da UDN.  Acresce que, além de contribuir no destino de tantos exitosos, foi também onde vicejou a “prata da casa”, com dez presidentes genuinamente mineiros, desde Afonso Pena.
E ficou essa fama, a toda hora repetida. Se ganhou lá, pode preparar o terno da posse, crença sustentada em um único embasamento, além de figurar como segundo colégio eleitoral do país: é o fato de ser morada da miscigenação nacional. Gente de todas as partes chega para respirar algum tempo, e milhares não saem mais. Tancredo Neves tinha uma explicação de perfil socio-demográfico: Minas é onde termina o progresso do sul e começa a pobreza do norte, dizia ele.
(Essa crença, ainda que estimulada com vários desempenhos que ficaram na História, não pode desconsiderar que as lideranças de hoje não conservaram o antigo chame político de Antônio Carlos, Milton Campos, Pedro Aleixo e Juscelino. E nem a arte do velho PSD, que praticava a política condescendente no adjetivo e intransigente no substantivo).
3 – Quando veio 1989, as lideranças disparadas na busca de espaços na esteira da redemocratização, nada menos de 22 candidatos à cadeira de presidente. Os adeptos da tese de que “Minas resolve” foram buscar confissão de culpa em Leonel Brizola, derrotado, no segundo turno, por Fernando Collor, por menos de 500 mil votos. Uma diferença que o bairrismo facilmente teria vencido se seu vice fosse Hélio Garcia, dos rincões de Santo Antônio do Amparo, não o pernambucano Fernando Lyra.