terça-feira, 17 de março de 2026

 

 Risco de um martírio

(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Se uma tragédia sobrevier à degeneração gradual da saúde de Jair Bolsonaro, a campanha eleitoral será condenada à transformação do palanque em cadafalso, onde a direita pretenderá impor Lula como algoz e aclamar seu oponente como mártir. Ele deve saber disso, como também precisa saber que não viriam em seu socorro os bons amigos do Supremo Tribunal Federal, que condenaram o ex-presidente à prisão. De camarote, os togados poderão assistir ao naufrágio nas urnas, até porque não dependem de votos.
Nesta altura do ano eleitoral, o martírio seria receita certa para se transformar numa avalancha contra o governo e atropelo da candidatura de Lula.
2 - Quando se trata de falar aos deputados, nunca se sabe quem tem maior influência no discurso e nas decisões do atual presidente. Para alguns, parece que a última palavra é uma versão singular de monólogo; ele falando com ele mesmo... Pode ser, porque Lula, que constantemente se jacta de não ostentar diplomas, compensa os poucos estudos com o poder da intuição. Ele intui, embora nem sempre com bons resultados.
Estranho é que essa capacidade de percepção não o leve a tirar da oposição a poderosa bandeira da anistia, muito mais útil para influenciar, quando os ventos sopram para a radicalização. Por iniciativa própria ou por muito influenciar junto aos amigos diletos do Supremo Tribunal, o desarmamento das políticas de tensão o elevaria à posição de estadista superior, acolhendo o índole natural do brasileiro, arredio à insensibilidade de julgadores e amante dos pacificadores. 
O presidente Lula estaria exposto à tragédia do desafeto Jair Bolsonaro, cuja saúde, como se viu no fim da semana, recomenda, no mínimo, o cumprimento da pena em prisão domiciliar.
Relações com o Tio San 
 
 O Congresso Nacional, governadores e entidades de representação social e econômica continuam mostrando desânimo para discutir o problema da exclusão nas relações do Brasil com os Estados Unidos, suas consequências imediatas ou futuras, além dos impasses políticos entre as duas capitais, que vão se revelar cada dia mais sérios, quaisquer que sejam os anexos em que desejamos analisá-los. As dificuldades nascem de ressentimentos provocados por antipatias mútuas com inspiração no campo ideológico, logo evoluídas para desconfianças no trato das questões de estado. Disso ficou a certeza de que antigas alianças já não são as mesmas, mas quase sempre reduzidas ao mínimo das formalidades diplomáticas que Lula e Trump permutam em ligações telefônicas de pouca duração, ou no breve encontro que tiveram na Casa Branca; e numa reunião, cancelada este mês, com duvidoso adiamento para um dia qualquer de abril.
Seria conveniente, em particular na Comissão de Relações Exteriores do Senado, um estudo da progressão das dificuldades que vão se ampliando; dificuldades que ganharam força na sobretributação, prejudicando parte sensível das exportações. Tinha tudo para se limitar a um fato comum e isolado, até porque foi algo que o governo americano impôs a vários outros países. Os prejuízos couberam facilmente nos limites de interesses comerciais; mas não conosco, porque, desde então, evoluímos para os apelos à discórdia.  
2 – As relações se tornaram mais frias, há tempos, quando o governo deixou claro que, no embate dos Estados Unidos com a ditadura teocrática do Irã, as simpatias brasileiras tendiam para o regime dos aiatolás. Concomitantemente, cresceram as malquerenças com Israel, também aí uma contraposição ao governo Trump.
Aos ianques ainda aborrecemos quando a Venezuela foi invadida e presa, como bandido comum, o presidente Maduro, amigo em quem Lula devotava especial admiração. Inaceitável a intervenção armada, o Brasil protestou, mesmo com pouca ênfase. Trump não gostou, mas fingiu que não sentiu.     
É importante considerar que, a partir de então, a Casa Branca vem testando nossas resistências. Lance mais recente foi o lançamento do programa Escudo das Américas, para que, aliados em torno de um objetivo único, 12 países do continente possam reagir ao crime organizado. Para o lançamento solene, ausentes do Brasil, Colômbia e México, como se fossem peças estranhas a uma questão de tamanho continental. Veio a ironia: Trump justificou, dizendo que nosso governo estava ocupado...
Quanto ao nosso lado, um desafio avaliador para incomodar foi Washington define, formalmente, como terroristas os indesejáveis ​​PCC e CV, o que, no entendimento de Brasília, é porta aberta para eventual intervencionismo militar. Os americanos riem, quando argumentamos que sabemos como cuidar dos nossos crimes, salvo se escaparem para atividades transnacionais; riem, porque, lá, a ideia predominante é que Brasília não tem como combater o crime organizado, intrometido nas entradas do poder. Garantam que podem provar o que entendem não ser mais que mera suspeita.  
Ao Escudo de Trump vem um segundo impasse: o alto funcionário do Departamento de Estado, Darren Beattie, fingindo conferência com o ex-presidente Jair Bolsonaro, é proibido de desembarcar. Nada demais, não fosse o fato de Bolsonaro ser o símbolo do antilulismo em ano eleitoral. Darren ficou impedido, e já se sabe que isso fez nos assessores do Departamento de Estado.  
A soma dessas dificuldades, que preocupam porque se ampliam cada vez mais, mostra que o assunto merece ser pautado por todas as classes responsáveis, a começar pelas casas políticas do Congresso. 

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