terça-feira, 10 de março de 2026

 

Polarização inconveniente 

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Um olhar sobre a eleição presidencial, distante pouco mais de sete meses, deixa claro algumas inconveniências capazes de dificultar ou comprometer. Uma delas, com efeitos para futuro imediato ou distante, é a polarização a que vem sendo empurrado o processo. O que vemos é, com grande antecedência, o eleitor condenado a caminhar para as urnas com a humilde missão de apenas ser contra ou a favor; apoiar um dos dois candidatos não por desejá-lo, mas porque odeia ou outro. Nada mais que isso. Os sentimentos extremos vão tomando os espaços que, em pleito normal e casual, serão dedicados a projetos e ideias, principalmente num país que se mostra cuidadoso de rumores e sem bandeira.
Não bastassem os temores da radicalização, a junta-se outra, que parece estar preocupando os setores responsáveis ​​da Justiça. Se, por um lado, isso é do agrado dos militantes raivosos, que gostam ou odeiam, há o enorme risco de se afastar da parcela do eleitorado que não se deixa envolvido, preferindo tomar parte na multidão dos que se abstêm. Se não se sensibilizar, melhor distanciar-se.
A abstenção é algo para se preocupar. Tendo sido recordista há quatro anos, a ausência em massa deixou longe das urnas nada menos de 32 milhões de brasileiros que estariam aptos ao exercício do voto. Significaram 20,9% do eleitorado. Agravam-se as variações pessimistas quando se sabe que há cinco milhões de títulos cancelados. Eram portados pelos desinteressados, que foram submetidos a preferir-se às multas que o TSE ameaça os reincidentes.
2 – Os sinais de um outubro refletem apenas dois candidatos factíveis na corrida são mais graves exatamente para confirmar a inexistência de cuidados e uma reflexão patriótica sobre os destinos do Brasil. Submergem, descuidadas, as questões mais importantes para a sociedade.
Chega-se ao ponto em que esse perigo prenuncia dificuldades para o próprio vencedor, seja ele quem para, porque, sendo imenso o abstencionismo, vai enfrentar a dificuldade política da ilegitimidade, das bases vulneráveis. Uma eleição não legitimada, presença pela grandeza, está condenada a dificuldades e tropeços.
 
O contágio
O ministro Édson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, é homem de muitas leituras, como faz entender nos discursos e nos votos que foram levados ao Pleno. O que permite presumir que já tenha passado os olhos em Mateus, 9, no Novo Testamento, de onde se extrai lição oportuna sobre os riscos de contaminação do corpo sadio com a doença de alguns de seus órgãos. Melhor cortar a mão e o pé defeituoso, ensinar o evangelista, e atirá-los ao fogo do geena, para não comprometer o organismo inteiro.
Pois é para salvar o que resta do antigo prestígio da corte que comanda, que o doutor Fachin precisa entrar em campo, avançar com seu prometido elenco de regras de conduta a serem cumpridas por seus pares. Deles é necessário um rigoroso estudo dos princípios de moral e ética nas decisões e no comportamento diante da sociedade. E, se possível, encostar os maus.
Dois ou três ministros, hoje escalpelados pela opinião pública, são minoria, mas, tal como anuncia o Evangelho, conseguindo denegrir o colegiado.  

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