terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

 

Além da escala 6 x 1

No rastro da discussão em torno de um novo modelo para as relações de trabalho, e deste com o mercado, extinguindo-se a velha jornada 6x1, é possível identificar dois temas paralelos, de interesse inegável; apenas para pinçar os dois mais excitantes. Algo de que precisamos cuidar, independentemente do comportamento do Congresso Nacional quanto à ampliação das horas de descanso prometidas para trabalhadores que ainda não têm.  
Não há garantia de que questão tão polêmica, tratada com reservas pelos setores produtivos, possa gerar bons resultados para seus proponentes, em tempo de resultar em simpatias e gratidões em ano eleitoral. Mas isso não invalida, de alguma forma, a necessidade de se aprofundar o estudo sobre a produtividade. E, não menos importante, conferir estímulo ao direito de negociações diretas entre os representantes do capital e do trabalho; sobretudo ao se considerar que as forças que geram a produção guardam diferenças significativas, impossíveis de serem desconsideradas, quando se trata de avançar sem sempre delicado ajuste de interesses.
O primeiro temor leva à questão da produtividade, que já merecia ser cuidada, antes mesmo de entrar na pauta o projeto da escala 6 x 1. Basta considerar que, nos últimos anos, ela sofreu redução da ordem de 30%, em comparação com experiências externas; com os Estados Unidos, por exemplo. Se, na década passada e recentemente, nossos índices nesse campo não sofreram situação mais preocupante demonstra ao desempenho exitoso do agronegócio.
O Congresso, antes mesmo que o Executivo se sensibilizasse para tanto, deveria se dedicar ao assunto, cuja complexidade, somada à carência de avaliações técnicas, tornou-se, por isso mesmo, tema favorito dos adversários da nova proposta do descanso esticado, que contempla uma semana com dois dias de ócio.
Um detalhe, entre muitos que explicam maior interesse político nessa área, é que a produtividade mostra estar sujeita a influências inevitáveis, como a interferência da sombra da automação e da adoção de recursos da tecnologia e da lógica, inacessíveis a pequenos e médios produtores, que são a maioria. Produzir mais e melhor, com vistas a um mercado sempre exigente, tem, em outro poderoso desafio, a carga tributária, que no Brasil é predadora olímpica.
É preciso insistir em que o Congresso se detenha sobre tal desafio, mesmo que uma nova escala de trabalho chegue a um ritmo de ser alvo de uma campanha eleitoral.
2 – O segundo ponto levantado é a necessidade de o país assumir uma coragem de confiar mais no poder da livre negociação entre patrões e empregados. Os conflitos das jornadas reduzidas causariam menos preocupação se os acordos entre as partes, preservados interesses comuns e possíveis, fossem práticas extremamente impostas. A experiência de outros países sugere que o Brasil também pode avançar nesse campo, libertando-se, tanto quanto possível, da interferência dos poderes, porque o papel deles que se espera é dirimir dúvidas e remover impasses. O que já seria muito.
Quanto à virtude da livre negociação, vem à lembrança o que ensinou Marcelo Pimentel, veterano ministro do Tribunal Superior do Trabalho, meio século atrás: “Através da negociação, as vantagens são ajustadas à realidade de cada setor da produção” Nada mais que isso.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

 

Por falar em condutas 

(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Três fatos, mais recentemente, chamam atenção, quando se trata de uma pauta primária para as eleições de outubro. A primeira foi a iniciativa da ministra Cármen Lúcia, membro do Tribunal Superior Eleitoral, ao elaborar um decreto de recomendações aos juízes que terão atuação direta no pleito de outubro. Nada a levou a exigir em demasia, até porque as normas de seriedade que a preocupam gozam de antiguidade, são decorrentes da responsabilidade proveniente de autoridades, que têm obrigações de cumprimento o que está resumido em uma dezena de advertências. Em rigor, nem era preciso lembrar que se desativasse as normas de seriedade a quem prestou juramento de acatá-las como dever da função.
Aos recomendados falaram-se em não receber presentes de detalhes, um certo acanhamento em atos festivos que ensejarem alguma intimidação com partidos e candidatos. Como contestar isso?  
O que talvez autorize a iniciativa da ministra, é que essas e outras inconveniências não são raras; pelo contrário, comuns nos debates eleitorais a que assistimos nos rincões deste país, onde não há propriamente lideranças, mas chefias. Orado eleito rebelde sofre perseguições e constrangimentos dos poderosos do lugar.
Como conter tais abusos, levando os criminosos a sofrerem penas justas, é assunto que fica para nossa proposta moralizadora da ministra.
2 – Gostamos ou não do ministro Flávio Dino, numerosos somos em ambos os casos, não seria possível contestá-lo, quando se levanta contra duas coisas que perturbam a já escassa e capenga a moralidade na política e nos serviços públicos. A primeira diz respeito às emedas parlamentares, que neste ano vão custar R$ 60 bilhões aos pagadores de impostos; e, agora, sem qualquer acanhamento, com prazo para liberação até junho, o que expõe, com nitidez, que o objetivo delas não é outro que não facilite a reeleição dos deputados e senadores que as propuseram.
A segunda, iniciativa mais recente, é a sua incursão em outra área de escândalo, a dos penduricalhos, revestidos como abonos, distribuídos pelos poderes, sem exceção do Supremo Tribunal, onde o ministro o Dino tem assento. Não se sabe se sua robustez seria suficiente para enfrentar os pares da toga e atacar essas pessoas, que também ali se fazem presentes, agora com o cheiro inconfundível de incenso nas narinas de funcionários eleitos.
3 – Outro fato a chamar a atenção nos dias recentes foi a vigilância das pesquisas eleitorais em todos os grandes estados. Com uma coincidência em quase todas elas: a tendência dos brasileiros é eleger a deficiência da segurança como o problema maior e mais sensível da sociedade, a reclamação do poder público ações objetivas e concretas. Saúde, transporte, desemprego e educação são deficiências denunciadas pelos entrevistados de todos os cantos, mas longe de destronar a sinistra liderança da insegurança. Porque, como nunca dantes, mata-se, rouba-se, sequestra-se, corrompe-se. 
A preocupação é mais que pertinente, e não deve surpreender, porque é um problema que cresceu, e vai crescendo, como resultado daquele que é – este sim – o maior entre todos os problemas do Brasil: a impunidade, o que as pesquisas não mostram. Mas é ela que cria campos cada vez mais férteis para o crime, numa variedade de tolerâncias, que vão desde as generosas audiências de custódia até os afagos com que a Justiça contempla os criminosos condenados.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

 

Primeiras peças da bateria  

(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
Em qualquer campanha para a Presidência da República os fatos políticos decorrem de tramas e acidentes, que muitas vezes se atropelam, confundem-se ou se intercalam. Agora, faltando pouco mais de dois meses para as desincompatibilizações e mudanças na filiação partidária, vamos tomar forma definitiva as primeiras peças do grande jogo que está por vir. Muitos despedem-se de suas legendas para disputar em caminhos que parecem mais simples. São raros os que saltam em definitivo, desacorçados com a política. No momento, nada menos de oito desembarcaram dos altos escalões federais para disputar, em seus estados, vagas milionárias para Câmara e Senado. Justifica-se o interesse, pois, mais do que nunca, sabe todos, e mais ainda sente o futuro presidente, que é prioritário tentar a maioria parlamentar, para que quem vier não caia nas esparrelas vivas por Lula, minoritário no Congresso, onde só consegue transitar à custa de muita saliva dourada. Mas essa sonhada e poderosa maioria, como tem força para trabalhar o Executivo, é também prioridade para os opositores, que gostaram da experiência de quatro anos, e vão jogar tudo e todos para garantir o status.
Outro dado a influenciar, decisivamente, nasceu o projeto do governador Tarcísio de Freitas de não ceder aos acenos da direita para mergulhar na aventura do Planalto, onde pretende chegar sim, mas não agora. Primeiro, quer colher o bônus de uma reeleição paulista sem dificuldades. Em 2030, com Lula e Bolsonaro certamente ausentes, tentará o salto, que hoje não gozaria de todas as garantias, afetado por uma polarização que pode chegar a outubro com uma couraça inexpugnável, obra da esquerda e da direita, ambas beneficiárias do painel de tração daí decorrentes.
2 – Os veteranos não ignoram que nos anos 50, e algum tempo depois deles, o velho PSD dividia forças eleitorais com UDN e PTB, sobrepujando-se a ambos, muitas vezes, graças à grande capacidade de seus líderes de conciliar, ocupar espaços ou assumir despojos deixados pelos litigantes maiores. Uma sabedoria manhosa, que se convencionou chamar de raposismo. Tancredo, Ulysses, Thales Ramalho e Amaral Peixoto, entre outros, pontificaram essa capacidade de descobrir onde está o caminho do meio. O negócio seria, mais uma vez, somar o que há de bom nos extremos, sem se contaminar pelo que eles têm de ruim. É a razão de se falar em centro-direita e centro-esquerda.
Faz sentido lembrar disso agora? Sim, porque há um novo PSD no cenário, que parece não romper o cordão umbilical com o antigo, para também acreditar na via do centro. Abrigou os governadores do Mato Grosso, Paraná e Rio Grande, bem avaliados em seus estados, distantes dos radicais, todos com aspirações presidenciais, mas já prometendo reagir às duas candidaturas já postas, que têm a singularidade de serem favoritas, embora campeãs em colapso ...
Quem estiver distante dos radicais pode conviver e alinhavar os acertos com o esse pessedismo ressurgente. Obra da habilidade de Gilberto Kassab, presidente do PSD, que começa por anunciar que dispensa críticas raivosas, quer ideias e projetos diferentes, sem ofensas desnecessárias. Hoje, como no passado, o chefe pessedista tenta a habilidade do relojoeiro que conserta relógio com luvas de pelica...
O clima adoeceu
O assunto acaba esbarrando na política. É a manipulação da saúde climática do planeta, como se expressar alguns especialistas da área, próximo a um grande impasse, em que a natureza perde a paciência diante de tantas ofensas, e parte para o revide. Por parte dela, as respostas têm sido cada vez mais violentas e fatais.
O exemplo mais evidente veio dos Estados Unidos, que sediaram as maiores resistências aos apelos universais pela adoção de uma política capaz de reduzir os efeitos dos agentes de poluição. Pois tem sido exatamente ali que os específicos naturais vão causar enormes estragos, e começar os gigantescos incêndios provocados por combustão espontânea, que matam e destroem casas na Califórnia; e, cada vez mais trágicas, como nevascas. Em nenhum país onde a tecnologia atingiu níveis invejáveis, a população vê difícil a água que está congelada nos canos, e se obriga a consumir alimentos pré-cozidos, por escassez de energia. Ironia. Na semana passada, uma população de 800 mil também faltou como calafetar. Os aeroportos de Nova York, considerados entre os mais sofisticados do mundo, parados. Incalculáveis ​​os prejuízos provocados pelo cancelamento de milhares de voos. Uma tragédia vestida de branco.
A natureza, cansada das injúrias, parece decidida a não perdoar, reagindo com enchentes, com fogo e neve, provocando ausência de calor, o que faz as pessoas congelarem; ou, ainda, pela violência dos terremotos e dos furacões, lá e em todos os continentes.
(Nem todos perceberam, mas, no ano passado, os abalos em todo o mundo tiveram nível médio de quase 5 graus na Escala Richter. O que é quase catastrófico).
O clima está doente. Já os seminários e congressos não bastam, é insuficiente o laudatório político dos conferencistas. Reclamar a coragem de ações concretas.