quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025



Bernardo e o café: ideia esquecida


Certa vez, o ex-prefeito José Procópio Teixeira Filho disse que uma coisa da qual Juiz de Fora jamais poderia duvidar é que o maior entre todos os homens da cidade foi Bernardo Mascarenhas. De fato, nunca encontrei quem duvidasse disso. Foi o criador da primeira usina hidrelétrica, a fábrica de tecidos movida a teares, que ele próprio foi ver fundidos nos Estados Unidos, fundou a Companhia Mineira de Eletricidade, que produziu e distribuiu a iluminação pública, fundador do Banco de Crédito Real. Porém, nada se diz sobre o papel que ele desempenhou na política brasileira do café, o que está a exigir melhor estudo.
Dir-se-ia que Bernardo foi um pioneiro no campo das preocupações com o risco de monopolização do produto. Escreveu ele:
“Monopolizada a exportação do nosso café quase exclusivamente por casas estrangeiras, o ouro resultante é para elas uma outra mercadoria de venda. Por isso, trabalham para comprar o café cada vez mais barato e venderem o seu ouro cada vez mais caro”, advertia.
Também não convém ao Brasil – escreveu – altíssimos preços do produto, pois isso reduz o consumo e estimula a concorrência estrangeira, além de perturbar o regime agrícola de cereais com a monocultura, obrigando a importação de gêneros alimentícios.
Era preciso, na sua visão, adotar o regime de armazenamento como forma de regular o mercado. Já pensava assim no fim do século 19, uma verdade que até hoje não foi desmentida. E daí sua proposta, verdadeiramente inovadora: a criação do papel-café, que seria uma espécie de moeda para garantir estoques permanentes de 4 milhões de sacas. Previu o papel-café facilmente aceito pelos produtores, pois teria quase o valor da moeda corrente e de reserva. Essa ideia chegou a sair da cidade, e foi tema de estudos e debates, por iniciativa dos deputados Érico Coelho e Augusto Clementino. Valeria pesquisar.
Bernardo Mascarenhas estava além de seu tempo. Observemos o que escreveria no “Correio de Minas”, em dezembro de 1898, com correta validade para os nossos dias:
“Estou entre os que pensam que o governo não deva ser comerciante ou industrial”.


Ascensão e queda de uma grande riqueza
Foi há cem anos, final da primeira década do século passado, que se davam os primeiros passos para a consolidação de Juiz de Fora como centro de referência industrial. Mas, paralelamente, antecedendo a ruína, também se viveu naqueles dias o auge da cafeicultura, setor que, pouco a pouco, foi absorvendo os volumosos capitais acumulados pelos fazendeiros. Alimentando as máquinas e os teares, os muitos dinheiros que saíam dos cafezais foram os mesmos que deram à cidade o charme dos saraus dos casarões, enviaram jovens para estudar na Europa, enquanto as moças tocavam piano e falavam francês.
Os contos de réis já vinham produzindo muitos barões. Procópio Filho, ex-prefeito e historiador, relacionou 28 nobres, em sua maioria barões, “quase todos líderes da cafeicultura”.
Dois fatos talvez fossem suficientes para confirmar a grandeza econômica daquele tempo. No dia 24 de julho de 1902, Batista de Oliveira esnobava, ao abrir, em Paris, um escritório de propaganda do café de Juiz de Fora, então celebrado como o melhor do Brasil. Dezoito anos depois, também em julho, o Estado de Minas comunicava que, das 3,8 milhões de sacas do produto mineiro, 120 mil eram do município. Vinte mil saindo de Retiro, estação que nem existe mais.
Essa expressão econômica tinha reflexo direto nos hábitos da população, como se lê nas crônicas da época. Em dezembro de 1930, o comércio quis autorização para aumentar o preço do cafezinho para 200 réis, provocando intensa campanha contrária da imprensa; e o aumento só seria permitido três anos depois...
Importância ainda maior, em referência à cafeicultura, não apenas local mas do resto da Zona da Mata, é citada pelo historiador Celso Falabella, para quem o poder da rubiácea evitou uma incorporação quase natural da região ao estado do Rio de Janeiro.
Com esse desempenho, nossas roças ficaram devendo, primeiro, ao escravo, uma população em torno de 20 mil negros, só suplantada por Leopoldina, onde ela beirava a 37 mil, segundo informa o historiador Lima Bastos. Depois, deveu-se também muito ao colono italiano. Júlio César Vanni pesquisou e concluiu que, entre Juiz de Fora, Bicas e Pequeri 650 famílias italianas estavam dedicadas ao plantio.
Foi um tempo em que enormes fazendas floresceram à sombra dos cafezais, acompanhando a experiência pioneira de Nogueira Gama. Ele era dono da Fazenda São Mateus, cujas terras se estendiam até Simão Pereira. E, quando nos morros já se plantava pouco, ela manteve ares de nobreza na hospitalidade. Foi refúgio preferido de Getúlio Vargas, que em 1935 ainda viu ali as últimas rodas de dança dos colonos que desciam dos cafezais.
Tudo muito bom, tempos gloriosos para a economia, mas a região teve que pagar um alto preço. No furor da cafeicultura, incontáveis hectares de florestas nativas derrubadas. O café mostrou, e ainda mostrará num longo futuro, que não difere do destino das grandes riquezas que saem da terra: têm seu tempo de glória e fartura, mas também de pobreza e saudade.


Cafezinho não falta
Os jovens, nem tanto, mas quem vem de outras gerações não abre mão dos 35 centímetros cúbicos dessa infusão. O mineiro levanta com o cafezinho, é seu companheiro durante todo o dia, e muitas vezes é a despedida antes da cama da noite.
Gabriel Gonçalves contou, em seu programa da antiga Rádio Industrial, que em Sarandira havia uma roda de carteado sempre em casa de família. De uma delas, onde
não se serviu café, reclamou o coronel Chico: “Barai veio não tem portância; cobertô rasgado eu não ligo; não pagar conta, vá lá. Mas não dá café, isso eu não guento”...
Contavam os mascates que corriam as roças que na Zona da Mata, talvez mais que em qualquer outro canto de Minas, o cafezinho, por ser indispensável boca de pito, tinha uma receita infalível: preto como o demônio, quente como o inferno, puro como um anjo, doce como o amor.


Um papo no Santa Helena
Nenhum ponto foi tão referencial na década de 50 e por mais alguns anos na década seguinte. O café Santa Helena era passagem obrigatória para políticos, empresários e intelectuais, que tinham de dedicar a essa casa alguns de seus minutos diários; porque sem isso não ficavam sabendo o que estava acontecendo na cidade, desde os fatos reais, concretos, até mesmo as fofocas políticas, essas grassando intensamente na porta, onde deputados e vereadores se juntavam.
Nos dias mais frios, quando os homens procuravam os raios do sol (o que ainda existia na Rua Halfeld, depois tomados pelos grandes edifícios), os pedestres eram obrigados a sair para o asfalto. Porque a calçada estava habitada pelos grupinhos que conversavam.
Para se ter uma ideia, basta lembrar que não houve decisão importante na Câmara ou na Prefeitura; não se decidiu uma candidatura ou eleição, que não tivesse seu começo num bate-papo no Café Santa Helena. Como também foi ali que, não raro, dois ou mais políticos saiam aos bofetões, principalmente nos tempos de intolerâncias entre UDN e PSD.
O vereador Pedro de Castro, pessedista, sempre pareceu mais polêmico, gesticulador, mas, ao mesmo tempo, extremamente cordial e agressivo com os adversários. Não escapou de alguns pugilatos.
Em qualquer dia do ano, o primeiro a chegar, nunca depois de 7h30min, era o vareador Itamar Rattes Barroso, outro do PSD. Tinha uma explicação: era líder do prefeito Olavo Costa, e ali, depois do cafezinho, durante o cigarro que fumava com longa piteira, começavam as articulações para a sessão legislativa que viria à noite. Um jornalista chegou a chamar o Santa Helena de “plenarinho”. Quando a conversa requeria tempo e mais discrição, os políticos passavam para o Café Astória, exatamente na esquina da Halfeld com a Rio Branco, porque ali havia mesas, e era possível pedir água mineral, torradas e média com café e leite, pretexto para conversar mais tempo. Habitual também era o chá de mate, tudo sob a vista mal-humorada do garçom Barreto, de quem jamais alguém vira nascer um sorriso.
Parar no Santa Helena era ainda um símbolo de cordialidade, a que achavam-se obrigados os políticos de grande expressão nacional. Ali, algum dia, chegaram ao balcão, para o cafezinho, homens como Ademar de Barros, Eduardo Gomes, Luiz Carlos Prestes, José Maria Alkimin, Tancredo Neves, Camilo Nogueira da Gama, Layr Tostes, Cristiano Machado, Magalhães Pinto, Bias Fortes, Milton Campos, para citar apenas os principais. Foi durante um cafezinho que o então ministro da Fazenda, Tancredo Neves, decidiu abrir recursos para financiar a construção do edifício do Clube de Juiz de Fora, que em 51 tinha sido destruído por incêndio, na última noite de carnaval. Em agosto de 78, durante entrevista, Tancredo disse a mim e ao vereador Jair do Nascimento, no Brasão, que o cafezinho do Santa Helena tinha sido o mais caro de toda sua vida...
Foi também o ponto preferido pela imprensa. E não podia ser diferente, porque se tornou fonte fecunda para o noticiário. José Carlos, Heitor Augusto, Dormevilly Nóbrega, Almir de Oliveira (o primeiro repórter de cobertura diária na Câmara, a partir da redemocratização, em 47), Paulo Lens, Fábio Nery, Paulino de Oliveira estavam ali diariamente. Dormevilly era, além de jornalista, o secretário da Câmara, o que lhe dava uma dupla importância: fonte do noticiário e arauto das notícias. Paulino tinha um hábito: acabar de tomar o cafezinho, e fumar, invariavelmente encostado no poste mais próximo, posição em que era capaz de permanecer durante duas horas, sempre com o pé direito erguido para trás, apoiado em uma saliência que os velhos postes da Halfeld tinham na parte inferior.
O Santa Helena vendia também cigarros, rapé, charutos e alguns tipos de balas. Para acompanhar o cafezinho, se o freguês desejasse, alguns bolinhos doces e um pequeno pastel.
Outro dado curioso, este de importância não apenas para os frequentadores, mas também para todas as pessoas que saíam da Rio Branco para descer a Halfeld: na parede externa do Santa Helena havia uma pequena placa de mármore escuro, onde as funerárias únicas da cidade – Candelária e Santa Cruz – afixavam, de manha bem cedo, as notas de falecimento. Pessoas que tinham morrido na noite anterior ou na madrugada. Era obrigatória a parada, para se saber quem havia “dado baixa”, como dizia Paulino.
Com o fim do velho café, que morreu juntamente com muitos de seus frequentadores diários, ficou para trás um capítulo da história de Juiz de Fora, da história do nosso jeito de ser, nossa gente. Era a porta de entrada da rua Halfeld, onde se falava de tudo e se falava mal de quase tudo. Dizia-se que mulher que passasse nesse trecho sem despertar qualquer comentário de suspeita é porque se tratava de senhora verdadeiramente virtuosa... porque nada escapava da fauna do Santa Helena.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

 



Ideias sobre a carestia

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

A tentação de apelar para soluções populistas sempre bate à porta de um presidente, seja qual for sua origem partidária ou convicções ideológicas. Quando a carestia sobe e os alimentos disparam, para vencer o problema fica o governante tentado a controlar os preços dos principais gêneros de primeira necessidade e utilidades domésticas. Lula, pelo que se vê, tem conseguido escapar desse apelo, à primeira vista do agrado da população, mas de consequências inevitáveis, a primeira das quais é a certeza da crise gerada pelo desabastecimento. Faz bem em resistir.

Sob a ingerência de decisões desse tipo, a produção some do mercado, foge das gôndolas dos armazéns, esconde-se nos estoques estratégicos para esperar a volta à normalidade. Nos tempos do governo José Sarney, quando se tentou exercer poderoso controle de preços, a república caiu na ditadura dos ágios e do mercado negro, e até aviões eram empregados para detectar pastos camuflados, onde os bois estavam a salvo dos frigoríficos. Duraram pouco os efeitos da política de tabelamento, porque o mercado tem suas regras, que sempre vencem pelo cansaço. Caíram os “soldados do Sarney”, gente de boa vontade, policiais improvisados, que marchavam heroicamente contra os produtores inimigos. A realidade mandou todos de volta pra casa.

Antiga essa tentativa de conter preços, no peito e na raça, quando o governo pretende ganhar a simpatia popular, transferindo para os ombros de quem produz os problemas que a política não sabe resolver. No curso de Humanidades, a gente estudava rudimentos mercadológicos, e já se sabia sobre a experiência dos Editos de Diocleciano, isso nos 301 a.C, quatro anos antes de morrer. Foi quando uma rigorosa tabela de preços consentidos nada conseguiu para melhorar a vida do povo romano; que, na verdade, piorou, porque veio a escassez de sal, óleo e pão. Fome e miséria em meio a boas intenções.

Depois dele, frequentaram a História outras atitudes popularescas, igualmente fracassadas, nos governos que teimam em admitir que é neles, e com eles, que a vida se tornar um sacrifício permanente. No Brasil de hoje, o tabelamento também estaria condenado ao fracasso, porque, entre outros fatores que se associam, sabemos que a agressão à economia popular nasce da carga tributária, a mais robusta do mundo. Quando isso acontece, produzir, principalmente da parte dos pequenos e médios empresários, vira temeridade. Além do ônus tributário, eles enfrentam os modais escassos ou superados, o que encarece sensivelmente o transporte dos alimentos, criando cenas patéticas, como se viu, semanas atrás, milhares de sacas de cebolas deterioradas no Nordeste, apodrecidas por falta de transporte. Entre outras dificuldades na lista dos alimentos, que desafiam os recordes do agro. Para confirmar que somos mesmo um país que cultiva contrastes.

Agora, em meio a clamores, incomodado pelo noticiário sobre os preços de alimentos, o presidente Lula trouxe sua contribuição. Falando aos baianos, com uma ideia jamais acusada de originalidade, recomendou que o comprador, diante de preços excessivos, simplesmente deixe de comprar. Não comprar nem consumir. Já que o governo não encontra melhor caminho, o cidadão então é chamado a desconhecer a dificuldade, mesmo que, aceitando tal convite, pode enfrentar perigoso desdobramento, porque, estando tudo com preços inacessíveis, não comendo o minimamente indispensável, as camadas mais pobres estão condenada à inanição.

A oposição não perdeu tempo, e acha que, indiretamente, mas sob o mesmo raciocínio, se o desejável é não gastar, o presidente pode estar tolerando que também deixemos de pagar os impostos, que agridem os bolsos muito mais que o feijão e arroz...

(Num campeonato de sugestões engenhosas, o governo já insinuara que os consumidores optem por produtos de validade vencida ou próximo de vencer. E rezar para que, seguindo tal alternativa, milhares de pessoas não padeçam nos ambulatórios, intoxicadas pela ingestão de produtos impróprios)

Quando, há poucos dias, registrou-se a posse de Sidônio Palmeira no ministério, para orientar a política de comunicação do governo, sendo muitas as suas responsabilidades, foi dito que, entre elas, precisa ganhar prioridade a missão de instituir a verdade como lema e bandeira da mensagem presidencial desejável. O modelo pode não ostentar, de imediato, a simpatia das grandes massas, mas chegará o momento em que servirá, e muito, para o presidente fechar o mandato sob o respeito da nação, mesmo sem os aplausos da unanimidade.

 



Pessimismo, nosso velho conhecido



Perguntei, certa vez, ao prefeito Mello Reis sobre as dificuldades mais desafiadoras que havia enfrentado, durante o período em que esteve à frente da Administração Municipal; e ele confessou

que nada havia suplantado uma certa baixa estima da população. Persistia a convicção de que nada dava certo, nada valia a pena, tudo muito difícil. E isso acabava sendo fator de desestímulo para projetos mais audaciosos. Este é um sentimento que paira no ar, ainda que com presença reduzida, com maior ou menor intensidade; mas sem explicação histórica. Foi também daqueles dias um fato pitoresco, que iria confirmar o pessimismo endêmico: certa madrugada, em tradicional salão de jogos da cidade, veteranos companheiros do baralho foram interrompidos por alguém gritando “incêndio na rua Fonseca Hermes”. E, logo, surgiu a voz tranquilizadora de um comerciante e jogador bem-sucedido. “Calma, que em Juiz de Fora nem incêndio vai pra frente”...

Não se sabe quem inventou esse clima de abatimento. Quatro décadas antes de Mello Reis, 1942, em carta a seu amigo Alceu de Amoroso Lima, o professor Henrique Hargreaves, que se tornaria um dos principais pensadores católicos do Brasil, queixava-se, intrigado, que “aqui ninguém está contente com a situação, e ninguém sabe por que não está contente”. Diríamos então: quase um jeito de ser.

Vê-se que esse clima de desencanto, que em algumas vezes se revelaria contagiante, vem de longe; muito longe mesmo. Em fevereiro de 1889, totalmente envolvido com os equipamentos que o tornariam pioneiro da eletricidade, Bernardo Mascarenhas enfrentava rumores de que a prometida energia oferecia insegurança à população. E quando vieram os telefones, o primeiro deles instalado na Mecânica de George Grande, espalhou-se o temor: “esse troço vai dar choque no ouvido em dia de tempestade”. Só o tempo se encarregaria de destruir o medo.

Sorte diferente não teria seu contemporâneo Barbosa Lima, que conseguiu construir o Fórum apenas com subscrições públicas. Em novembro de 1877, um temporal destruiu parcialmente uma das paredes em construção, logo se apregoou que tudo estava caindo, e a população era chamada para ver as ruínas que não aconteceram. E, quando o prédio foi inaugurado, com a presença do Imperador Pedro II, a recomendação era ter cuidado. Suspeitava-se do pinho de Riga empregado no piso. Barbosa Lima acabou se irritando com a maledicência e foi-se embora daqui.

Via-se uma certa tendência a considerar que as coisas nossas são pequenas, pobres e feias. Nem o grande poeta Murilo Mendes escaparia, ao confessar num epigrama: “eu tenho muita pena do Rio Paraibuna”... Mais cruel teria sido depois o grande Carlos Drummond de Andrade: feliz em Juiz de Fora é o Paraibuna, que passa de passagem, embora tenha morrido garantindo que nunca havia dito tal coisa. Mas não pôde negar que certa vez cumprimentou Pedro Nava, quando o médico e futuro memorialista decidiu-se mudar daqui.

Houve muita gente que nutriu especial antipatia pelo fotógrafo Henry Klumb, que, em 1861, aqui acompanhava a Família Imperial, por referir-se a Juiz de Fora como "esse lugarzinho”, embora reconhecesse, ao mesmo tempo, que nesse “lugarzinho” estava o principal empório que abastecia Minas e um pedaço de Goiás.

Outro poeta, dos maiores, que não escapou da língua mordaz dos pessimistas municipais, foi Belmiro Belarmino de Barros Braga. Quando uma revista da Bélgica, “La Source” publicou, traduzidas, algumas poesias suas, em Vargem Grande, onde nasceu, e nos cafés da Rua Halfeld, não faltou quem suspeitasse que as poesias não eram dele, mas de um xará dele... Imaginem! Na Bélgica, alguém com o nome de Belmiro Braga! Mas o poeta fez pouco caso da maldade, lembrando que os homens são como os rios, sempre desprezados no lugar onde nascem.

Dir-se-ia que há uma tradição de lamúrias e complexos suficiente para deitar a cidade no divã de um discípulo de Freud. E tentar desvendar o inconsciente coletivo de onde nascem tão longos desencantos, que, aliás, ganhavam dimensão e se ampliaram por causa do nome da cidade, que insinua exclusão. Nem de dentro somos; somos de fora, excludentes. E graças a um juiz despreparado, aventureiro, enroladíssimo com a polícia, expulso da província de Minas, degredado, traidor de interesses da pátria nas negociações com os invasores franceses. Luiz Forte Bustamante Sá, eis o nosso patrono. Quem sabe se, em parte, não nasceram desse aventureiro, que chegou aqui fugido, nossos complexos acumulados? Já em 1886, muita gente desconfiava disso, tanto que a Câmara pensou propor à Assembleia outro nome para a cidade. Seria Cidade da Independência.

Note-se que em certas épocas sobrevivia um certo ânimo sobre as coisas que dão e deram certo no resto do mundo, mas não aqui, com agravante de que tal abatimento chegou a envolver homens de expressão, sem embargo de alguns, em outras circunstâncias, terem prestado bons serviços. É o caso de Francisco Bernardino, que na sessão da Câmara de 19 de agosto de 1908 insurgiu-se contra a ideia de o município trazer colonos japoneses para trabalhar aqui, alegando que isso seria um grande perigo, pois já tinham provocado “tamanhas perturbações nos Estados Unidos, nos salários e nas relações de trabalho”. Bernardino achava que os japoneses “trabalham com tal superioridade, perfeição e sobriedade, que acabariam conquistando toda a oferta e produção do trabalho”. Pois os japoneses foram para São Paulo, e ajudariam a desviar para lá o eixo cafeeiro, parte do qual estava conosco.

Para confirmar que nem sempre os políticos, quando pessimistas, estão sintonizados com nossos interesses, lembraria o que disse certa vez o general Macedo Soares, quando na presidência da Companhia Siderúrgica Nacional, de Volta Redonda. São palavras textuais dele: “Eu fiz tudo para levar esta usina para Juiz de Fora ou suas imediações. Não encontrei nenhuma receptividade. E tive a tristeza de ouvir de um político que Juiz de Fora já estava saturada de indústrias’’. As resistências ocorreram com essa usina de produção básica, que aqui viria ocupar o espaço deixado pela indústria de transformação, já oferecendo sinais de estagnação.

Mas, em relação à tradicional má vontade, vale considerar que dela também se tornaram vítimas grandes eventos. Voltemos a setembro de 1886 para encontrar no Parque Halfeld a Exposição Agrícola e Industrial, cuja importância era confirmada pelo grande número de empresas participantes. Até na Europa houve quem a elogiasse, como um jornal de Milão, onde estavam Múcio Teixeira e José Lino, que compuseram o hino da feira. Mas aqui, queixas. Donas de casa denunciaram a exposição por provocar a poeira que sujava suas toalhas e cortinas, além da chatice da chiadeira dos carros de boi, que conduziam as peças expostas. Nem José Cipriano, o organizador da feira, escaparia: foi crucificado por ter esbanjado oito contos de réis das rendas municipais, diziam.

Se refletirmos sobre essa mania de achar que tudo está ruim ou que poderia ser diferente, o melhor é continuar no Parque Halfeld, a principal referência da cidade, com um perfil longe de ser unanimidade. Basta percorrer as crônicas da época. O

decreto que o criou fala em Praça Halfeld, mas a população achou melhor tratá-lo como Parque, ainda que ele não seja exatamente isso. Em 1880, a Câmara contratou o arquiteto Miguel Lalleman para ajardiná-lo e colocar gradil. Protestos. A população queria que ali continuasse sendo o lugar de touradas e circos. O gradil ficou quatro anos sob críticas, e, quando a Câmara decidiu removê-lo, também por isso foi criticada. Valadares Pinto, prefeito nomeado, quis derrubar as palmeiras, e quase o devolveram a Belo Horizonte antes do tempo.

À procura de um escudo para confirmar essa história, vou buscar apoio em Jair Lessa no seu “Juiz de Fora e seus Pioneiros’’, autor que não pensava diferentemente sobre o já bastante citado pessimismo municipal. Disse ele:

Reclamar era o nosso forte. Reclamaram contra o engenheiro Fernandes Pinheiro, porque estava fazendo aterros para a via férrea. Reclamaram contra o professor de música, que convocava os alunos trombeteando do alto da janela do coro da igreja. Reclamavam que nesse coro os músicos mais bebiam que tocavam; e, quando tocavam, reclamavam, porque tocavam sem parar. Reclamavam das carruagens com cavalos, por causa dos acidentes, como o caso do guri atropelado quando vendia cocadas. Reclamavam dos cocheiros, que paravam no botequim para tomar um gole. Reclamavam da roleta do Hotel Europa, que tomava o dinheiro dos incautos”.

E reclamavam da lerdeza da carroça de lixo que descia a Rua Santa Rita exalando cheiro ruim. Que então passasse a galope. Reclamavam do fiscal da Câmara, que fazia vista grossa para tudo. Enfim, proclamavam os derrotistas de plantão: em Juiz de Fora só funcionava mesmo a lua cheia, que supria a deficiência dos nossos lampiões...”

Houve época, felizmente superada, que a cidade se cercava de pessimismo. Interessante, mesmo com as coisas dando certo, o progresso industrial, as artes e as grandes realizações. Mas isso só se deu porque heróis como Halfeld, Vidal, Mariano, Bernardo, Bertioga, Penido, Menezes desconheceram aquilo. Reagiram aos que quiseram transpor as águas do Tejo, despejadas no Paraibuna. Porque das velhas águas portuguesas pairava o espectro do velho do Restelo, arrancado do Canto IV dos Lusíadas, a admoestar os navegantes do progresso. Cuidado! Vocês vão afundar, não vai dar certo. Não façam, não ousem, não tentem, não busquem, não construam, não se aventurem por mares que não conhecem.

O prefeito Custódio Mattos gostava de repetir a história que lhe contamos sobre nossa chegada a Juiz de Fora, vindos de Três Rios. Natal de 1946. O caminhão com os móveis estacionou onde seria a fábrica RS, e meu pai subiu a rua principal daquela Vila Ideal para receber, em um armazém, as chaves da pequena casa que havíamos alugado. O senhorio era dono desse armazém. Pois os dez minutos em que ali permaneceu foram suficientes para meu pai ouvir três coisas que nunca mais deixaria de ouvir nos outros 50 anos em que viveria aqui: esta Câmara é a pior de todas, o Tupi está em crise, o comércio não está vendendo merda nenhuma...



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

 


A Pauta é Política

7 fevereiro 2025

FEDERAÇÕES

Criadas, antes de tudo, com o objetivo de dar aos pequenos partidos a chance de escapar da Cláusula de Desempenho, e, portanto, garantindo participação nos Fundos para campanhas, as Federações deixaram claro que não terão fôlego para chegar a 2026. Já estão “fazendo água”, a começar por Minas, onde o PV queixa-se de estar quase nada prestigiado no governo Lula. O PCdoB, também muito ausente, ainda não informou o que pensa, mas veteranos comunistas desconfiam que o tempo de sua Federação passou.
Nem sempre são procedentes as queixas quanto a espaços na Esplanada dos Ministérios. Os partidos nanicos querem muito do governo, mas sempre foi modesta sua contribuição eleitoral.

DESPRESTÍGIO

Basta conferir os nomes dos novos dirigentes do Senado, de onde procedem, para se constatar:
“É como se o Brasil fosse todo e apenas o que está acima de Pernambuco. Pra baixo, terra estranha, sem lideranças e sem representação. Não foi outra a ideia que ficou da composição da mesa do Senado, com todos os cargos confiados a nomes do Tocantins, Amapá, Pernambuco, Paraíba, Roraima, Amazonas e Sergipe. Tudo com cor e cheiro de um corporativismo regionalista, embora isso não constituísse surpresa maior, pois o poder de manobrar votos e decisões faz parte, de há muito, da competência política daquela parte”.
Os senadores de outras regiões ficaram calados e calados permanecem.


O POR FORA

Vários canais de televisão reeditaram entrevistas de Newton Cardoso, que morreu, nesta semana, aos 86 anos. Em uma delas, o entrevistador quis saber sobre as relações do ex-governador com a imprensa, particularmente com as empresas. Mas o que temia, disse, eram os jornalistas que, além dos salários, ganhavam o “por fora”, para falar bem ou mal de governantes. O famoso fee.

BOAS RELAÇÕES

Cada vez mais prósperas as relações da Administração municipal com o deputado Luiz Fernando Faria, cuja base eleitoral está em Santos Dumont. Depois de contemplá-lo com a Comenda Henrique Halfeld, a prefeita Margarida assinou ato nomeando o irmão dele, Carlos Alberto Ramos de Faria, para uma das 25 Subsecretárias. Com ele fica a do Desenvolvimento Regional.

SUBSCRITORES

Até ontem, 73 deputados, de diferentes partidos, já haviam subscrito projeto do gaúcho Bibo Nunes (PL) para reduzir as inelegibilidades de oito para dois anos, o que fere um ponto essencial da Lei da Ficha Limpa. O objetivo, sabe-se qual é: abrir espaço para a candidatura de Jair Bolsonaro, hoje inelegível, à Presidência de República em 2026.

FIM DE LINHA

Está marcado para março o fim do PSDB, que construiu uma das mais poderosas máquinas da política brasileira, mas veio perdendo forças, e hoje delas guardou apenas um pedaço. Tudo indica que vai se fundir com o PSD, de Kassab, embora também pretendido pelo MDB.
Em Juiz de Fora, onde teve como ponto alto as duas passagens de Custódio Mattos pela prefeitura, muitos tucanos acham que o partido “autossabotou-se”; quer dizer, preferiu morrer. Aqui, o conflito entre Custódio e om então deputado Marcus Pestana teria contribuído para o seu enfraquecimento. Como também responsável seria a derrota de Aécio Neves, quando disputou com Dilma a Presidência da República, em 2014.

LAFAYETTE

Cotado o deputado Lafayette Andrada (Republicanos), que já foi vereador em Juiz de Fora, para ser relator do projeto que pretende introduzir o semipresidencialismo no Brasil, o que significa a Presidência da República dividir atribuições com o Gabinete e um primeiro-ministro. O projeto, condenado a longas discussões, pretende também o voto distrital, o que seria muito bom.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

 

Um projeto para a montanha

(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Não falta quem observe que o presidente Lula teria dado o primeiro passo rumo à sucessão de 2026 ao confessar que, entre suas preferências imediatas, estaria em ver o senador Rodrigo Pacheco próximo governador de Minas. Faltaria combinar com os mineiros, porque a eleição dele, há cinco anos, foi singular resultado de uma conspiração da consciência coletiva para impedir que Dilma Rousseff se tornasse senadora. Portanto, o destino dele foi fruto de um fenômeno particular, que não tem como acontecer de novo. Não se importando com isso, Lula lançou ao vento seu preferido, sem que ninguém o pedisse; mas pode, de fato, ser um ensaio em busca de frutos partidários a médio prazo. Primeiro ato de uma novela que já vai definindo o enredo eleitoral. Em Minas as coisas sempre tiveram capacidade de se complicar, exatamente quando amanhecem as ambições que visam a Presidência da República.
No tempo da raposada, já lá se vão os anos 40 e 50, a sucessão presidencial sempre começava por espetar o âmago dos velhos políticos mineiros. Era preciso ouvi-los; nem sempre para acatá-los. Mílton Campos dizia que a gente de lá podia não ajudar, mas era mestre em atrapalhar, muitas vezes quase em silêncio, em tramas tão bem descritas por Amoroso Lima, ou na cilada meticulosamente construída. Por isso, sempre foi conveniente subir a montanha para ouvir e falar o mínimo possível.
Decide-se ou não se decide com frieza. Muitos candidatos são lançados para perder. Quando o antigo e manhoso PSD lançou Cristiano Machado para a Presidência, em 1950, de tal forma ostensivamente traído pelo próprio partido, a ele  restou o direito à comoção e a aceitar sua perpetuação no dicionário. Cristianização passou a ser sinônimo de traição. Dele condoeu-se Getúlio Vargas, que o nomeou embaixador no Vaticano, onde morreu.
Como também, lembrando de novo as velhas raposas, os donos da política eram insinuantes, artífices de grandes decisões tomadas no país, como as habilidades tancredianas, em 1985, ao convencer as lideranças militares, sem suor e sem canhões, que se esgotara o tempo da ditadura.
São coisas trazidas do passado, apenas para se saber em que terrenos os veteranos colocaram a sola dos pés. E agora Lula fez subir a esse palco uma declaração de amor ao senador, querendo presenteá-lo com o segundo entre os maiores colégios eleitorais.
( Ontem, foi cremado, em Belo Horizonte, o corpo de Newton Cardoso, quadragésimo sétimo governador, a quem se confiou o fim da curiosa sutileza dos líderes montanheses. Explicou, certa vez, que viera da Bahia para ser o trator que substituiu a enxada da velha política. Preferia jogar pesado com adversários),
Rodrigo é o mineiro que nasceu mais longe, em Rondônia, tido como conciliador e especialista em contornar obstáculos. Portanto, se exitoso, seria peça adequada para ajudar a vencer, pelo menos em Minas, naturais obstáculos para quem pensa no desafio de um quarto mandato presidencial. Lula não ignora, nem poderia ignorar, que vão se avizinhando pesados embates nas conciliações, e, para enfrentá-los melhor, estaria cuidando da exumação das lições e da paciência do velho PSD. Na presidência do Senado, Rodrigo Pacheco mostrou que tem capacidade para a missão: nas horas mais desafiadoras, não foi muito contra nem a favor; antes, muito pelo contrário…
Minas é o estado onde o governador Romeu Zema, longe da escola pessedista, resiste ostensivamente à política do governo federal. A ele está confiado, nas montanhas, o papel de principal opositor ao PT e ao lulismo, certamente comungado com o poderoso colega paulista, Tarcísio Freitas. Tentar fincar uma cunha em Minas é missão, que, parece, vai mesmo pesar sobre o senador, embora desde a semana passada já não tem mais as rédeas do Congresso Nacional. O que não é pouco. Além de um poder que escapou de suas mãos (e aqui vai outra lição dos velhos caciques mineiros) candidaturas propostas com grande antecedência costumam queimar demais sob o excesso do sol ou afundam nas enchentes… Que cuide, portanto, de avaliar o presente de Lula.

Abaixo do Pernambuco

É como se o Brasil fosse todo e apenas o que está acima de Pernambuco. Pra baixo, terra estranha, sem lideranças e sem representação. Não foi outra a ideia que ficou da composição da mesa do Senado, com todos os cargos confiados a nomes do Tocantins, Amapá, Pernambuco, Paraíba, Roraima, Amazonas e Sergipe. Tudo com cor e cheiro de um corporativismo regionalista, embora isso não constituísse surpresa maior, pois o poder de manobrar votos e decisões é, de há muito, competência política daquela parte.
Estranha-se o silêncio e o desmazelo dos senadores de outras regiões, mais uma vez relegadas. Não foi a primeira vez que o federalismo leva um tombo na Câmara Alta, onde os estados têm o mesmo número de cadeiras - três – exatamente para tornar iguais os entes federados. Mas isso tem sido mera questão aritmética para enfeitar a Constituição, sem denominador prático, muito menos justo.
Que vergonha essa humilhação, permitida pelos senadores do resto do Brasil.