A ditadura das sanções
((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" )))
Ninguém sabe – ou se sabe não revelado – quais seriam os caminhos seguros para se praticar a remodelação da Organização das Nações Unidas, que perde prestígio e recompensa toda vez que o mergulhador num impasse ou faz nova guerra. Como agora, o Oriente Médio convulsionado, está pronto para estender o impasse do Irã a vários países, entre outros diretamente ou diretamente implicados. O Brasil faz parte dos membros mais preocupados, porque, sabe bem nossa diplomacia, a ONU já deu sobejas provas de fraqueza, incapacidade de unir os povos e oferecer garantias perenes à paz; e isso rompeu com os ideais que inspiraram sua criação há 81 anos.
Talvez uma reforma substancial, como queremos algumas, deva começar pelo Conselho de Segurança, proposta que há anos também goza da simpatia brasileira. Aqui, como em outras partes do mundo, denuncia-se hoje, como em outros tempos passados, que o Conselho acabou destinado ao papel de clube de poderosos, cinco sócios efetivos, sempre os donos dos interesses que levam às lutas. Quem gosta de tamanhos pode não querer abrir a mão. Por que acabar com o grande privilégio?
O Conselho é permanente refém dos votos e vetos dos Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França. Não é fácil esperar concessões dos condestáveis, que definem uma geopolítica que a eles se curva nos momentos mais graves. Os conflitos da atualidade estão repletos de crimes contra princípios civilizatórios, que, na bela sede de Nova York, acabam em longos e enfadonhos discursos formais. Tanto faz.
2 – Ganhar e consolidar a convivência no mundo é, pois, o primeiro e mais importante objetivo da Organização Adormecida. Contudo, tirante o constrangimento do Conselho de Segurança, resta outra via a desbravar; e o próximo governo do Brasil, a eleger-se em outubro, deve abraçá-la com vigor, convocando outros 180 membros a uma participação efetiva. Trata-se de eliminar a ditadura cruel das avaliações econômicas, que poucos dos verdadeiros crimes contra a humanidade. A aplicação dessas negociações, vulgarizadas no governo Trump, leva fome, afasta investimentos, congelamento ativo, amplia desemprego, miséria e crime. Tornam-se, em paralelo, armas cretinas à disposição dos poderosos, que usam esse castigo para especificar o sacrifícios a que condenam as populações que governam. Aplicadas às coerções (o primeiro sofrimento pesa exatamente sobre o povo), sacrificam-se leis inteiras, ao mesmo tempo em que, elegendo-se como vítimas, os maus governos têm o argumento de que precisam para justificar a sua inépcia. Os ditadores, por exemplo, usam as avaliações para se aclamarem alvos de perseguições. Dizem e repetem que nada pode fazer por causa das avaliações.
Vê-se, agora, em Cuba, que soma, entre suas tragédias, a carência de energia, além da ameaça de ver Trump pronto a desembarcar na ilha.
(Já se disse, com base num princípio aristotélico, que não basta a afirmação de certa coisa para se negar uma outra. Dar razão aos que deploram a ditadura de Cuba não justifica aceitar os que submetem o povo a perigosas carências).
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