O tamanho dos pecados
(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil!" ))
Com pouco mais de quatro meses que nos separam das eleições, e algumas semanas das convenções partidárias para homologação de candidaturas, é interessante a divagação das pesquisas e a interferência dos cientistas políticos, em particular quando se trata de descobrir quem precisará de ocupar a Presidência da República a partir de janeiro. Mas não serão acusados de devaneios, porque, se o clima político pode sugerir incertezas, as digressões fazem sentido. O que se, por um lado, amplia a divulgação e dá aos cidadãos a oportunidade de conhecer melhor quem está chegando para pedir o voto, sob outra ótica pode confundir, com o risco de um processo perturbado nas etapas finais da campanha.
Na lista dos temas que as pesquisas e os analistas avaliam para inspirar uma vasta população votante, há uma preocupação geral com o custo de vida, e entende que o dor no bolso do consumidor vai suplantando outras questões relevantes, tais como a insegurança pública, as deficiências na educação e nos serviços de saúde. E a corrupção.
Sobre a corrupção, que cavalga a galope, de norte a sul, surge detalhe interessante na percepção dos que se identificam com amplo potencial para influenciar (a despeito de não ser este um item que sensibiliza, prioritariamente, as multidões, o que tem permitido, por exemplo, que sejam eleitos, no Rio, governadores que frequentemente saltam do Palácio Guanabara para o presídio).
De fato, se não bastasse ser o país sufocado por avassaladora e desavergonhada onda de desonestidades e ilicitudes, caminhamos, paralelamente, para algo curioso, que vai ganhando corpo e carona nos primeiros passos da campanha. Observamos: já não se cuida de reagir à corrupção como o grande câncer a combater e vencer, mas se revelando candidatos preocupados tão somente em se apresentarem como menos corruptos que os adversários; se não dizer que são honestos, porque efetivamente não o são, resta pode mostrar que têm a virtude de pecar menos contra a moral da ética, suficiente para uma contrição. Querem se recomendar ao eleitor com a qualidade do menos pior num mundo de pecadores. O mérito da probidade com a coisa pública é condenado às agendas.
À primeira vista, dito assim, parece pilharia ou exercício de ironia. Mas não deixa de ser realidade dolorosa, porque, se estamos sob o império da impunidade, a preocupação dos maus políticos é agora mostrar que concorrem com quem é pior.
2- Sobre fatos e pessoas capazes de influenciar no 4 de outubro, não convém desprezar um personagem que hoje enche as páginas e não sai da televisão; preso, mas cada vez mais perigoso, na mesma proporção em que se sente acuado. Daniel Bueno Vorcaro. Na ânsia de ganhar a liberdade ou minimizar o peso das penas que o aguarda, ele pode elaborar delações demolidoras de candidaturas, balançar os tribunais, destruir os ministros e ferir os altos interesses daqueles que já chamaram de “bons amigos nos três poderes”, que o contemplam apenas com olhar de paisagem, sem prestar socorro na hora ingrata.
Sabemos todos que ele sabe muito. Na aflição de salvar a própria pele, Vorcaro, denunciando que a Justiça ainda não sabe sobre o banco Master, pode se tornar cabo eleitoral devastador. Sem dinheiro, não há mais como eleger amigos favoritos, nem financiar uísque milionário em Londres, mas tem tudo para sepultar candidaturas e altos esquemas que giram em torno do poder.
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