Nada mais escandaliza
((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
Uma coisa muito grave, acentuada a cada dia mais, é a triste constatação de que o país vai perdendo sua capacidade de escandalizar-se, deixando correr, por conta do inevitável, fatos e situações da maior gravidade, tal como se dá com o império da corrupção. Vive-se uma quadra em que tudo é natural ou inevitável. Deixar como está.
Nessa rota, espantou muito, pela gravidade e pela carência de desdobramentos imediatos, a confissão, quase patética, do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, declarando que o Brasil desceu a uma total incapacidade de manter a soberania territorial frente a qualquer nação agressora. Não há mais como preservar sua integridade, porque o que temos de munição se esgota dentro de 30 dias. Não há peças de reposição e é total a carência de combustíveis. O que significa que nossos tanques, ou apodrecem nos quartéis, ou consumiriam 50 dias para atravessar alguns estados, e chegar ao inimigo que estivesse distante. Os aviões não podem voar, os navios com as amarras atracadas. O quadro, traçado pelo ministro, foi um desabafo diante de generais comandantes calados. Deviam, ao menos, explicar como fica o ânimo da tropa e das escolas de formação de oficiais.
(Pois é diante dessa paisagem sombria que decidimos debochar do destino e da sorte, vendendo as armas ainda prestáveis que fabricamos, para que os vizinhos se fortaleçam...)
Doutor Múcio não disse, nem lhe foi perguntado, se a Presidência da República tem ciência desse caos, e, se não o ignora, quais as medidas de urgência a serem tomadas. Faz sentido, porque, em plena campanha eleitoral, um dos temas favoritos do governo tem sido a luta pela soberania, depois que os Estados Unidos entraram na órbita nacional para decidir que, no Brasil, crime organizado é o mesmo que terrorismo.
Em qualquer lugar do mundo onde o encarregado da segurança nacional confesse tamanha indefesa a consequência lógica estaria na decretação de estado de emergência. Não sendo a assim, ele se veria na contingência de demitir-se, já que nada pode fazer no cargo que ocupa.
Com o Brasil de tal maneira desagasalhado de segurança, quadro tão grave justificaria a convocação extraordinária do Congresso; mais ainda porque o ministro foi além, ao agravar sua fala indicando quais são os nossos pontos mais frágeis na eventualidade de uma invasão. Mostrou as pegadas da fragilidade. Ficou exposto, pela voz mais credenciada, que a região Norte vive totalmente desprovida de blindagem, não sendo diferente a realidade das vastas fronteiras. Um permanente aceno aos maus vizinhos, afiançou o ministro da Defesa.
(Um caso de risco concreto estaria na recente ameaça da Venezuela de conquistar a região de Essequibo, na Guiana. Se partisse para a aventura, teria, forçosamente, de transitar por território brasileiro, e não haveria como impedir a ofensa).
É triste saber de tudo isso.
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