terça-feira, 25 de julho de 2023

 


Para bom entendedor



((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))


Se todos percebem, por que o PT não perceberia? Na mesma medida em que o presidente vai acumulando concessões ao Centrão e aos parlamentares agregados, os petistas vão perdendo o poder de influir, tanto quanto desejam, na disputar das grandes prefeituras em 2024. Porque em cada oferta de cargos e posições a realidade se desdobra em dois sentidos contrários: o partido do governo se enfraquece e os aliados de ocasião se fortalecem. Os governistas não seriam tão inocentes de achar que, na luta pelo comando das prefeituras, a aliança lulista haveria de prevalece sobre os comandos e interesses locais. Desconhece-se a existência de deputado ou senador que não queira ter o controle político dos municípios onde assentam suas bases eleitorais. No interior, nessa hora, Brasília é quase uma ficção.

Zeca Dirceu, líder da bancada na Câmara, sente o perigo riscando o horizonte, e já interferiu na conversa de Lula com o Centrão. Adverte que, se o PT tem de ceder alguma coisa, é preciso que os demais também cedam, para que as coisas funcionem sob um clima que chama de “visão estratégica”. Seria oportuno saber se fala por si só, ou também pelo pai, Zé Dirceu, oráculo que já cuidou da linha partidária, e sabe quanto, quando e como partilhar benesses na medida certa.

Um equívoco talvez esteja a cometer o líder da bancada, quando acena com cargos do segundo e terceiro escalões para acolher e contentar a alma e o estômago reivindicantes dos parlamentares, não necessariamente contemplados com ministérios. Ora, é exatamente naqueles níveis do serviço público que o governo e seu partido preferencial precisam ter escudeiros leais, pois são os que selecionam, liberam, atrasam ou dificultam as verbas. Sabem como complicar o que é fácil, passar por cima das decisões dos ministros.

( Sobre esse poder oculto e latente dos escalões secundários o jurista Saulo Ramos, que foi ministro da Justiça de Sarney, tem um depoimento sempre oportuno: ” Observei que no governo federal os servidores do segundo escalão adoram ministro novo, porque fazem dele o que bem entendem. Enganam, dão informação truncada, assessoram mal. Há honrosas exceções, que são honrosas precisamente por serem exceções”).

Palavras bem ditas e mal ditas

Notícia interessante do fim de semana foi a decisão de se prestar misericordioso socorro ao presidente Lula na futura elaboração de discursos, de forma a eliminar ou reduzir constrangimentos que têm se multiplicado nas muitas incursões que realiza pelo Exterior. Cabe observar que, ante a silenciosa perplexidade da Casa Civil e do pessoal do Itamaraty, foi a primeira-dama que tomou a iniciativa de deslocar uma assessora para interferir na feitura dos pronunciamentos oficiais. Sem qualquer garantia de êxito para esse cuidado doméstico, porque o presidente mais se atrapalha é nos improvisos, como agora em Cabo Verde, quando manifestou a gratidão brasileira pela infâmia de três séculos e meio explorando o braço escravo. Claro, era outra coisa que pretendia dizer. Mas ficou o dito pelo não dito. E mal para todos.

Vê-se que os principais problemas não brotam dos textos, mas da aventura do verbo improvisado. Não há assessor, por mais ilustre que seja no trato do idioma, que possa corrigir isso. Improvisar, só excepcionalmente, cercado de todos os cuidados, com as frases previamente alinhavadas na memória, como ensinava Afonso Arinos.

Para dificultar desejáveis soluções, o esforçado presidente não foi contemplado pela natureza com os três requisitos que Balzac citava como virtudes indispensáveis ao improviso do orador: voz de rouxinol, memória de elefante e a visão circular do caracol.

(A propósito, para estranhar a desatenção dos colaboradores palacianos e do ministério das Relações Exteriores, tem faltado alguém para dizer a ele que faz parte da solenidade dos atos oficiais, principalmente junto aos governos estrangeiros, que os discursos estejam escritos. Formalidade respeitosa. Em outro ponto, no mar de estranhezas em que se navega neste país, assiste-se ao silêncio da diplomacia diante das faraônicas hospedagens do presidente e suas comitivas na Europa, ostentação que agride a nação de milhões de famintos, ao mesmo tempo em que serve de galhofa pelo mundo afora).

As falas presidenciais, com ou sem speech writer, têm de ser objeto de cuidadosas atenções, palavra por palavra. Quando se valem de fatos históricos, mais cuidado ainda. Viu-se em Rui, que escreveu o discurso de posse de Deodoro da Fonseca, no qual havia o detalhe melindroso das nossas dívidas com a Inglaterra. Mestre intestável do idioma, mesmo temperamental e autossuficiente, nem por isso Jânio Quadros dispensou longas conferências com Pedroso Horta para saber das conveniências no que devia dizer para um Brasil ansioso. Não eram simples assessores, como não o foram Evandro Lins e Darcy Ribeiro ao colocar no papel o que João Goulart devia dizer. Tempos mais próximos, foi o talento de Mauro Santayana que elaborava, sem remendos, os discursos de Tancredo Neves e Itamar Franco. Que sejam referência e inspiração para Lula.

Nas falas mais importantes, o orador político deve começar pela humildade. Perguntando e ouvindo.

Para o atual presidente, além de redatores, ajudaria bastante o concurso de diplomatas orientadores, para que se evitem dissabores, como se deu no confuso posicionamento frente à Guerra da Ucrânia ou o apoio à ditadura que humilha os venezuelanos. Ou a recente definição do nazismo moreno, no coração da Europa, que sabe, ela sim, mais que as antipatias por Bolsonaro, o que é padecer sob aquela tragédia humana.

Esperança na eleição

A História não permitiu, pelo menos até agora, uma forma de viabilizar a democracia representativa que não pelas eleições, quando se processam sob a liberdade de expressão, de opinião, livre trânsito dos eleitores e candidatos minimamente qualificados. É a receita. Fora disso, os governos se formam sob suspeitas quanto à legitimidade, mesmo quando chegam a revelar alguma eficiência administrativa.

Numa fase em que as franquias democráticas não andam nos melhores modelos pelo continente, ecoa, auspiciosa, a notícia de que vêm prosperando pressões internacionais para que a Venezuela desembarque da ditadura, pela via de um futuro processo eleitoral. Nem se sabe quando ou se vai acontecer, mas a expectativa já alivia os temores de perpetuação dos dias de poder de Nicolás Maduro. Porque, dada a importância do país vizinho, entre outras coisas dono de uma das maiores reservas de petróleo do planeta, a volta à democracia é motivo de esperanças para toda a América Latina, onde métodos ditatoriais sempre fascinam velhas e sovadas oligarquias.

Bom que se acredite em uma eleição venezuelana livre, sob o olhar atento e severo de observadores internacionais, capazes de garantir o sonhado avanço. Entre eles excluídos, obviamente, representantes dos governos claramente simpáticos a Maduro. Por isso, na fiscalização eleitoral já caem sob suspeição China, Rússia e Brasil; como também, por terem posição oposta, os Estados Unidos. Sob a égide das Nações Unidas, a missão fiscalizadora em Caracas devia ser confiada a países onde nunca ocorreram golpes de estado. Por exemplo, Nova Zelândia, Austrália, Noruega e Canadá. Contudo, há outros.

Um cuidado, não menos oportuno, é que na campanha preparatória para um pleito desse vulto não se permitam radicalizações ideológicas, mas assegurada livre manifestação de todas as correntes pensamento, de ideias e objetivos.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

 

Eleição de 2024 em pauta (XXIX)

1- Foi em Juiz de Fora, semana passada, o Encontro Mesorregião da Zona da Mata do Partido Novo, com a participação de lideranças estaduais e nacionais da sigla, inclusive o vice-governador de Minas, Mateus Simões, e dos secretários estaduais de Desenvolvimento Social, Beth Jucá, e de Comunicação, Bernardo Santos. Discutiram-se estratégias para as eleições municipais de 2024 na região.

Alguns observadores no evento comentaram para esta coluna. O que chamou mais atenção foi a presença da secretária estadual Beth Jucá, o que não seria apenas protocolar, por ser da cidade, e sim demonstrar que continua cogitada como pré-candidata à prefeitura. Afinal, o evento era partidário, e sinais são percebidos pelas evidências simbólicas.

O Novo vai lançar candidatura a prefeito, tendo como um dos nomes de destaque o do médico Carlos Eduardo Amaral, que foi secretário de Estado de Saúde. Mas outros nomes podem surgir.

2 - O PSB quer avaliar até onde podem ir suas expectativas em relação ao processo eleitoral do próximo ano. Em Juiz de Fora, os vereadores Vagner de Oliveira e Cido Reis, filiados, querem conversar sobre o assunto com o vice-presidente da República, Geraldo Alkimin, que é, hoje, a principal figura do partido.

3- O novo censo reduz vagas para vereadores. De fato, o número de vereadores de algumas cidades brasileiras deverá ser reduzido, em virtude dos dados que acabam de ser divulgados pelo IBGE. A medida já começa a valer nas eleições de 2024.

Levantamento do jornal Folha de S.Paulo, domingo anterior, com base nos dados do IBGE, e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), informa que capitais tais como Recife (PE) e Porto Alegre (RS) terão de diminuir o número de vereadores. Em outras 198 cidades o número de vagas pode aumentar. As capitais Goiânia (GO), João Pessoa (PB), Cuiabá (MT) e Florianópolis (SC) estão entre as que poderão ampliar a quantidade de parlamentares municipais.

A redução é medida obrigatória, diferentemente dos casos de ampliação. A estimativa é que haja um corte de 278 vereadores no próximo pleito.

As alterações são determinadas pela Constituição Federal, que fixa um número máximo para composição das casas legislativas com base no indicador populacional.

Em Juiz de Fora, em 2022, a Câmara ampliou de 19 para 23 vagas, decisão não afetada com os novos indicadores populacionais do censo.

4 –Comentários nos corredores da Assembleia Legislativa indicam que é questão de semanas, ou mesmo dias, a ida do deputado Noraldino Júnior para o PSB, onde lhe seria confiada missão de destaque. Quinto entre os deputados mineiros mais votados, ele figurou na campanha do Partido Social Cristão, onde se tornou presidente regional.

5 – Centrão, que tem bancada forte na Câmara Federal, entendeu que o governo Lula poderá ter período favorável na economia, próximo das eleições municipais do ano que vem. resolveu oferecer e aceitar convite do presidente para participar intensamente do Executivo…

As eleições municipais em 2024 são fundamentais para a participação da comunidade,porque a população mora no município, onde tudo acontece.

6 – Quaisquer que sejam os candidatos oposicionistas à sucessão de Margarida, é certo que pretenderão cobrar, em nome do desenvolvimento do município, se ela pediu apoio do governo Lula, cuja candidatura à Presidência defendeu com entusiasmo.

7 - O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, diz que a renegociação de dívidas no programa Desenrola beneficiará a mais de 30 milhões de pessoas. De imediato, famílias de classe média, que nas eleições de 2022, em grande, parte não votaram no PT.

Caso o programa seja um sucesso, poderá reverter em votos para os candidatos petistas nas eleições municipais do ano que vem.

Nas eleições de 2020 os petistas sofreram grande revés, e a expectativa agora é de bons resultados nas capitais e cidades com mais de 200 mil eleitores.

8 - Pelo que se lê no noticiário do dia ou se ouve nas conversas de partidos, a prefeitura de 24 poderá ser disputada por cinco ou mais candidatos. Para o Partido dos Trabalhadores nada melhor que a concorrência bem dividida…

9 - O PSDB, com 35 anos de fundação, após uma grave crise vivida em todos níveis, pretende ressurgir.Na cidade, as lideranças Marcus Pestana (ex-deputado federal) e Custódio Mattos (ex-prefeito), ao rivalizar pelo comando partidário no município acabaram por enfraquecê-lo, e hoje ambos não são mais filiados à legenda.

No mês passado foi nomeada uma comissão provisória, presidida pelo advogado Eduardo Schroeder; na secretaria, o médico Adriano Miranda, ex-vereador, que foi para o ninho tucano recomendado pelo deputado federal Aécio Neves. A expectativa é de que ele trabalhe para a revitalização da legenda na cidade, embora o projeto do ex-vereador seja voltar à Câmara Municipal, segundo confidencia um interlocutor tucano.

Já o presidente Eduardo Schroeder é próximo de Marcus Pestana, que ocupa alto cargo no Senado Federal, e no PSDB daqui ele continua influente, conforme informação de bastidores.

Informa também um militante partidário que o vereador Nílton Militão (PSD) deve migrar pro ninho tucano na janela partidária, em março de 2024, para ser candidato à reeleição.

O PSDB e o Cidadania (ex-PPS) desde 2022 são uma federação partidária, que deverá lançar candidatos na eleição municipal do próximo ano.

Quem continua filiado ao Cidadania é o ex-presidente da Câmara Rodrigo Mattos, não reeleito em 2020. Mas pode querer reconquistar o mandato de vereador em 2024, quando haverá 23 cadeiras a disputar.

Uma história interessante, que exatamente hoje faz 90 anos. Dia 20 de julho de 1933, em tempo recorde, não mais que 120 minutos, Antônio Carlos fundava em Juiz de Fora o primeiro Partido Progressista do país, cujo diretório municipal ele, de imediato, assumiu. O objetivo era, a partir daqui, mostrar força e prestígio junto ao governo Vargas, que não revelava grande interesse em dar atenções ao líder mineiro. Outro detalhe é que o diretório reunia algumas das maiores figuras da cidade, como João Nogueira Penido, Luiz Pena, Pedro Marques de Almeida, Casimiro de Andrade Filho, Rafael Cirigliano, Thedorico Álvares de Assis, Antônio José Sobreira e Vicente Adão Botti. Todos foram comunicados, convidados e aderiram, no lapso de tempo em que Antônio Carlos jantava, em sua casa, na rua do Espírito Santo...

terça-feira, 18 de julho de 2023

 

Reeleição, erro que sobrevive



((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Mais que uma intenção, na verdade foi promessa da mesa do Senado Federal que, tão logo passasse a eleição, as atenções seriam voltadas para o projeto que extingue o instituto da reeleição, tanto para presidente da República, como para governador e prefeito. Decorridos nove meses, não se conhece qualquer providência para a discussão da matéria, que tenta se viabilizar pela via de PEC de autoria do senador Jorge Kajuru, a quem sobram razões para se aborrecer, pois recebeu garantia de que a tramitação não tardaria. Outras preocupações não faltaram para ocupar o tempo pretendido.

Há um considerável grupo de parlamentares, alguns deles inspirados no senador Rodrigo Pacheco, também simpático ao projeto, já admitindo que a reeleição de ocupantes de cargos executivos tem concorrido para abastecer de vícios a política brasileira. Iniciada com a recondução de Fernando Henrique para a Presidência, ela já viveu tempo necessário para deixar bem claro que se trata de experiência digna de ser premiada com a aposentadoria. Superado e desmentido, o primeiro e talvez o mais sólido argumento ficou na intenção de conferir ao executivo prazo para realizar o que não consegue em exíguos quatro anos de um único mandato. Para contestar: todos os reeleitos, sem exceção, andaram pior nos ombros da segunda gestão.

Agora, talvez para encolher e esfriar esperanças de inauguração dos debates e posterior encaminhamento do projeto de emenda, o presidente Lula, espelhando-se em igual pretensão do americano Joe Biden, afirma que, sendo estimulado, poderia tentar mais quatro anos no poder, sem se incomodar com natural desânimo dos 81 anos que terá vivido. Isto certamente ajuda a cercar o tema de desinteresse, mesmo se sabendo que, votado agora, o fim da reeleição não teria como sacrificar eventual projeto do atual presidente, porque só poderia viger em 2030, sem atingir Lula. Não poderia ser de outra forma, porque é impossível alterar a regra, quando o jogo está sendo jogado.

Com as garantias de não afetar eventuais planos do atual presidente, nada impede, portanto, que a discussão prospere, porque o justificado desejo é que a política brasileira não tenha de experimentar seguidas frustrações. Que os futuros presidentes, governadores e prefeitos se satisfaçam com mandato de cinco anos. Se fracassarem, a culpa será da incapacidade, não do tempo de que dispõem para realizar o que o eleitorado lhes confiou.

Impeachment vulgarizado

Herança que vem dos dois últimos períodos presidenciais, os pedidos de impeachment estão colecionados e esquecidos nas gavetas da mesa da Câmara dos Deputados. Parece que mais de 100, agora com a promessa de deputados da oposição de ampliar a coleção, tendo como alvo o ministro Luís Barroso, do Supremo Tribunal Federal. Há que se temer pela vulgarização desse rigoroso instrumento de condenação dos agentes públicos, porque, se proliferado, acaba perdendo o valor; ou, ocasionalmente lembrado, apenas a serviço do presidente Artur Lira, desengavetando-o, quando quiser, para ameaçar.

Especificamente no caso do ministro Barroso, propor o impeachment é mais que desnecessário, porque, ao dizer que ajudou a derrotar o bolsonarismo, ele apenas afirmou, para uma plateia de aplausos e apupos, o que sobejamente se sabe de sua conduta e da maioria de seus pares, em uma corte que assumiu vários encargos políticos, na maioria das vezes posicionando-se contra o ex-presidente. Não surpreendeu, e não há quem possa ignorar a realidade incontestável. O ministro não anunciou novidade, embora, a partir de hoje, depois de ser explícito em comício público, torna-se, automaticamente, voto suspeito em eventuais causas em que Bolsonaro e seu governo sejam parte interessada.

Não convém passar de repreenda a pretendida admoestação. Porque, no presente momento, torna-se  dispensável a gravidade de um ato cirúrgico. A inconveniência da fala do ministro, além de se limitar a uma antipatia conhecida por todos, pode ter resposta em fórmulas medicamentosas mais brandas.

Já tivemos dois presidentes apeados do poder por força de impeachment, com evidente influência de interesses políticos. Viu-se depois, além daquela influência, que havia outros caminhos para a cobrança de seus atos, que não a cassação do cargo. Portanto, trata-se de ato extremo, que só faz sentido aplicar-se em caso de absoluta gravidade. E, quando tratar-se de governante sob suspeita de incorreções, mais ainda impõe-se o cuidado, porque, quando impedido e afastado, quaisquer que hajam sido os motivos, o país cai na desordem administrativa e política, como também sofre inevitáveis desgastes nas relações externas.

A corda bem esticada

O recesso parlamentar veio a calhar. Deu ao presidente Lula algum tempo para respirar, afogado sob as crescentes exigências de um Centrão, como sempre ávido a assumir novos gabinetes e cadeiras na Esplanada. Já com várias concessões, justificadas pela necessidade de se construir maioria nas votações do Congresso, o governo parece sentir que as investidas atingiram agora algumas áreas essenciais e podem prejudicar seus planos. E em relação a essas não tem como abrir mão do comando. Por exemplo, o rigoroso controle dos recursos humanos e financeiros do ministério da Saúde e da coordenação dos programas sociais. Áreas preferenciais, que o presidente esforça-se para poupá-las de incursões políticas. Pelo menos é o que ele promete publicamente, neste momento em que pode falar grosso em uma Brasília carente de deputados; e o Centrão descansando pelos estados afora...

Dentro de poucos dias, quando se reacenderem as postulações, retoma-se o jogo de forças, cujo desfecho fica na dependência do elenco de matérias a serem submetidas ao crivo dos parlamentares. Estes, por sua vez, sabendo que as eleições aproximam-se, já não decidem, não recusam nem apoiam sem que as expectativas estejam fincadas na eleição de 2024. Muitos deles vão disputar grandes prefeituras, sonho que custa fábula de dinheiro, cargos de apoio e prestígio. É o desafio que sobe a rampa do palácio.

O governo Lula já deu bastante ao Centrão; o que é verdadeiro. Recebeu votos suficientes para superar dificuldades no encaminhamento de matérias essenciais; o que também é verdade. A questão é que, até agora, as negociações processaram-se no varejo. Para cada votação, emendas parlamentares generosas. Fossem os entendimentos acertados no atacado, como se faz em balcões bem sucedidos, talvez as pressões pudessem ser melhor administradas. Sem que se perca de vista o que se diz com frequência: esse não é governo de um partido, mas fruto de aliança. É preciso que todos sejam ouvidos e atendidos, como adverte o ministro Flávio Dino, que não se assusta e admite as pressões.

Nos primeiros dias de agosto, quando subir a escala de exigências, não se sabe se o presidente manterá a disposição de resistir, limitando os espaços de pouso para os deputados e senadores postulantes. Para não serem acusados de alimentar debates conflituosos, talvez eles abram mão de alguma coisa, como o comanda da Caixa e dos Correios, contentando-se com a Fundação Nacional da Saúde, onde militam 2.500 servidores em funções estratégicas nas temporadas pré-eleitorais.

A previsão é que a corda dos interesses fique espichadas como nunca. Numa ponta, o Centrão apetitoso; na outra, o presidente, que precisa dosar a acolhida das gentilezas.

quinta-feira, 13 de julho de 2023

 


Eleição 2024 em pauta (XXVIII)



1- Leitor desta coluna sugere inserir na lista dos pré-candidatos à prefeitura o vereador José Márcio Guedes (PV), Garotinho, presidente da Câmara. Até o momento seu nome não tinha sido ventilado. Mesmo que Zé Márcio confirme a pretensão, não seria este o momento adequado para anunciar tal projeto, pois tem mandato na presidência da Câmara até 31 de dezembro de 2024. E, até agora, só cumpriu um semestre no cargo. A eventual revelação dessa possibilidade só traria transtornos ao presidente.


Entretanto, alguns observadores, consultados pela coluna, acham que o vereador poderia ser um candidato de centro para prefeitura. Com a desistência do empresário Wilson Rezato, o caminho estaria livre nesse espectro político. Por ser engenheiro civil, funcionário público municipal de carreira, vereador por três mandatos, tem atributos que lhe conferem currículo suficiente para pleitear o cargo de prefeito.


Caso venha a ser candidato, precisaria deixar seu partido, pois o PV faz parte de uma federação partidária com PC do B e PT, desde 2022. Como a prefeita Margarida pretende tentar a reeleição, fica inviabilizada outra candidatura nessa aliança, pois é aliança para ser mantida até 2026, como prevê a legislação eleitoral.


2 - O ex-prefeito Alberto Bejani passou a afirmar que não tem planos de disputar sua volta ao cargo em 2024. Repetiu isso durante visita que fez à Câmara, na semana passada. O que inclui a disposição de não participar da campanha de outros candidatos.


3 – Setores de direita vão dando o tom da campanha contra o PT, que terão de enfrentar na eleição do próximo ano. Fizeram com que a Câmara dos Deputados soubesse que a prefeitura investiu quase R$ 1 milhão na compra de arroz do MST. E vão além: os mesmos opositores querem saber em que estágio encontra-se o projeto de financiamento para obras de águas pluviais.


4 – A deputada Ione Barbosa dirigiu mensagem a seus eleitores, para explicar o que a levou a votar contra a reforma tributária, na semana passada. Ela definiu o projeto da reforma como “apressado e obscuro”. O que ficou bem claro, disse, é a intenção do PT de se perpetuar no poder.


5 – No programa em que reúne o depoimento dos ex-prefeitos, no próximo domingo a Câmara vai gravar com Custódio Matos, com quem o PSDB teve suas duas únicas passagens pela prefeitura.


6 – Sempre considerado um competente coordenador de campanhas eleitorais na cidade, Vítor Valverde estará ausente na próxima. Nesta semana, transferiu-se para S. Paulo, onde passa a se dedicar à iniciativa privada.


7 – Ex-deputado Antônio Jorge, muitas vezes lembrado como nome para disputar a vice-prefeitura, dizia, sábado, durante almoço no Bar do Futrica, que está fora de cogitação disputar na próxima ou qualquer outra eleição. Sua disposição vai se limitar a eventual ajuda a um amigo que concorrer.


8 - Dirigentes estaduais do Novo, que estiveram em Juiz de Fora, no fim de semana, insistiam em que é improcedente a notícia de que o governador Romeu Zema estaria se preparando para deixar o partido e ingressar no PL. Mas a especulação vai se intensificando.


9 - Um bom tema para enriquecer a próxima campanha e ensejar compromissos dos candidatos: a reforma tributária, que acaba de ser aprovada pela Câmara dos Deputados, dá aos prefeitos o direito de fixar níveis do IPTU pela via de decreto. Sem serem incomodados pelos vereadores.




As campanhas eleitorais, muitas vezes, inspiram o cancioneiro popular, principalmente quando a intenção é debochar. No comício de Júlio Campos, em Estrela do Oriente, no Mato Grosso, o violeiro esqueceu que era contratado pelo PMDB, e disparou, no palanque:


Eu agaranto a voismicê / como coisa danada / que cabocro não deve fazê / comprá terra enrolada / casá com muié falada/ morrê de morte matada/ e votá no PMDB”.



terça-feira, 11 de julho de 2023

 


Desafios do segundo semestre



((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

O segundo semestre tem tudo para garantir intensas atividades políticas, sem que falte a previsão de serem muitas delas desafiadoras, tanto para o governo como para a oposição. De forma alguma insinua ser período de grandes descansos, muito menos de ociosidade, a começa pelo fato de que, a partir de então, qualquer coisa que se fizer, no campo político-partidário, já exigirá olhares voltados para a campanha eleitoral que virá em 24. Dispensável lembrar que, com razoável antecedência, os atos dos governantes, sejam presidente, governadores e prefeitos, condicionam-se aos projetos de conquista do eleitorado futuro. Por exemplo, para citar caso imediato, diante dessa prioridade discute-se a ocupação de cargos do segundo e terceiro escalões, e por eles centenas engalfinham-se com entusiasmo. No âmbito federal anda pela casa dos 300 os cargos prontos para o acerto com quem tem os votos no Congresso; antes mesmo de chegarem as urnas, porque o peso de hoje já pode ser aferido para as convenções partidárias.

1 - São também de cobranças os próximos meses. O primeiro semestre do presidente Lula permitiu-se embalar expectativas, e é chegada a hora de resultados esperados para logo, como as responsabilidades no campo ambiental, que nos colocam sob holofotes de todo o mundo. Pois estão aí razões para perturbar o sono do governo, sem que tenhamos conseguido honrar a prometida e não alcançada estagnação das derrubadas e dos incêndios nas florestas, que, além de não interrompidos, escapam do Amazonas e avançam sobre o Mato Grosso. Acenos bem generosos foram feitos às populações indígenas, que chegaram a ganhar um ministério, mas vêm delas queixas sobre as explorações que praticam algumas ONGs estrangeiras. Questão delicada para o Planalto, que tem preferido ser simpático a ambas.

2 - No rastro das cobranças há um credor renitente, o Centrão, de fatura à mão, que sabe a força parlamentar que tem, decisiva nas votações, como ficou demonstrado recentemente na reforma tributária. Já se disse, sem contestação, que ele assumiu para si um papel suprapartidário, com capacidade para aprovar, derrotar ou obstruir, exercendo poder que as legendas tradicionais, isoladamente, não lograriam conseguir. Eficiente na prestação, não é menos ágil na cobrança de reciprocidades. Decorre disso uma dupla preocupação para o presidente, porque, além de prestigiar e contemplar novos e antigos apoiadores, incluídos agora bolsonaristas remidos, Lula ainda tem o trabalho de confortar companheiros radicais, teimosos em não aceitar que a vitória eleitoral de novembro não foi só deles, mas de uma ampla aliança. Têm de se convencer agora do que não se convenceram no primeiro semestre: o poder é do Centrão.

3 – Mas as relações com o Centrão, sempre pragmáticas, têm outra implicação, com tudo para se agravar nos meses que antecedem as eleições. Decorre que, por mais acessível e prestativo que seja o governo na hora de serem votadas matérias de seu interesse, chega o momento que as concessões balançam demais o erário. Como ficar comprando e pagando indefinidamente? Não há país que aguente esse escalpelo. Viu-se na semana passada, para azeitar a tramitação da reforma tributária: de um só lance, R$ 2,1 bilhões para emendas parlamentares, mas já com a futura cobrança de mais R$ 10 bi. O mal foi a criação desse custoso modelo de negociação, num balcão em que também fica exposta a cabeça de ministros mais vulneráveis. Rápido no gatilho, pede mais duas cadeiras no primeiro escalão, e vai ao segundo, para anunciar que também quer Correios e Embratur, numa agressão frontal ao PT, que para ali estendeu seus domínios. Parece inevitável que no semestre de grandes desafios para o presidente um deles é encontrar a forma de estabelecer dietas para controlar o apetite dos parlamentares.

4 Arrastado, semanas a fio, já não há mais como preterir solução para o embate que o governo trava com a presidência do Banco Central, escudado em sua autonomia, mas acusado por manter taxas de juros num patamar impraticável, inibindo e comprometendo o desenvolvimento e as bases da política econômica. No impasse que se criou na relação com o gabinete de Campos Neto, se o objetivo é removê-lo, é prudente considerar as implicações. Não é algo que se esgota na canetada. Políticos responsáveis, quando criticam a rigidez dos juros salgados como forma de segurar a inflação, lembram ao Palácio do Planalto, em nome da contrapartida, que se contém o processo inflacionário também com o controle e o equilíbrio das contas do próprio governo. O que quer dizer: o Banco Central pode pecar numa postura inflexível, mas a gastança dos palácios tem sua parte na culpa do descontrole que se teme. Quantas semanas o país ainda terá de consumir essa discussão?

5 - Para rechear o novo semestre, não há quem negue o imperativo de linhas melhor definidas em relação à política externa. Nesta, é claro, o presidente Lula terá de ser mais cuidadoso com os pronunciamentos, nem sempre adequados quando ecoam mundo afora, já conhecidos certos tropeços que não fizeram bem à nossa diplomacia. Foi o que se deu em sua breve incursão na complexidade da guerra da Ucrânia e na inoportunidade das honras prestadas ao venezuelano Maduro, ditador que o mundo detesta.

Há quem sugira não levá-lo a sério, porque fala para o agrado de uma plateia cativa, que raramente se espanta com suas inconfidências. Mas há declarações que, mesmo cercadas de ressalvas e tentativas de serem espirituosas, podem espantar. Como também aconteceu ao se confessar orgulhoso por ser considerado comunista, a despeito de nenhuma vocação distributivista em relação aos bens pessoais. Só ingênuos e oposicionistas maldosos levam a sério a bravata, querendo saber quando Lula pensa inaugurar a estátua de Karl Marx na Praça dos Três Poderes?…

6 – Estando em pauta várias questões, algumas delas inevitáveis no correr dos próximos meses, vale acrescentar a previsão de que o presidente terá pela frente remover preocupações dos governadores nordestinos sobre o artigo 151 da reforma tributária. Criou-se um órgão para regular e julgar a distribuição dos recursos arrecadados, ante o evidente poder de pressão dos sulistas. Como convencê-los de que não se atenta contra a autonomia dos estados e nem manda para o espaço nosso já periclitante federalismo?. Tarefa difícil para qualquer eloquência.

7 – Tem mais. Consta que o vice Geraldo Alkmin manifestou simpatia aos empresários que pretendem entrar vigorosamente na exploração de jogos de azar e dos cassinos, ideia que há mais de três décadas escorrega nos gabinetes do Congresso. Não consegue prosperar por causa das resistências religiosas. Cabe lembrar que, além de óbices no campo legal, a proposta reacende protestos e excita a bancada evangélica, que nem aceita conversar sobre o assunto. Para quem sempre tem maiorias apertadas nas casas legislativas pode ser mais um problema a enfrentar.

quarta-feira, 5 de julho de 2023

 


Eleição 2024 em pauta ( XXVII )

1 - Nos bastidores surgem listas de prováveis candidatos à prefeitura. Afinal, daqui a um ano a campanha já estará em andamento, com a realização das convenções partidárias, que definirão coligações, candidatos a prefeito e a vereador. Na eleição de 2024 já terá para a Câmara Municipal a disputa por 23 vagas, não mais apenas as 19 de hoje.

Quanto à prefeitura, pelo menos cinco nomes são ventilados como pré-candidatos: Margarida (PT), tentando a reeleição, deputada federal Ione Barbosa (Avante), o ex-deputado federal Charles Evangelista (PP), ex-deputado estadual Isauro Calais (PSC) e o ex-reitor da UFJF Henrique Duque (sem partido).

A lista tende a crescer, pois especula-se sobre uma candidatura do Partido Novo. E, geralmente, os partidos mais de esquerda lançam candidaturas próprias, por motivos estratégicos das siglas. Há também um candidato apoiado pelo ex-prefeito Tarcísio Delgado, que pode ser o atual vereador Maurício Delgado (União), seu sobrinho.

Habituais analistas da política local, conjeturando sobre nomes lembrados como candidatos a prefeito, apostam que a prefeita Margarida ainda não teria adversário para dificultar sua reeleição, devido à fragmentação das candidaturas mais à direita.

Outros observadores consideram a candidatura dos ex-deputados como pré-campanha para as eleições de 2026, quando se elegerão os parlamentares. Os que estão sem mandato podem mudar de partido, buscando situações mais favoráveis aos seus projetos. Por exemplo, o ex-deputado Charles Evangelista estaria articulando para se filiar ao partido Republicanos.

O calendário da Justiça Eleitoral vai delineando o ritmo das articulações de candidatos e partidos que almejam entrar na disputa.

2 - O jornal eletrônico Poder 360 informa um levantamento (agregador de pesquisas) de junho, com previsões eleitorais mais recentes, mostrando que nove prefeitos, de 21 capitais, largam na frente na corrida para conseguir a reeleição.

São eles: 1- Edmilson Rodrigues (PSOL, Belém (PA); 2 - Topázio (PSD), Florianópolis (SC); 3- JHC (PL), Maceió (AL); 4 - David Almeida (Avante), Manaus (AM); 5 - Sebastião Melo (MDB), Porto Alegre (RS); 6- João Campos (PSB), Recife (PE); 7- Eduardo Paes (PSD), Rio de Janeiro (RJ); 8 - Bruno Reis (União), Salvador (BA); 9 - Eduardo Braide (PSD), São Luís (MA).

Na região Sudeste são os seguintes: em S. Paulo, o deputado federal Guilherme Boulos (Psol) lidera, e o atual prefeito, Ricardo Nunes (MDB), aparece em 2º lugar. No Rio, o atual prefeito, Eduardo Paes, é favorito para se reeleger; em Belo Horizonte, quem lidera as enquetes é o senador Carlos Viana (Podemos).

3 – No domingo, a TV Câmara ouviu do ex-prefeito Tarcísio Delgado, no programa JF Entrevista, que a disposição sua e de seu grupo político é participar da campanha eleitoral de 2024; disputar a prefeitura e ganhar. Garante que não falta ânimo para isso. Ele era indagado por um dos entrevistadores sobre a herança política que pretende deixar para a cidade, depois de ter sido o prefeito que por mais tempo ( 14 anos) a governou. A herança, portanto, seria administrá-la de novo, e, para tanto, ele e os colaboradores já conversam sobre os grandes desafios enfrentados pela população. Diz Tarcísio que há dois problemas que chocam a Juiz de Fora de hoje: a mendicância desenfreada nas ruas e o caos no serviço de transporte e trânsito.

Não se fala, por hora, em partido político para sustentar essa campanha, mas ele entende que a administração pública não pode ser refém de um único partido.

4 – Está marcado para amanhã, em Juiz de Fora o primeiro esforço do Novo (partido do governador) para se consolidar na região, preparando-se para a eleição municipal com um encontro mesorregional, que vai de 18 h às 20h30 min no Trade Hotel. Zema confirmou a presença, e deve dizer que a eleição dos prefeitos é peça importante para fortalecer a posição de Minas na sucessão presidencial, dois anos depois.

Os organizadores informam que a reunião é aberta a todos os interessados. Não apenas aos filiados.

5 - A senadora Damares garante que a caminhada do Brasil rumo ao comunismo só será interrompida se for possível, em 2024, eleger o maior número de vereadores e prefeitos conservadores. Ela não tem dúvida de que, para esse projeto, será fundamental o papel do ex-presidente Bolsonaro.

Figura presente na cidade, neste fim de semana, o governador Romeu Zema é, entre todos, o mais frequentemente citado como candidato a vice-presidente em 2026. Nisso, segue uma tradição, pois, em toda eleição um mineiro, se não é lembrado para encabeçar a chapa, figura como vice em potencial. E, em determinada conjuntura tem tudo para ser decisivo. Vale lembrar um exemplo dos mais recentes: em 1989, Itamar Franco e Hélio Garcia gostariam de ser o vice de Leonel Brizola, mas ele acabou preferindo Fernando Lyra. Pois bem, houvesse acolhido um nome de Minas, Brizola certamente se elegeria, pois Lula ficou com 16,08% dos votos e Brizola com 15,45%. Os mineiros, com toda certeza, cobririam uma diferença de cerca de 500 mil votos, tratando-se de um vice de Minas.

terça-feira, 4 de julho de 2023

 


A falta que o inimigo faz



((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" )) 


A vivência política, muitas vezes citada por seus mais experientes atores, ensina que nem sempre o que é ruim para alguém passa a ser automaticamente bom para o inimigo. Nessa mesma linha, outros lembram velho militante mineiro, Pinheiro Chagas, para quem, em se tratando de políticos, quando dois brigam, ambos perdem, tal como insinua o cenário atual, com Bolsonaro inelegível, baleado no projeto de disputar a volta à Presidência em 2026, o que não significa, necessariamente, que isso seja de bom alvitre para seu principal adversário, o presidente Lula, que perde, como consequência da recente condenação votada pelo TSE, o mote (talvez até a motivação) para insistir num discurso que debita ao antecessor a culpa pelas principais mazelas do país.

Bem pensado, por mais esdrúxulo que possa parecer, os bons amigos do Supremo Tribunal praticariam obséquio se reformassem a condenação, nos próximos meses, quando os ânimos estiverem serenados…

Com a inelegibilidade, aparentemente o divisor entre as duas lideranças, o Partido dos Trabalhadores e seus aliados não escapam de atentar para o destino da direita e eventuais nomes surgidos a ocupar um terreno que as urnas já revelaram fértil; prontos para assumir a bandeira que escapa das mãos de Bolsonaro, mas não escapa totalmente dele. Desafio novo para Lula, porque tão logo um provável concorrente passe a fazer parte do cenário, ele e os petistas que o aconselham terão de rever aspectos pontuais das condutas adotadas. E se vier - quem sabe ? - um direitista respeitado, tolerante, não radical, conciliador, disposto a aparar arestas, ressentimentos e divergências odiosas na sociedade, na política e nas religiões. Um perfil desafiador para a esquerda, que em momento crucial pode estar abalada nos naturais desgastes do governo; tão maiores quantas forem as frustrações. Se nunca houve presidente capaz de escapar de desgastes, Lula tem de se preparar para o inevitável, por mais poderosas que sejam as bênçãos do amigo Francisco.

Tais observações, claro, não vão além das quatro linhas da especulação. Contudo, não há negar que em qualquer contenda, quando se afasta um dos contendores, ao que permanece cabe reavaliar as armas, de acordo com o jeito de ser de quem está para entrar em campo.

Nesse sentido, o primeiro ponto a considerar está na atitude de Lula, cada vez mais insistente em assumir o discurso de uma esquerda vigorosa, o que ele tem todo direito de fazer, mas sem descuidar de que os companheiros latinos têm deixando por conta dele inevitáveis desgastes nas relações com europeus e norte-americanos. Muitos concordam, e dizem que o embaixador Amorim é que pode sensibilizá-lo para o comedimento.

( Nos avanços que o presidente vem praticando ao discursar, ouve-se agora defender que a democracia é relativa. É preciso que alguém lhe diga uma verdade que a História não cansa de confirmar: o sinônimo de democracia relativa é a ditadura absoluta).

No rastro do Foro

O Foro de São Paulo reativou, na semana passada, os ideais que constituiu há duas décadas, proclamando que, sem trilhar os caminhos da esquerda, os povos latino-americanos não conseguirão vencer a história de suas longas pobrezas. Desta vez, o congresso procurou acentuar a estimulante advertência do novo governo de Brasília: os sonhos socializantes estão na dependência de uma sólida unidade continental, o que se torna bem claro no apelo a projetos sociais comuns e no decisivo intercâmbio de colaboração no campo das finanças, tipo de solidariedade que no Brasil tem antecedentes, e de novo demonstrado agora, quando se procura tirar a Argentina de graves aperturas, pouco incomodando passadas inadimplências.

Isto posto, sobrevêm expectativas de reações políticas da parte dos Estados Unidos, que até agora não se incomodavam muito com articulações esquerdistas latino-americanas. Pode ser que despertem maiores atenções, com base em dois dados para justificar. O primeiro é que o Brasil, natural referência para uma dezena de países da região, está de novo sob governo e partidos de esquerda. Até então, não sentiam exercícios ideológicos contrários, em dimensões tais que pudessem conspirar contra interesses capitalistas. O papel brasileiro nesse contexto seria a razão principal de nova e mais aguda interpretação. É o primeiro dado.

O segundo fato resultante do Foro, com tudo para preocupar o Departamento de Estado, é que o Brasil, estimulando governos latinos, todos mais pobres e carregados de problemas, abriria espaços para a influência da China no continente, considerando-se que nesse sentido algumas simpatias já se revelaram.

A ponte chinesa. Eis a questão, que os norte-americanos sentem como problema a enfrentar, mais real e desafiador que os exercícios ideológicos de uma esquerda, que muitas vezes se confunde em elucubrações. Agora é aguardar o que vão dizer os relatórios de observadores encarregados de avaliar o Foro. Em estudos.

Números que advertem

Costuma-se restringir a importância dos censos, o que é grave equívoco, quando se sabe das repercussões e consequências negativas para os países que preferem desdenhá-los. Não só nas camadas mais modestas da população, mas também na conduta de governos e lideranças de produtores. Para muitos, os números populacionais ficam limitados às curiosidades, quando, na verdade, se revelam o que somos e onde estamos, muito mais que isso, mostram o que é preciso realizar para melhorar as condições de vida. Agora, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística expõe os mapas fechados em agosto passado, e, mais uma vez, com indicadores de velhas iniciativas sempre adiadas.

Lançar os olhos para a frente e para o futuro já preocupava o imperador Yao, em 2238 a.C, ao promover o primeiro censo da História, desejoso de saber não apenas quantos eram aos chineses, mas o que podia cobrar deles. Não menor seria a preocupação do Congresso Internacional de Estatística, na Bélgica, em 1853, interessado em analisar a realidade agrícola, num mundo cada vez mais faminto. Fomos nos preocupar com isso só em 1920, com a primeira estatística agropecuária.

Sobre dados revelados na semana passada, há duas informações do IBGE que sugerem especiais atenções, com endereço certo para os cuidados dos governantes: a redução do crescimento populacional entre os brasileiros que vão chegando aos 30 anos, e, em contraste, o aumento dos que avançam além dos 60 ou 70. É a luz amarela para governos e estudiosos dos diagramas sociais, pois na medida em que estão encolhendo as potencialidades da iniciativa produtiva jovem, a população idosa dilata-se. E esta, se incapacitada para a atividade laboral, sempre exige maiores e caros cuidados assistenciais. O desafio está em que as políticas públicas e as iniciativas privadas precisam ampliar atenções para os segmentos etários colocados nos extremos. Claro, o que se tem de fazer não é algo para se alcançar de imediato, mas é para preocupar desde logo.

Os legisladores e executivos têm nesse quadro elementos e substância para refletir e propor ações concretas. Como também debruçar sobre outro dado real, cuja revelação não causou surpresa. Quase metade dos 5.570 municípios têm menos de 10.000 habitantes, em sua maioria com índices populacionais em queda, para revelar um país que não está conseguindo conter o êxodo migratório e inchando as metrópoles.

O censo não deixa o Brasil descansar. É preciso pensar e aproveitá-lo para que comecemos a fazer o que tem de ser feito.