terça-feira, 18 de janeiro de 2022

 


Wilson Cid
Seg, 17/01/2022 12:47

Cem anos de Brizola



(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil ") 



O dia 22, sábado, marca o centenário de nascimento de Leonel Itagiba de Moura Brizola, um dos homens que mais influíram na vida política nacional, no século passado. Poucos, entre os contemporâneos, poderiam se gabar de uma existência tão intensa, que começou nas suas terras gaúchas, em tempos humildes de engraxate e carregador de malas. Atrelado a uma natural inclinação para o carisma, elegeu-se deputado estadual, em seguida deputado federal, prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande e, duas vezes, do Rio de Janeiro. Carreira longa, que só começaria a ser atropelada quando foi vice em mal sucedida chapa de Lula. Mas sempre sonhando, como objetivo final, com a Presidência da República, em 1965, meta que, contudo, fugiu caprichosamente de seu destino, na conjunção de fatores diversos. Houvesse chegado lá, gostaria de criar um socialismo latino, extrovertido, sem a brancura dos socialistas europeus, mas com a morenice de um Agnaldo Timóteo ou Mário Juruna, que se elegeram à sombra dele.

Essa ideia do socialismo peculiar era, para muitos, resultante mais de um nacionalismo renitente, do que propriamente por convicções de natureza ideológica. De fato, havia adotado, desde os tempos gaúchos, a convicção de que os grandes males, se não todos, começavam pela influência do capital estrangeiro e evasão das riquezas; e, por isso, combateu duramente as empresas americanas de energia e telecomunicação, sendo que, no Rio Grande, recorreu à desapropriação. Desejava vê-las, todas, encampadas, embora nesse campo obtivesse resultado modesto. Um de seus críticos, Roberto Campos, atribuía ao comportamento brizolista a principal dificuldade que teve de enfrentar como embaixador em Washington.

Ao morrer, em junho 2004, derrotado por edema pulmonar seguido de infarto, ficou devendo maiores reflexões, de conteúdo teórico, sobre como pretendia atingir aquelas transformações com que passou a vida sonhando; como transformar as utopias em realidade. Nem colaboradores próximos, como Darcy Ribeiro, avançaram muito em detalhes sobre o que Brizola imaginou para vencer o poder das poderosas estruturas instaladas; e, derrubando-as, como implantar reformas dos mais diferentes espectros. Hoje, é consensual que foi sua pregação, juntamente com o sindicalismo radical que vigorava, um dos obstáculos para os moderados, que propunham mudanças paulatinas, metodicamente, capazes de não assustar demais os conservadores. Observa-se que nas suas caminhadas tanto tentaram combatê-lo os radicais de direita como os contemporizadores da esquerda. Os extremos igualavam-se para mirar num alvo comum.

...

A biografia de Brizola, já traçada e algumas vezes publicada, não impede que seu centenário recomende novos estudos sobre o papel que desempenhou na política, onde não escondia o temperamento populista, muitas vezes agressivo; temperamento que, certamente, não cuidou de se cercar de discrição e cuidados, quando as tensões recomendavam prudência. No célebre comício da Praça da Estação, em 13 de março de 64, espetáculo centrado em João Goulart, seu cunhado, sendo antevéspera do golpe que já esquentava os quartéis, não deixaria por menos, defendendo  o imediato fechamento do Congresso e sua substituição por uma Constituinte, formada apenas por operários, lavradores e sargentos. Nada mais provocador para o sistema, hostilizando-o mais ainda ao aguçar a resistência armada, com o Grupo dos 11, que não fez a ditadura tremer, mas ajudou a estimular a violenta repressão.

Assim, pode-se dizer que passou a vida desafiando, para só se tornar mais comedido, no final de um exílio de quase 15 anos, grato ao presidente Jimmy Carter, que colaborou para que não se tornasse alvo dos “condores”, comandos direitistas de extermínio que grassavam por toda a América Latina. Hoje, passado o tempo e rendidos os temores, talvez fosse conveniente saber melhor se ele, de fato, andou cogitado para entrar na lista das mortes misteriosas de políticos da oposição, ocorridas no curto espaço de oito meses em 1977, todas com investigações inconclusas. Uma dose de comedimento talvez se possa extrair, em sua memória, das linhas da Carta de Lisboa, dois anos depois. Um documento nele inspirado, vazado em alguma sobriedade, ao pedir a redemocratização do país.

Há, contudo, outros aspectos importantes dessa vida agitada, que ainda reclamam análises mais profundas. Por exemplo, a real experiência de Brizola e sua contribuição na história do Partido Trabalhista Brasileiro em seu modelo original, chamado personalista ou caudilhesco. Foi uma das três expressões da legenda, juntamente com Getúlio e João Goulart. Depois, o PTB derivou para outro campo, sob influência ideológica, com Alberto Pascoalini e Fernando Ferrari. Hoje, das antigas cinzas, o partido se compraz com a marca do fisiologismo. Até que ponto Brizola teria acreditado na capacidade daquele partido ou o sucedâneo PDT para dar sustentação ao seu socialismo colorido e democrático?, se é que realmente, no íntimo, admitisse a possibilidade de alcançá-lo. Não deixou isso bem explicado.

Não cessam aí as curiosidades sobre a figura polêmica de Leonel Brizola. É o caso da extensão e das reais consequências da acidentada relação com o cunhado João Goulart; e, na convivência familiar, até que ponto teriam prosperado ou abafado a ideia de uma reação armada ao golpe de 64, quaisquer que fossem as consequências. O presidente titubeava, por fim a repudiou, sob o pretexto de evitar derramamento de sangue; mas Brizola não apenas mostrou que a desejava, como a demonstrou e a pôs em prática, organizando em Porto Alegre a Rede da Legalidade, ao mesmo tempo em que abençoou o surgimento de falanges armadas.

Inamistosos, separados algumas vezes, reconciliados depois, à crônica política ficaram os dois devendo depoimento mais esclarecedor sobre o que os separava, como também o que os aproximava, além dos ventos dos pampas. Quais os fatos que essas relações teriam gerado para a História? Persistem dados confusos ou incompletos, ou mesmo misteriosos.

Simpatizantes e adversários coincidem, contudo, em que esse homem foi suficientemente importante para que dele se saiba muito mais, além do que já sabemos.

...

Antes, houve quem dissesse que Brizola foi o mais carioca dos gaúchos, o que, até certo ponto, as urnas confirmariam, a partir de sua eleição para a Câmara dos Deputados com quase 270 mil votos, o que, à época, significava 1/4 do colégio eleitoral do Rio. Duas vezes governador do Estado, em 1982 ele agitou a vida política brasileira ao denunciar e provar que se tramava sua derrota com base num esquema de falsa computação elaborada pela Proconsult. Foi o primeiro escândalo eletrônico abortado na política do Brasil.

No curso dos mandatos, dois destaques. O primeiro, no campo administrativo, deu ao Rio a primazia de implantar o Sistema Integrado de Educação Popular, CIEP. Milhares de crianças foram estudar e comer na Sapucaí, o que, muitas vezes, não tinham em casa.

O segundo destaque foi na política, quando surpreendeu ao tentar se aproximar do último presidente da era militar, João Figueiredo, para quem desejou mandato de cinco anos, em troca de ser sucedido por eleição direta, na qual pretendia candidatar-se.

Veio o segundo mandato de governador. Elegera-se em turno único com 61% dos votos, desincompatibilizando-se em seguida para ser vice de Lula na chapa presidencial. E com ele fracassou. Depois, ficou em 6º lugar quando quis ser senador. Chegasse a Brasília, esse mandato certamente o ajudaria a ampliar sua atuação no cenário nacional, sempre com a ideia fixa na Presidência da República. Mas já caminhava no momento outonal da vida.

...

Morto há 18 anos, é impossível prever qual seria o protagonismo de Leonel Brizola na política nacional, como hoje ela se apresenta. Mas, se se considerar que não arredaria pé de suas convicções, talvez sentisse desconforto, pouco à vontade com os companheiros e camaradas de esquerda para condenar a bilionária ajuda com que os governos do PT contemplaram países do socialismo moreno dos latinos e negro dos africanos. Não teria como apoiar isso. Adversário intransigente dos ralos por onde escapam os dinheiros do povo, seria forçado a aceitar, a contragosto, o discurso de Bolsonaro e da direita, porque batem e insistem na mesma tecla.

Mas constrangimentos são coisa para quem está vivo. E Brizola já descansa.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

 

Sob olhar estrangeiro


(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

 

Altos comandos da direita, sejam eles da Europa ou encontrados nos gabinetes de Washington, ainda não deixaram transparecer interesse pela próxima eleição presidencial do Brasil. Mas é sabido o suficiente para se garantir que existe, não apenas latente, mas frequentemente exposto em conversas mais qualificadas. Claro, estão dispostos a influir, tanto quanto possível, pela via de áreas estratégicas. Coisa para tratarem nos próximos três meses.

A razão é tanto política e diplomática quanto mercantil e financeira, e resulta do fato de a América Latina ter entrado nesta década assinalando progressos sensíveis para a esquerda, ainda mais recentemente, com a vitória de Gabriel Boric na disputa presidencial do Chile. Não é permitido ignorar: o Chile é de grande relevância no contexto continental. A direita o perdeu, e sente que se tornou mais desequilibrado o jogo das forças políticas nesta região sul, com pêndulo desfavorável. O que não é pouco, suficiente para preocupar os planos antagônicos.

Aos chilenos somam-se, total ou parcialmente, argentinos, nicaraguenses, uruguaios, peruanos, equatorianos e cubanos. E, para preocupar mais os estrategistas de direita que olham para este pedaço de mundo, na Venezuela são escassos os sinais de que a oposição prospera para pôr fim ao governo Maduro.

Traçado esse mapa, resulta que o Brasil transformou-se, sob a ótica de observadores europeus e estadunidenses, numa espécie de ilha ideológica, onde à direita ainda é possível respirar, oxigenada pelo governo Bolsonaro. De forma que aqui, se a reeleição tropeça nas urnas de outubro, ocorrerá um desastre continental para o futuro dos liberais e defensores do anticomunismo.

Seria ingenuidade fazer pouco-caso da importância desse quadro e dos desdobramentos decorrentes da eleição seguinte. Conclui-se, então, que forças estrangeiras pretenderão participar dos esforços para impedir o volver à esquerda, e certamente colaborar para que Bolsonaro consiga alavancar o segundo mandato.

É cedo para se cuidar da reação contrária? O que os adversários do presidente espalhados pela América poderiam estar maquinando para contribuir na reação? Talvez queiram atuar, mas, por hora, o que deve preocupá-los é a dificuldade dos companheiros brasileiros em vencer divisões internas e construir a união em torno de um projeto capaz de apear a direita.

Um sinal, embora sutil, do interesse da Casa Branca pelo que vai acontecer aqui, é a atitude conveniente do presidente Biden, que não morre de amores pelo colega brasileiro, mas considera melhor digeri-lo. Engole seco, condescendente, porque, acima de sentimentos, chama-lhe a atenção o mapa da América já recheado de vermelho e seus entretons. Biden deve ter na lembrança o antecessor John Kennedy, que, na mesma cadeira, disse, certa feita, que é preciso acreditar que para onde tender o Brasil o continente tenderá.

No governo Bolsonaro e na continuidade dele as estratégias da direita lançaram suas amarras, quando os horizontes americanos já recomendavam cuidados especiais. É o bastante para a previsão de que não se limitarão a assistir ao processo eleitoral do Brasil. Vão querer entrar em campo.

Pobre horário nobre

Publicada a lei que reanima a propaganda dos partidos políticos, no rádio e na televisão, fora do período eleitoral, há que se permitir uma curiosidade: o que eles terão para mostrar à sociedade brasileira?, algo que não seja conversa fiada, enganação, arte de prometer o que não sabem ou não têm como realizar. Com toda certeza, tal como em anos passados, cuidarão de mostrar belas e verdes matas e paisagens para dizer que se preocupam com meio ambiente, sem que por ele nada tenham feito, objetivamente. Ou teremos de assistir ao já conhecido falatório enfadonho.

Nos países onde se pratica a liberdade política não há essa imposição às empresas de comunicação social, sejam estatais ou privadas. Diferentemente, nas ditaduras, é direito sempre assegurado ao partido único, porta-voz do governo.

Estamos, hoje, no Brasil, com 33 organizações reconhecidas como partidos, aprovados pela Justiça, onde se registraram com vagas propostas programáticas, que se perderam no vazio de palavras cansadas. E dos falsos ideais, que, por isso mesmo, são facilmente descumpridos. Sua volta à programação das emissoras, prerrogativa que havia sido cassada em 2017, toma carona em uma lei que, ruborizada, tenta justificar-se a si mesma, recomendando a obviedade, ao propor a ampliação da representação feminina na política, enaltecer novos filiados, estimular os jovens e a população negra. Sem embargo da importância dos temas exigidos, é bom cuidar para impedir que tempo precioso, em horário nobre, voz e imagem sejam consumidas com promessas fantasiosas. Ideal é que os partidos revelassem o que têm feito para a inclusão daqueles segmentos minoritários. Mas mostrar o quê? É a dúvida que persiste.


Apenas rótulo novo

Raro quem seja capaz de apostar algum valor no futuro das recém-criadas federações partidárias, encarregadas de juntar peças diferentes mal costuradas. Um monstrengo que Franckenstein não ousaria tanto, mas aceitável num país em que tudo é possível; até mesmo o consórcio de interesses confederados numa ideia de federação… Contudo, a missão que o Congresso Nacional lhe confiou é apenas maquiar maldades das velhas coligações, igualmente abjetas.

Inevitáveis dificuldades internas resultantes de projetos regionais contrariados fazem supor que esse produto de laboratório chegou condenado a ter vida efêmera. A própria lei que ousou criar a monstruosidade, estabeleceu que sua duração não pode ser inferior a quatro anos, mínimo exigível para que essas núpcias não se divorciem tão logo passem as festas eleitorais. O que não impede que os cônjuges pratiquem infidelidades, mesmo se continuarem convivendo em leito comum.

Na semana passada, o noticiário sobre a federação já dava conta de perturbações entre o PSB e os paulistas, porque sabem eles, não é de hoje, que nem todos os seus caminhos poderão se cruzar nas eleições deste ano.

Há algumas semanas registrou-se neste espaço que, depois de afetar a vida dos vereadores, e ameaçasse pesar nas costas dos deputados, as coligações seriam reinventadas, certamente com rótulo novo, mas escondendo, no fundo, sem disfarçar, o voto proporcional, que o jurista Saulo Ramos já definira como o mais fecundo dos arranjos inconfessáveis na política brasileira. Não deu outra coisa. A história se repetiu.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

 Apelo à omissão

(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" )) 


Vai prosperado a campanha eleitoral, ainda morna e com atores não suficientemente definidos, o que não impede que se anunciem movimentos propondo à população votante que neste 2022 opte pelo voto nulo, o que, no entendimento de seus articuladores, seria a forma adequada para manifestar insatisfação com a política e com os políticos. A anulação é a forma raivosa do abstencionismo, mas com resultado final idêntico, pois, por antecipação, o futuro eleito já fica condenado a enfrentar sérias dificuldades, assentado num mandato de relativa e limitada legitimidade. E, em seguida, com certeza de que acontecem outros dissabores, que não fazem distinções sociais, mas “democraticamente” são distribuídos entre toda a população. Esse jeito de protestar, pela omissão, sempre resulta em mau negócio. A gente sabe.

A advertência, em breve, pode se tornar mais robusta para nós, graças a um vizinho próximo, o Chile, que acaba de registrar o marco histórico de 53% de abstenção no pleito que deu a vitória presidencial ao jovem Gabriel Boric, a quem, também por isso, reservam-se desafios poderosos, quando tiver de construir as bases da governabilidade desejável. Em determinado momento, que não tardará, vai sentir que, em rigor, deveu seu destino a outra metade dos cidadãos, a dos indiferentes, os que preferiram ficar distantes das urnas. Pois é graças aos ausentes que se verá obrigado a dialogar e fazer concessões aos contrários, precisando de suficiente força parlamentar.

No Brasil, mesmo que a abstenção e os nulos raramente tenham se aproximado dos 30%,  setores descontentes voltam à receita da omissão, ou, havendo participação, que se anule o voto. O que dá no mesmo, porque os efeitos nefastos se assemelham na realidade política.

Se essa campanha obtiver algum êxito, o futuro presidente, seja ele quem for, logo se verá instado a buscar apoio fora dos grupos e partidos em que se apoiar. Certamente terá de correr atrás até dos segmentos que o rejeitaram. É nessa hora que o protesto raivoso do eleitor assume o papel do bumerangue, bate e volta.

O júri no tribunal

Temas polêmicos vão ganhar espaço na pauta que o Supremo Tribunal Federal elaborou para as primeiras semanas do ano que começa. Alguns até seriam dispensáveis, por falta de grandeza, porque tomarão tempo de uma corte de Justiça à qual cabe resguardar a Constituição, no essencial. Outros assuntos poderão mexer com hábitos e costumes, garantindo discussões popular, além de pareceres dos ministros. Neste caso, já em fevereiro, o plenário pretende avaliar o poder do juiz de segunda instância para determinar novo tribunal do júri, ao constatar que determinada condenação ou absolvição evidenciou contrariedade às provas dos autos.

Verdade se diga, em lugares remotos, sobretudo no agreste e nos rincões, muitas vezes os sorteados são constrangidos pela força política dos coronéis ou pressão de fazendeiros. No caso de réus em julgamento de homicídio consumado ou atentados contra a pessoa, quem é chamado a decidir se prende ou não, prefere deixar de lado as provas, mesmo se contundentes. Não se sente à vontade para contrariar interesses poderosos, principalmente quando confundido por advogados habilidosos ou juízes titubeantes. Casos vários desse tipo têm sido suficientes para levar, não poucos juristas, a defender que deve caber apenas ao magistrado togado o dever de fazer a justiça que hoje é atribuição de cidadãos comuns.

Mas ao júri também sobram defensores, o que não se pode ignorar. Consideram tratar-se de velha e experimentada instituição, remontando às primeiras inspirações da Constituição inglesa de 1215. Há, portanto, que se conceder à sociedade, representada no tribunal de cidadãos, o direito de cobrar diretamente o que se supõe que contra ela se praticou. Como também são numerosos os críticos. Millôr Fernandes, levando isso com séria ironia, definiu: “chama-se Tribunal do Júri um grupo de pessoas que, por não terem prestígio para se excluírem desse júri, assumem o poder de condenar qualquer réu”...

De volta à pauta do Supremo. Nada impede que se recorra a fórmulas de aperfeiçoamento. Se nenhum tribunal é infalível, muito menos o do júri.

Fé na eleição

Abonadas por alguns bons observadores, as avaliações sobre os rumos e conteúdos da campanha presidencial de 2022 indicam que, entre outros temas, é possível que se explorem diferenças religiosas, que nos últimos tempos vêm ganhando expressão no Brasil. Sendo assim, e se tal ocorrer, há que se reconhecer a contribuição do presidente, principalmente quando decide se inspirar nos compromissos evangélicos para indicar ministros do Supremo Tribunal Federal. Se reeleito, já disse, pretenderá indicar mais dois pastores, certamente com credenciais na ciência jurídica, para ocupar vagas a serem criadas no rastro da compulsoriedade da aposentadoria de veteranos.

Mas não se limitam ao presidente Bolsonaro as previsões quanto ao papel das convicções religiosas em questões ligadas ao poder político. Há expectativas de que algumas correntes, contrariadas pelo progresso de seitas evangélicas, também se preparem para influir, tal como se pode esperar da aliança Lula-Alckmin, se ela prosperar e disputar. O candidato do PT, como é sabido, carrega o apoio de grupos de católicos de esquerda, como o liderado pelo teólogo Leonardo Boff; e Alckmin, em outra extremidade, traz profundos vínculos com a linha conservadora da Renovação Carismática e Opus Dei. São dois segmentos de fé diferentes, mas podem se aproveitar da disputa política para tentar conter o avanço neopentecostal. Se, antes disso, não conflitarem internamente.

Não teria cabimento tentar contrariar o direito dos fiéis e seus líderes nas questões pertinentes ao poder público e à disputa eleitoral, notadamente quando se vai escolher o presidente da República. Desde que se preservem os limites, em nome de um estado sem religião.

 Apelo à omissão

(( Wilson Cid, hoje no "Jornal do Brasil"))  


Vai prosperado a campanha eleitoral, ainda morna e com atores não suficientemente definidos, o que não impede que se anunciem movimentos propondo à população votante que neste 2022 opte pelo voto nulo, o que, no entendimento de seus articuladores, seria a forma adequada para manifestar insatisfação com a política e com os políticos. A anulação é a forma raivosa do abstencionismo, mas com resultado final idêntico, pois, por antecipação, o futuro eleito já fica condenado a enfrentar sérias dificuldades, assentado num mandato de relativa e limitada legitimidade. E, em seguida, com certeza de que acontecem outros dissabores, que não fazem distinções sociais, mas “democraticamente” são distribuídos entre toda a população. Esse jeito de protestar, pela omissão, sempre resulta em mau negócio. A gente sabe.

A advertência, em breve, pode se tornar mais robusta para nós, graças a um vizinho próximo, o Chile, que acaba de registrar o marco histórico de 53% de abstenção no pleito que deu a vitória presidencial ao jovem Gabriel Boric, a quem, também por isso, reservam-se desafios poderosos, quando tiver de construir as bases da governabilidade desejável. Em determinado momento, que não tardará, vai sentir que, em rigor, deveu seu destino a outra metade dos cidadãos, a dos indiferentes, os que preferiram ficar distantes das urnas. Pois é graças aos ausentes que se verá obrigado a dialogar e fazer concessões aos contrários, precisando de suficiente força parlamentar.

No Brasil, mesmo que a abstenção e os nulos raramente tenham se aproximado dos 30%,  setores descontentes voltam à receita da omissão, ou, havendo participação, que se anule o voto. O que dá no mesmo, porque os efeitos nefastos se assemelham na realidade política.

Se essa campanha obtiver algum êxito, o futuro presidente, seja ele quem for, logo se verá instado a buscar apoio fora dos grupos e partidos em que se apoiar. Certamente terá de correr atrás até dos segmentos que o rejeitaram. É nessa hora que o protesto raivoso do eleitor assume o papel do bumerangue, bate e volta.

O júri no tribunal

Temas polêmicos vão ganhar espaço na pauta que o Supremo Tribunal Federal elaborou para as primeiras semanas do ano que começa. Alguns até seriam dispensáveis, por falta de grandeza, porque tomarão tempo de uma corte de Justiça à qual cabe resguardar a Constituição, no essencial. Outros assuntos poderão mexer com hábitos e costumes, garantindo discussões popular, além de pareceres dos ministros. Neste caso, já em fevereiro, o plenário pretende avaliar o poder do juiz de segunda instância para determinar novo tribunal do júri, ao constatar que determinada condenação ou absolvição evidenciou contrariedade às provas dos autos.

Verdade se diga, em lugares remotos, sobretudo no agreste e nos rincões, muitas vezes os sorteados são constrangidos pela força política dos coronéis ou pressão de fazendeiros. No caso de réus em julgamento de homicídio consumado ou atentados contra a pessoa, quem é chamado a decidir se prende ou não, prefere deixar de lado as provas, mesmo se contundentes. Não se sente à vontade para contrariar interesses poderosos, principalmente quando confundido por advogados habilidosos ou juízes titubeantes. Casos vários desse tipo têm sido suficientes para levar, não poucos juristas, a defender que deve caber apenas ao magistrado togado o dever de fazer a justiça que hoje é atribuição de cidadãos comuns.

Mas ao júri também sobram defensores, o que não se pode ignorar. Consideram tratar-se de velha e experimentada instituição, remontando às primeiras inspirações da Constituição inglesa de 1215. Há, portanto, que se conceder à sociedade, representada no tribunal de cidadãos, o direito de cobrar diretamente o que se supõe que contra ela se praticou. Como também são numerosos os críticos. Millôr Fernandes, levando isso com séria ironia, definiu: “chama-se Tribunal do Júri um grupo de pessoas que, por não terem prestígio para se excluírem desse júri, assumem o poder de condenar qualquer réu”...

De volta à pauta do Supremo. Nada impede que se recorra a fórmulas de aperfeiçoamento. Se nenhum tribunal é infalível, muito menos o do júri.

Fé na eleição

Abonadas por alguns bons observadores, as avaliações sobre os rumos e conteúdos da campanha presidencial de 2022 indicam que, entre outros temas, é possível que se explorem diferenças religiosas, que nos últimos tempos vêm ganhando expressão no Brasil. Sendo assim, e se tal ocorrer, há que se reconhecer a contribuição do presidente, principalmente quando decide se inspirar nos compromissos evangélicos para indicar ministros do Supremo Tribunal Federal. Se reeleito, já disse, pretenderá indicar mais dois pastores, certamente com credenciais na ciência jurídica, para ocupar vagas a serem criadas no rastro da compulsoriedade da aposentadoria de veteranos.

Mas não se limitam ao presidente Bolsonaro as previsões quanto ao papel das convicções religiosas em questões ligadas ao poder político. Há expectativas de que algumas correntes, contrariadas pelo progresso de seitas evangélicas, também se preparem para influir, tal como se pode esperar da aliança Lula-Alckmin, se ela prosperar e disputar. O candidato do PT, como é sabido, carrega o apoio de grupos de católicos de esquerda, como o liderado pelo teólogo Leonardo Boff; e Alckmin, em outra extremidade, traz profundos vínculos com a linha conservadora da Renovação Carismática e Opus Dei. São dois segmentos de fé diferentes, mas podem se aproveitar da disputa política para tentar conter o avanço neopentecostal. Se, antes disso, não conflitarem internamente.

Não teria cabimento tentar contrariar o direito dos fiéis e seus líderes nas questões pertinentes ao poder público e à disputa eleitoral, notadamente quando se vai escolher o presidente da República. Desde que se preservem os limites, em nome de um estado sem religião.