quarta-feira, 26 de agosto de 2026

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O que o eleitor devia saber 
As primeiras horas da campanha eleitoral, com candidaturas formalmente lançadas, mostram que as principais atenções se voltam para a disputa presidencial, tal como já se esperava. Nisso, ela em nada contrasta com antigas disputas; nem seria diferente, considerando-se que vivemos sob os ritos do sistema presidencialista, soberanamente vitorioso no plebiscito de 1993, quando derrotou o parlamentarismo.
Da mesma forma como se via em pleitos anteriores, os discursos de lançamento das candidaturas contemplaram a preocupação em ferir os pontos mais vulneráveis dos adversários, tentando embaraçá-los. Com a predominância de ataques pessoais, denúncias e revides, a corrida presidencial revela-se jejuna de substância, pobre de ideias. O mesmo cenário vem dos estados, ou, pelo menos, nos principais deles, porque os candidatos, se não estão agredindo e sabem identificar os problemas de seus municípios, nada dizem, objetivamente, sobre o que terão de fazer para solucioná-los. Falta mostrar o caminho das pedras. 
Ora, se a tendência é o ataque, propostas apenas superficialmente tratadas, é possível que o palanque eletrônico da TV perca grande parte do interesse. Se o candidato vai às câmeras para ofender e ser ofendido, melhor não aparecer. Os candidatos a presidente Flávio Bolsonaro e Romeu Zema condicionaram sua ida à televisão se pudessem digladiar com Lula, principal concorrente. Os três desistiram.
Salvo alguma peculiaridade do momento, em disputas recentes o que os telespectadores viram não foi coisa muito diferente. Agressões ou bravatas tomando lugar de propostas concretas; estas entendidas como aquelas que não apenas mostram as feridas, mas também criatividade para curá-las.
2 - De volta às primeiras horas da campanha, outro ponto visível nas concentrações e nas entrevistas é a velha preferência dos candidatos em abordar temas amenos às multidões, com escasso interesse em expor a real origem das dificuldades que nos fazem um país trôpego, dando cabeçadas, bêbado. Ouve-se, com insistência, a condenação dos altos juros praticados no mercado, que fecham empresas e geram multidões de desempregados, mas não explicam ou confessam que um dos fatores da tragédia está no custo fiscal da máquina administrativa, perdulária e farta de ministérios, subsídios, conselhos, grupos de trabalho e mordomias, que tanto oneram. Quem ousa prometer uma jornada de contenções e inevitáveis medidas amargas?
Uma unanimidade que assusta, concordam os caçadores de votos, é que a segurança pública está falida e a violência institucionalizou-se. O que tem de ser feito?  O programa Bolsa Família escapou de seu proposto original, transformou-se em inimigo do trabalho. De quem a coragem para prometer o pente fino ali?. A corrupção impera. Qual candidato mostra como eliminá-la, se também estaria eliminando a fonte que abastece suas alianças?
(Mas, reconheçamos, tratar dos problemas e suas profundidades realmente assusta o eleitor que, já muito sofrido no cotidiano, é mais animado a ouvir coisas agradáveis. Quatro anos atrás, já saboreava o sonho da picanha em fim de semana, regada com cervejinha).
3 – Podíamos, então, trazer à tela uma ideia corrente no passado, não se sabe exatamente de sua paternidade, mas, tomando em conta que os candidatos preferem não falar de pratos indigestos, recomendava-se que as entidades da sociedade organizada promovessem campanhas eleitorais paralelas, sem adesões a candidaturas postas; de forma que levassem a nação a conhecer a gênese das grandes contrariedades, desde o debate até a prescrição dos remédios, dispensadas tendências ou preferências por quem quer que seja.
Quando se fala na representação da sociedade organizada fala-se na OAB, nas instituições religiosas, nas federações de setores produtivos, organizações de defesa dos direitos humanos,  entidades que podem estudar e propor caminhos para enfrentar os grandes desafios. Soluções azedas e indigestas, sem cores partidárias e ideológicas, dariam ao eleitor o direito de não sucumbir na onda ilusória do discurso falso ou açucarado. Mas também acabariam servindo com preciosos subsídios ao eleito para a Presidência e governadorias. Uma ideia, que certo dia, no futuro, talvez possa contribuir para o aperfeiçoamento da política e das candidaturas. 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

 

Procura-se a OEA
 
(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Instigante , ao mesmo tempo preocupante, o desinteresse que o Congresso Nacional e lideranças partidárias demonstrem frente aos desacertos que prosperam nas relações do Brasil com a Argentina e com os Estados Unidos, se assistam a uma novela de troca de suspeitas e acusações, com tudo para merecer acompanhamento mais atento, sem que nos contentemos com pronunciamentos isolados e deficientes de repercutir, competentemente, a evolução dos efeitos com aqueles países. Quanto aos estadunidenses, nos primeiros meses das dificuldades, ainda ausente a ameaça de maiores conflitos, o problema se restringia à sobretaxação que o presidente Trump impôs aos exportadores brasileiros; Restava a expectativa de que o diálogo entre empresários e autoridades levasse a um desempenho superior, demarcado pelos limites de interesses do mercado.   
À proporção em que a sobretaxa vai se arrastando, sem solução, é certo que ela comporta outros objetivos, mais profundos, pano de fundo em questões que não escapam dos conselheiros políticos da Casa Branca. De imediato, com todas as evidências, o interesse em dificultar a campanha de reeleição de Lula, presidente que se rege por princípios ideológicos inaceitáveis ​​para Trump, pois conflitam com as linhas básicas do capitalismo. Uma segunda questão, não imediata, porém muito importante, é que desagradou demais aos Estados Unidos sentirem que os pés da China pisam, cada vez mais fundo, em terras do Brasil.
(Trump reedita a Doutrina Monroe, uma senhora idosa e madrasta de 203 anos: a América para os americanos, desde que sejam os americanos do norte...)
2 – Nossas dificuldades, além de divergências com Washington e Buenos Aires, incluem o esvaziamento das funções de embaixadas, avançam em batalhas verbais e ofensas mútuas, sem que nos falte, para agravar, um distanciamento em relação aos países de orientação direitista do continente. onde saiu o refém das tropas americanas do presidente Maduro.
O que pensa a OEA, nos seus 78 anos de compromisso com a paz continental?, quando as relações entre os governos vão despencando para impasses perigosos. O mínimo, entre o muito inesperado, seria o Senado e a Câmara colherem informações sobre o marasmo da entidade, convidando para Brasília nosso embaixador, Benoni Belli. Os poderes Legislativo e Executivo, bem como a sociedade brasileira, têm direito de interpelar e saber se há gestos em curso ou disposições para que a Organização entre em cena e trabalhe para harmonizar as relações no continente. Os sinais, contudo, são de terrível omissão.
3 – Um bom serviço poderia ser retomado em dois projetos. O primeiro: sensibilizar Washington, Brasília e Buenos Aires a confiar menos no humor político e mais na diplomacia, que forma profissionais capazes de vencer ou contornar crises. O segundo projeto: convencer os presidentes Trump, Lula e Millei a falar menos e ouvir mais. Não é fácil, mas não custa tentar.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 

Um ideal de inteligência  

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
É preciso alguma prudência, quando se acusa a atual legislatura do Congresso de não demonstrar ânimo para entrar, de riso e com rapidez, na discussão e regulamentação dos limites da Inteligência Artificial. Para adicioná-la, bastaria lembrar que se trata de matéria da mais alta complexidade, sem descartar sutilezas que geram dúvidas em todos os setores da sociedade brasileira; melhor, do mundo inteiro, seja ou não diferentes dos níveis de entendimento. Competir, portanto, dar aos legisladores tempo e vagar para definir o que interessa ao bem comum, sem que isso importe no empobrecimento da tecnologia, esses avanços são indispensáveis ​​no cotidiano das pessoas. O projeto de lei 2338, que trata da matéria, tramita há três anos, e, ainda assim, pode estar longe de se esgotar.  
Quando se fala dos cuidados em relação a isso, principalmente se as atenções legislativas se perturbam com o ano eleitoral, percebe-se que as razões da expressiva cautela que se exigem do Congresso são semelhantes àquelas que, um mês atrás, orientaram a longa reflexão do Papa Leão XIV na Encíclica Magnifica Humanitas, consubstanciando a conduta da Igreja frente à IA. O líder católico não é contra, mas quer que ela não fira a dignidade do ser, sem ceder, no campo da moral, à “!ógica da eficiência”, definição a que seu antecessor, Francisco, recorreu quando pretendeu dar trato a questão idêntica. Enfim, preservar o primado da pessoa, frente aos avanços da tecnologia, em cujo campo a Inteligência Artificial goza hoje de particular poder de sedução.
Deputados e senadores, certamente apoiados pelo que podem ensinar os juristas, não têm direito de ignorar o desafio, precisam encará-lo com coragem, mas nem por isso incorreto em precipitações. Além do mais, o choque de interesses nos debates mostra que o açodamento só ajudaria a confundir as regras e ampliar riscos inevitáveis, quando se transfere para um sistema parcela da capacidade de raciocínio, propriedade humana intransferível.
2 – Temores maiores nesse campo vão se dirigir, cada vez mais, aos níveis de empregabilidade. Porque a tecnologia tem, em muitos casos, como investigação negativa, a substituição do homem pela máquina, como se viu nas agências bancárias, onde a caixa eletrônica oferece atendimento eficiente, sem a presença de funcionários. Por outro lado, nos grandes complexos industriais a robotização tornou-se ponto sofisticado no banimento do trabalho humano.
Estamos falando de dúvidas e receitas, pois temos, mas a criatividade dos recursos técnicos, historicamente embalados pela promessa de limitação do suor do trabalho, também impõe viés positivo. Trata-se da capacidade do homem adaptar-se às novidades que chegam com o tempo, e colocá-las a seu favor. Se a primeira sensação era ver o trabalho dos braços e do cérebro derrotado pela obra da tecnologia, ocorreu, em vários casos, de a ela se sobrepor. Desafiado, o ser humano sabe reagir e reverter o que lhe parece concorrente. Dizia o economista e diplomata Roberto Campos que o progresso também tem “virtudes autocorretivas”. Tal como se deu quando o automóvel sufocou a próspera produção de carruagens, ou quando os lágrimas inglesas dominaram a revolução industrial.
3 -= Se a Inteligência Artificial é necessária, trazendo temores, outro dever do Congresso Nacional é elaborar instrumentos para estender, a quem pode produzir, condições atualizadas para ampliar suas capacidades. Domar o progresso e dele se servir para o conforto e o bem-estar. Deputados e senadores sabem muito bem: o trabalhador, em particular o jovem, está longe da profissionalização e dos cursos de aperfeiçoamento, que, no entanto, se fazem mais exigentes cada vez que a tecnologia avança.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

 

Morrendo pela boca


(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil"))  


O fato de 12 países da América Latina viverem, hoje, sob governos de direita, ideologicamente contrários ao Brasil e ao México, estes identificados como modelos esquerdizantes, recomenda que nossa chancelaria se desdobre em esforços para não aprofundar divergências com as capitais que seguem linhas políticas diferentes. Já temos problemas demais. A percepção dessa realidade levou o comando brasileiro a não estimular um conflito diplomático com a Argentina, depois que o presidente portenho definiu o colega brasileiro como figura menor, com agravante de ofender a hospitalidade numa terra que não é a dele.

(Para guardar o insulto na geladeira é certo que ajudou o fato de os costados de Lula estarem imunizados contra agressões, venham elas de onde vierem (mesmo seu vice, Geraldo Alkmin, já disse contra ele coisa pior do que disse o visitante)

No caso recente, melhor que entrasse em cena, como efetivamente se verificou, o velho remédio dos panos quentes; o dito pelo não dito, as relações comerciais preservadas. Acresce outro fato, não menos importante: na atual conjuntura, um revide brasileiro, tão desejado por setores radicais, contribuiria para engrossar a natural liderança de Milei no clube dos governos latinos de direita. Além do detalhe suplementar de que o líder argentino, brigando com Lula, adiciona mais alguns pontos nas simpatias de que desfruta nos Estados Unidos. Porque não constitui surpresa, em nenhuma capital do continente, que tudo que venha contrariar o governo petista do Brasil resulta em bom grado dos gabinetes da Casa Branca.

Compreende-se, portanto, o caminho da tolerância e a opção por esvaziar o incidente, reduzindo-o à formalidade das consultas diplomáticas e troca de embaixadores, em oposição ao mau humor dos revanchistas, que não são poucos entre governistas e aliados. Gostariam de enforcar Milei no velho cadafalso que guarda históricas divergências entre os dois países, muito além do futebol.

2 - A gente se inclina a achar que os grandes males do momento são obra ingrata da falência da palavra; ou, antes, culpa das golfadas de descuidos que escapam da boca dos líderes políticos em suas frequentes incursões nas relações internacionais. Lamentável lembrar que caíram nas desmemórias os tempos em que elas eram medidas com extremo cuidado, para que não se prestassem a impasses entre os povos. Hoje, a realidade é outra. Para se constatar isso, nem é preciso sair da América.

Nos Estados Unidos, o presidente Trump revela enorme capacidade de gerar tensões, indistintamente entre amigos e adversários, pelo que diz, ou, não menos grave, pelo que desdiz, logo em seguida. Próximo, um pouco mais ao sul, Ortega, da Nicarágua, anda pior, vai mais longe, ao colocar a palavra a serviço da insolência, e com ela proclamar a desnecessidade de eleições, pois prefere manter sua ditadura no nível do poder doméstico, que divide com a mulher.

3 – Nessa linha de desmazelos com as palavras oficiais, o Brasil jamais seria   acusado de estar ausente. O presidente Lula, com animada repetição,  prima por dar liberdade total ao repertório; e, ainda agora, divide com o governo de Assunção os desgastes criados com os argentinos. Feriu o orgulho do Paraguai, equivocando-se ao condenar o vizinho por invadir o Brasil na Tríplice Aliança. Quem estuda nossa campanha naquela guerra sabe que o melhor que fazemos é não mexer no assunto, porque praticamos ali coisas horríveis que podíamos esquecer. Os fieis amigos – onde estão? - fariam bem se atualizassem o presidente com a realidade histórica.