Procura-se a OEA
(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
Instigante , ao mesmo tempo preocupante, o desinteresse que o Congresso Nacional e lideranças partidárias demonstrem frente aos desacertos que prosperam nas relações do Brasil com a Argentina e com os Estados Unidos, se assistam a uma novela de troca de suspeitas e acusações, com tudo para merecer acompanhamento mais atento, sem que nos contentemos com pronunciamentos isolados e deficientes de repercutir, competentemente, a evolução dos efeitos com aqueles países. Quanto aos estadunidenses, nos primeiros meses das dificuldades, ainda ausente a ameaça de maiores conflitos, o problema se restringia à sobretaxação que o presidente Trump impôs aos exportadores brasileiros; Restava a expectativa de que o diálogo entre empresários e autoridades levasse a um desempenho superior, demarcado pelos limites de interesses do mercado.
À proporção em que a sobretaxa vai se arrastando, sem solução, é certo que ela comporta outros objetivos, mais profundos, pano de fundo em questões que não escapam dos conselheiros políticos da Casa Branca. De imediato, com todas as evidências, o interesse em dificultar a campanha de reeleição de Lula, presidente que se rege por princípios ideológicos inaceitáveis para Trump, pois conflitam com as linhas básicas do capitalismo. Uma segunda questão, não imediata, porém muito importante, é que desagradou demais aos Estados Unidos sentirem que os pés da China pisam, cada vez mais fundo, em terras do Brasil.
(Trump reedita a Doutrina Monroe, uma senhora idosa e madrasta de 203 anos: a América para os americanos, desde que sejam os americanos do norte...)
2 – Nossas dificuldades, além de divergências com Washington e Buenos Aires, incluem o esvaziamento das funções de embaixadas, avançam em batalhas verbais e ofensas mútuas, sem que nos falte, para agravar, um distanciamento em relação aos países de orientação direitista do continente. onde saiu o refém das tropas americanas do presidente Maduro.
O que pensa a OEA, nos seus 78 anos de compromisso com a paz continental?, quando as relações entre os governos vão despencando para impasses perigosos. O mínimo, entre o muito inesperado, seria o Senado e a Câmara colherem informações sobre o marasmo da entidade, convidando para Brasília nosso embaixador, Benoni Belli. Os poderes Legislativo e Executivo, bem como a sociedade brasileira, têm direito de interpelar e saber se há gestos em curso ou disposições para que a Organização entre em cena e trabalhe para harmonizar as relações no continente. Os sinais, contudo, são de terrível omissão.
3 – Um bom serviço poderia ser retomado em dois projetos. O primeiro: sensibilizar Washington, Brasília e Buenos Aires a confiar menos no humor político e mais na diplomacia, que forma profissionais capazes de vencer ou contornar crises. O segundo projeto: convencer os presidentes Trump, Lula e Millei a falar menos e ouvir mais. Não é fácil, mas não custa tentar.
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