quarta-feira, 24 de junho de 2026

 

U bom costume 

(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))
 
Em outros tempos era assim. Ao servidor público graduado, notadamente se exercesse mandato eletivo, recomendava-se que, estando sob suspeita de ato ilícito, deixasse imediatamente a carga ou função, ainda que pretextando inocência. E distante permanência, à espera da conclusão das sindicâncias, se foi feito ou não. Agia por conta própria, sem necessidade de insinuações para desocupar a cadeira. Era um bom traje. Não é mais.
Jaques Wagner desviou-se da liderança do governo no Senado, quando um ministro do Supremo Tribunal e da Polícia Federal concluiu que são graves as suspeitas de suas relações com o Banco Master, por ele defendido com ânimo no Congresso, além de ser simpático a outros interesses do banqueiro Daniel Vorcaro. Afastando-se, evitaria constrangimento para o presidente da República, que, em nome de uma amizade que vai para mais de 40 anos, não teve outro remédio: cozinhar o caso em fogo brando, esperar que se arrefeçassem as calorias da hora, e o problema milagrosamente pudesse esvaziar-se por si mesmo.
Ou, então, torcer para que o problema recente seja esquecido, por força de outras crises prontas para morrer. No Brasil há sempre um escândalo na fila, esperando vaga para ocupar vagas e manchetes. Nas últimas semanas, Wagner foi antecedido por Ciro Nogueira, Hugo Mota, Alcolumbre, com gravação digital na carteira de Vorcaro. Agora, sai Flávio entra Wagner. Quem virá depois?  
Chegou a hora que pode ser decisiva para o desfecho, tanto quanto possível menos doloroso para a vida do governo. A desvantagem é evidente, quando algumas vozes mais credenciadas sobem a rampa com o dever de anunciar. É preciso correr contra o tempo, porque o caso Wagner empurra o presidente contra duas paredes, onde pode dar perigosas cabeçadas. Dois problemas. O primeiro é que, sendo o líder moralmente desautorizado, as dificuldades e o custo das tramitações no Senado podem sair do controle, considerando-se que a gestão Lula já caminha maus pedaços na Casa. Quanto à sorte dos vetos, nem se fala.
A segunda dificuldade é que, nesse episódio, sai esfolada a candidatura do senador ao governo da Bahia, onde brota uma preocupação particular para o presidente e seu PT: ali, pelo menos até agora, fora de Wagner não há salvação; e um desempenho insuficiente entre os baianos pode comprometer o destino petista neste 2026.
Por dedução
 
Nos altos escalões ficou definido que pecam por palidez e brandura como propostas de delação com que o banqueiro pretende aliviar suas diferenças com a justiça, melhorando as condições do cárcere. Duas tentativas frustradas, como também desconsideradas são as intervenções dos defensores no seu esforço para o acordo de premiação.
Deduz-se. O ministro Mendonça e a Polícia Federal sabem muito sobre as fachadas do Banco Master. Podem dispensar delações, o que parece claro, quando chegam à jugular do poder, e batem à porta do líder do governo no Senado, um passo poderoso no terreno das amizades estreitíssimas que o banqueiro teme nomear.  
Vorcaro deve se abrir de vez. Nada mais a perder, mas talvez ainda possa ganhar alguns pontos no balanço final dessa tragédia.
Hora de cuidar do próprio destino, esquecer amigos tão generosamente beneficiados, e que agora o abandonam.
Já que há pouco conversamos da Bahia ao banqueiro convém lembrar de Quincas Berro D'Água, personagem de Jorge Amado: chega a hora em que cada um cuide de seu próprio enterro, porque o impossível não há...

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