Rumo ao
segundo round
A menos que
os institutos de pesquisa da tendência eleitoral incorram em erro coletivo - pouco
provável que aconteça -, a sucessão presidencial caminha para ser decidida no
segundo turno, experiência cada vez menos incomum entre nós, pois, desde 1989,
só em duas vezes o presidente foi conhecido em turno único. Sobre o que vão nos
dizer as urnas, dentro de um mês, a segunda convocação parece inevitável, por
força da polarização, fenômeno que antecipa favoritismos apaixonados, acolhe apenas
dois como favoritos, divide com eles as paixões e preferências. Contudo, caprichoso,
não permite a maioria absoluta, a graça experimentada por Fernando Henrique.
Pois bem,
polarizadas as preferências, caminha-se, facilmente, para o tira-teima, desfecho que nos aguarda
em 25 de outubro. Um redobrado sacrifício para os candidatos, que não escapam logo
de dois desafios pela frente: construir alianças com partidos e forças
políticas que, no primeiro turno, preferiram quem teve votações insuficientes; e,
paralelamente, tentar romper as muralhas da rejeição que os cercam. Não é
pouco.
Adiro aos
que definem o segundo turno entre os mais felizes aperfeiçoamentos da
legislação, quando se leva em conta que o ideal democrático é ampliar o direito
de opção do eleitorado. Ou, como dizia, na França, Charles De Gaulle, a quem se
deveu a primeira experiência, se o primeiro turno é o direito de votar com o
coração, no segundo o que se impõe é votar com a razão. O primeiro desova
protestos; o segundo encoraja a reflexão.
Aqui mesmo
neste JB, Villas-Boas Corrêa, que há dez anos nos deixou, foi um entusiasta do
segundo round entre os dois favoritos das urnas. “Com a enxurrada de legendas,
corremos o risco de eleger um presidente com, digamos, 20% dos votos, receita certa de turbulências e
desestabilização do governo”. Diria ele que o segundo turno arruma a casa,
evita a eleição de um candidato carregado numa onda emocional. O raciocínio
é perfeito.
2 - Resta,
contudo, um problema sério, e dele não sabemos como escapar. Viu-se em 2022,
quando o candidato vitorioso elegeu-se com modesta diferença de votos, algo em
torno de 1,5%. Para o bem da estabilidade política, ideal é que o vitorioso,
seja quem for, vença beneficiado por uma diferença expressiva de votos, porque
é a partir daí que pode organizar as bases da governabilidade.
O presidente
Lula venceu com 50 milhões de votos, mas, olhando para o lado, viu que outros
50 milhões ficaram com seu opositor. Conclui-se que, em casos como aquele, qualquer
apoio, por mais modesto que tenha sido, arvora-se como decisivo. Quem o apoiou
sentiu-se no direito de cobrar uma fatia do bolo vitorioso, que, com tantos
comensais, teve de ser enorme, cheio de ministérios desnecessários e
generosidades sem medidas. Não demorou muito para ver, no Congresso, a
tramitação de seus projetos custando favores.
3 - Quando
estabelece a legislação que eventual aprovação no primeiro turno dá-se pela
maioria de votos válidos, menos os brancos e nulos, são cometidos dois pecados.
O primeiro é negar a validade ativa do voto em branco, que é o nosso direito de
não escolher um dos candidatos. O segundo é considerar como iguais, para efeito
de condenação, o voto branco e o nulo. Aquele, revela apenas ausência de opção;
este é instrumento de raiva, nega a utilidade da manifestação. Coisas
totalmente diferentes.
Nenhum comentário:
Postar um comentário