quinta-feira, 1 de outubro de 2026

 

Voto útil, abstenção inútil  

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil!" ))

Na reta final de uma campanha presidencial sempre couberam importantes indagações sobre fenômenos capazes de alterar o destino esperado para as urnas. O primeiro é o chamado voto útil, aquele que emigra de candidaturas que não conseguiram se impor, e corre para se acomodar nas preferenciais; o segundo fenômeno é o risco de abundante abstencionismo, fruto da associação de desânimo e protesto do eleitorado.
Dependendo da intensidade com que chegam, traçam diferentes rumos para exitosos e fracassados. 
Detenhamo-nos, primeiro, na abstenção. Não faltam previsões pessimistas em relação às eleições do dia 4, pois se a ocorrência sempre se restringe à casa dos 25% ou suas imediações, ano após ano vão se agrupando novos fatos para contribuir com o desinteresse do eleitorado. Se já concorre uma confessada descrença com a classe política, incapaz de vencer velhos desafios, como o recrudescimento da corrupção, agora surge outro componente para influir: o descrédito vivido pelo Supremo Tribunal Federal, que, há dias, acabou por sepultar pálidos percentuais de respeitabilidade que lhe restavam junto à opinião pública.
Se contribuiu aquele espetáculo para a multidão descrer das leis, de quem as elabora ou quem as faz cumprir, o STF também consegue desassossegar o eleitor em relação ao conjunto das instituições. Nem valeria mais a pena votar, pensam muitos. Para não se falar em algo pior, o risco de tudo isso desabar num grave impasse para a democracia, tragédia em que não faltaria a digital da mais alta corte de justiça.
Se o abstencionismo ultrapassar percentuais tradicionais, debite-se, então, àqueles juízes uma parcela de responsabilidade, depois de terem protagonizado cenas deprimentes, nem suavizadas com o patético pedido de desculpas que a ministra Cármen Lúcia, envergonhada, enviou aos brasileiros ofendidos. 
2 – Mas, se o momento é de desesperança, ainda não é de desespero, diria o ministro e jurista Afonso Arinos, quando se via diante de situações semelhantes.
Porque a crônica política e a História ensinam que o deixar de votar. como forma de protesto, nunca ajudou a resolver os males praticados por políticos e juízes, quando descem ao mais baixo nível de prestígio. Contrariamente ao que aspiram descrentes e desiludidos, a obra da abstenção é exatamente indesejada por quem se preocupa sinceramente. Na verdade, o que ela faz nada mais é que consolidar o projeto dos maus. Os maus políticos e seus seguidores nunca deixam de votar; precisam da bênção das urnas para prosseguir em seu caminho sinistro. Para eles, tanto melhor a distância dos bons e dos verdadeiros patriotas.
Como proposta para uma reflexão objetiva, cabe ter em mente, então, que o desânimo cívico, que anima a ideia da abstenção, prospera é nas camadas mais esclarecidas e conscientes da sociedade. Ora, se estas se abstêm, o que fazem é deixar abertas as portas a quem usa o voto para conveniências e propósitos distantes dos interesses da nação.
(Os aproveitadores indesejáveis são gratos. Agradecem, e, com maldosa ironia, definem as ausências como direito legítimo de ausência...).
Voltando à previsão pessimista das primeiras linhas, é fora de dúvida que o abstencionismo pode contribuir, ainda, para reaquecer a velha discussão sobre o voto facultativo, que, quatro décadas passadas, segundo o Ibope da época, já contaria com a simpatia de 64% do eleitorado. A faculdade chegou a ganhar, em dezembro de 1998, a maioria da Comissão de Reforma Política do Senado. Ideia natimorta.
O fracasso decepcionou a muitos, entre os quais, se não falha a memória, o senador gaúcho José Fogaça, do PMDB. Dizia que o voto pode ser obrigatório, mas nada obriga o eleitor a se deter e votar diante de casos simples ou complexos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário