terça-feira, 22 de novembro de 2022

 




Palanque em dupla face



(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil")) 

Quem disse foi De Gaulle, à sombra da Quinta República francesa. Campanha eleitoral faz-se com poesia; governa-se com prosa. Quis dizer o velho general não ser conveniente achar que tudo que se fala e se ouve deva ser levado a sério, quando é tempo de disputa de eleitores e de votos. Lição cabível para quem está no outro lado do oceano, onde um presidente eleito vem sendo cobrado, tanto pelos que lhe deram o voto, como os que não o apoiaram; mesmo assim, todos querem antecipar prestação de contas. Quanto aos exigentes da hora, vale a ressalva, caso figurem entre eles os que optaram por Lula, não porque morriam de amores por ele, mas apenas porque odeiam Bolsonaro. Estes vingaram-se, foram gratificados na tarde de 30 de outubro, quando se fecharam as urnas. Regiamente pagos, nada a reclamar.

Fácil de compreender, porém difícil de aceitar. O discurso de campanha tem de ser, necessariamente, muito mais um exercício de sonhos e boas intenções. Excetuados os dialéticos, poucos serão os eleitores deste país que prefeririam ouvir de seus candidatos apenas lamúrias, desesperos e previsões funestas; porque agrada mais é algo como a ampla democratização da picanha, cerco aos milionários, casa para todos e a população miserável com a garantia de três refeições diárias. Bom mesmo é o aceno de alegres paraísos iminentes, ainda que fictícios.

De maneira que – é preciso compreender bem isso - a responsabilidade pelo destino das promessas de campanha tem mão dupla, tanto é de quem as faz, como de quem as aceita as subscrevno momento da urna. Tal como o voto, igualmente responsável, tanto de quem o pede, como quem o dá. Em rigor, o peso acaba sendo maior para os que acolheas generosas propostas, no dizer da lição gaullista.

(No particular, o escritor e professor Abgar Renault parecia ser mais condescendente com o palanque dos candidatos, pois admitia que só mesmo o impossível é digno de ser sonhado).

Aberto o jogo entre as coisas ditas e as impossíveis, o caso Lula não é diferente. Ele apregoou o que alguns milhões de brasileiros queriam ouvir, metade de um Brasil obediente à mensagem socialista distributivistaAgora, no balanço da fatalidade do impossível, poderia se lembrar do que disse, certa vez, Artur da Távola, que foi senador pelo Rio de Janeiro: a arte da política e de um presidente é fazer a união do possível com o necessário. Nada mais que isso.

Sua excelência, o impasse

No emaranhado dos problemas em que o Brasil mergulhou, de cabeça, desde os primeiros momentos do ano eleitoral, cada um deles com origens e complexidades próprias, as perguntas e as expectativas vão se afunilando, cada vez mais insistentes quanto aos estreitos caminhos que podemos seguir para resolvê-los. Mas todos esses problemas, quando escapam de seus campos específicos, acabam desaguando num destino comum; vão para o mesmo lugar, frente a uma questão que neste exato momento não tem resposta convincente. É o fantasma do impasse. Estamos em apuros diante dele, porque, se olhamos para todos os lados, não conseguimos divisar o caminho a seguir. Por isto, quando se indaga sobre a definitiva dificuldade do país, confessemos: é o impasse, que nos parece um túnel cheio de esquinas, impedindo identificar a desejada luz de saída.

O que não quer dizer que faltem ideias originais, algumas de bondade inocente, como deseja, por exemplo, Michel Temer, ao sugerir a Lula convidar Bolsonaro a ajudá-lo na custosa travessia dos tormentos. No fundo, o ex-presidente certamente tenta praticar uma penitência, pois foi invenção sua o acesso do doutor Alexandre ao Supremo Tribunal, onde ele conseguiu montar a notável usina dos óbices que temos enfrentado.

Entende-se bem o beco escuro em que o Brasil tem tateado nas últimas semanas. É que os atores da crise acabariam esbarrando num mar de incoerências ou, pior, chegariam a um ponto em que, para eles, tanto difícil avançar como retroceder, dado que as posições já assumidas não lhes permitem rever o que disseram e as atitudes tomadas, sem graves prejuízos para a coerência. Tome-se, como primeiro exemplo, o presidente Bolsonaro, que se veria constrangido a acatar os números do processo eleitoral, depois de combatê-los com vigor, mostrando-se vítima de fraude descarada. Desdizendo-se agora, não estaria em situação confortável. Qualquer que fosse o passo que desse.

Para o Tribunal Superior Eleitoral, que contra o presidente da República investe sem piedade e sem limites, resta imensa responsabilidade que tem de assumir perante a nação: entrar no novo ano sem deixar mínima dúvida quanto à garantia de lisura do pleito, confrontando suspeitas do Exército e de 50 milhões de cidadãos descontentes. Eis outro impasse plantado: insistindo ou não na lisura, o TSE e seus ministros saem desprestigiados, independentemente do rumo que tomarem.

Ora, se ninguém tem merecido o direito de respirar aliviado nestes dias, não haveria de escapar o Senado Federal. Agora, mais do que nunca, porque é o momento de definir como se portar com a chegada de uma bancada majoritária simpática ao bolsonarismo, comprometida com o ideal de conter o ativismo judicial, fenômeno diante do qual o Congresso tem feito concessões, assistindo à sobrevivência de uma classe política cada vez mais dócil à ditadura togada. O que seria adequado aos senadores, velhos ou novos: renovar e avançar ou manter o recolhimento? Mais um entre os vários impasses.

Questionado, não diferentemente, figura o prestígio das Forças Armadas. Colocadas diante das urnas, deixaram evidente dupla preocupação: não esconder grandes dúvidas quanto à fraude, mas sem reconhecer claramente esse pecado eleitoral, que seria a razão da vitória de Lula, algo que não apetece aos quartéis. Também elas já não têm como reconsiderar o que foi objeto de insinuações, para conviver razoavelmente com o novo governo. Considere-se que, ao sugerir futuros aperfeiçoamentos no sistema eleitoral, os militares concordam, consequentemente, que há defeitos que comprometem. Cabem explicações mais claras, muito além do que até agora explicaram, embora disso se possa desdobrar mais um estímulo à crise.

Seria injusto, por fim, se uma conta desse rosário de impasses não se debitasse aos grupos políticos da esquerda. Voltar às ruas para tentar blindar o mandato de Lula, que vive sob intenso bombardeio, ou esperar que a direita esgote os ânimos e o fôlego? O que seria menos perigoso no momento? Nem ela mesmo sabe.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

 

República incompleta



(Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" )) 



Se nunca figurou entre nossos hábitos celebrar o advento da República, proclamada há 113 anos, menos agora, nestes dias tensos e inseguros que estamos vivendo. Continua a data apenas destinada a trazer à lembrança qualquer coisa, menos aquela manhã de 15 de novembro de 1889, quando a monarquia e a família imperial foram empurradas, às pressas, para a Europa. Entre outros povos, conhecem-se manifestações mais expressivas, quando se trata de reverenciar o regime republicano.

Talvez a indiferença se deva ao fato de ela caminhar durante todo esse tempo sem dar à História prova inequívoca de que valeu a pena, a começar por não aplicar, verdadeiramente, a proposta de uma República Federativa. Fosse diferente, o povo talvez se animasse a festejar esse rótulo, e as deformações e desigualdades podiam estar corrigidas, pelo menos nos aspectos essenciais. Não foi o que se viu nesse longo tempo. O estado não modernizou o necessário para se incorporar às melhores democracias. Perduraram muitos vícios do cartorialismo, as rendas mantiveram-se gritantemente concentradas, herança dos imperadores dos cafezais, dos engenhos e do ouro. Multidões negras, recém-libertas da escravidão, perambulando sem rumo e sem sorte, deixando a marca dos pés descalços nas loucas caminhadas ainda hoje fincada nas descendências. Salvar os excluídos ou injustiçados foi algo de que se descuidou a elite inovadora.

Pudera. Quando D Pedro partiu e Deodoro surgiu, o novo regime chegou sem que o povo soubesse. Na palavra de Aristides Lobo, assistiu àquilo bestificado. Os republicanos, ainda de madrugada, foram acordar o proclamador, que, resfriado e febril, saiu, contrariando a preocupação da mulher que o desejava literalmente na cama… Benjamin Constant levantou o braço e a espada dele, gritou Viva a República. Pronto, Brasil. Alea jacta est. Saía dali uma simbiose tropicalizada: o positivismo comtiniano, os fazendeiros desesperados, sem mãos para a lavoura; tudo isso somado ao descontentamento da classe militar, modestamente prestigiada após a Guerra do Paraguai.

( Foi o que levou Machado de Assis a pedir aos deuses que “afastem do Brasil o modelo republicano, porque esse dia – 15 de novembro de 1889 - seria o dia do nascimento da mais insolente aristocracia que o sol jamais alumiou” ).

As lideranças tiveram tempo mais que suficiente para corrigir o que ficou de errado, e melhorar o que veio imperfeito. A República, impulsionada pelo tempo, calejada nas experiências, para facilitar as correções chegou a dividir-se em fases distintas perante a História. A primeira, de 1889 à Revolução de 30; a segunda foi a Era Vargas; a terceira do Estado Novo, de 37 a 46; a quarta fase, do governo Dutra a 67. Depois, o período de ditadura militar até a Constituição de 1988. Sacolejado por fatos tão significantes, o regime podia estar melhor. Não é para qualquer uma, seja dito para reconhecer a capacidade da República brasileira de enfrentar solavancos: 19 rebeliões em quartéis, sete dissoluções do Congresso, quatro governos provisórios, duas renúncias de presidente, três impedidos de tomar posse, cinco foram depostos e dois sofreram impeachment.

Apesar de tudo isso, em 1993, num plebiscito, 66 % dos brasileiros lhe deram preferência, recusando a monarquia. Mas não a isentou dos pecados originais.

Diga-se, contudo, que sempre há tempo para melhorar o que pode ser melhorado. Esperança é a ordem do dia.

Direita é um fato

É preciso esperar que volte ao chão a poeira que a campanha dos candidatos levantou; que se esclareçam definitivamente as dúvidas quanto ao processo eleitoral, para que se chegue à pauta das questões remanescentes e importantes que os votos insinuaram. Por exemplo, o fenômeno da direita, que em Bolsonaro ganhou identidade, popularizou-se, absorveu metade do universo votante. Antes mesmo de terminar a disputa presidencial ela já havia ocupado ruas e praças. Mobilizou-se, o que, até então, era quase prerrogativa natural das forças da esquerda.

Tirante o mais importante, que foi o advento do novo governo e a retomada das linhas esquerdistas, a direita marcou seu espaço com identidade própria, chamou a si virtudes do patriotismo, vestiu-se de verde e amarelo. Seria erro subestimar isso, como se fosse mero acidente de percurso na disputa presidencial, porque, sob certos aspectos, ela vai além do presidente, talvez já acima dele, embora tenha sido sob os auspícios do atual governo que ascendeu, adotou bandeiras, slogans e palavras de ordem, além de propor algo esquecido há meio século: a volta intervencionista dos militares no campo das decisões políticas, o que a redemocratização reservara ao poder civil.

Sinais do fenômeno já havia. Relembrando junho de 2013, quando aconteceram movimentos difusos nas ruas, com muita presença de jovens, demonstrando insatisfação com os serviços públicos de transporte, moradia e saúde. Há quem considere que refletiam os mais pobres, das periferias urbanas. Para outros, contudo, ali surgia, com nitidez, a ação política da direita brasileira. Em seguida, vieram manifestações populares de apoio à operação Lava-Jato, desembocando nas grandes concentrações pedindo o impeachment da então presidente Dilma. Lembremo-nos que naquela época surgiram os manifestantes trajando verde e amarelo, com a camisa da seleção brasileira de futebol, entre outros símbolos nacionais, que se repetiram. 

Já em 2018, essa mobilização convergipara a campanha de Bolsonaro, que se elegeu presidente da República, logo assumiu a liderança da direita nacional. Num passo seguinte, cuidou de fortalecer os movimentos de rua que questionam o STF, a confiabilidade das urnas eletrônicas, e, paralelamente, o imperativo de uma pauta de costumes. Pelo que se vê de tão breve histórico, pode-se intuir que a direta continuará acionada em oposição à esquerda, mas também com apoio de seus representantes no Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e governos estaduais. Tudo em preparpara tentar a retomada do poder em 2026.

Ha, pois, independentemente de desejos em contrário, uma direita que desembarcou no espaço político brasileiro, carregando 58 milhões de votos; e é com esse cabedal que vai tentar colher os frutos dos desgastes do novo governo, que, como qualquer governo, terá desafios e peripécias a superar. Não escapa da velha batalha entre as ideias e os resultados.

(É sempre lembrado o desabafo de Aloísio Mercadante, que foi senador pelo PT: “Fomos cobrados de que nosso discurso na oposição não é o mesmo do governo. Por que não pode ser o mesmo? Porque a História nos cobra a necessidade de assumir a responsabilidade de governo”).

O Brasil de hoje, do pós-eleições, continua efervescente, com pessoas ocupando calçadas próximas aos quartéis do Exército, pedindo intervenção militar para impedir a posse do presidente eleito. Essas ocupações ocorrem em várias regiões, mas só questionam o resultado da eleição presidencial. Não querem mexer com governadores, senadores e deputados, porque aí os direitistas foram numerosos.

Mais importante, para que se evitem sustos próximos, é não deixar de reconhecer o fato de que a direita brasileira está ativa e demonstrou força política e eleitoral, o que dá folego para as futuras mobilizações de oposição a partir de 2013. Em apoio a essa constatação, considere-se a presença de um “partido militar”, que tem no comando os bolsonaristas. Sem generais do Exército, almirantes e brigadeiros a direita seria menor.

Com o protagonismo que tiraram das urnas, os direitistas não vão dispensar a oportunidade de cobrar e capitanear insatisfações. O que pode ser menos ou mais fácil, dependendo também de quem vai assumir o comando. Bolsonaro? Ou um dos militares que se saíram bem nas urnas?

terça-feira, 8 de novembro de 2022


Clima de tensões



(( Wilson Cid, hoje, no  "Jornal do Brasil" )) 

É difícil que alguém possa contestar. O país já não tem como suportar a continuidade do clima de campanha eleitoral, que não terminou; na verdade, ela vem se prolongando perigosamente. A sucessão presidencial nega-se a apear do palanque, os contrários não se animam a parar de torcer e vão se mantendo as diversidades, a despeito de a equipe do eleito trabalhar na tentativa de esvaziar resistências, antecipando os trabalhos da transição; a despeito, ainda, de o presidente Bolsonaro não reconhecer os resultados das urnas, alimentado por suspeitas várias de que a votação do dia 30 sucumbiu à fraude. Se assim foi, se assim é, cabe ao TSE andar ligeiro na apuração final e definitiva da grave denúncia, antes de mandar prender quem com ele concorda. Porque, agindo diferentemente, só está contribuindo para exasperar os ânimos já muito quentes. A repercussão internacional dessa situação também pode nos prejudicar a médio prazo. E muito.

Para soprar e incendiar as brasas tem concorrido a intenção do presidente do Tribunal de calar as fontes de comunicação que supõe estarem trabalhando com a desinformação. Mas desconhece que a melhor forma de combater a desinformação, ostensiva ou camuflada, é manter abertos os espaços para o contrário. Desinformação enfrenta-se com informação. Não se conhece solução mais adequada.

Hoje, como nunca, o propósito de conter os veículos de comunicação não tem revelado eficácia; pelo contrário, como a opinião pública sabe que há restrições, qualquer boato prospera como fogo em capim seco, sendo o mais recente o que substituiu as horas de férias por um infarto de que Lula estaria acometido. Até que o fato estivesse devidamente apurado, a imaginação ganhou espaço e ansiedades. Certamente não teria sido assim se, amplamente abertos, os meios de comunicação, sobretudo as redes sociais, operassem livremente, ligeiras na apuração e no desmentido, sem tempo e vagar para especulações e expectativas pessimistas.

Mesmo sem definitiva avaliação de méritos há uma onda de contestações caminhando pelas ruas, duvidando das urnas. A onda é um fato. Azar do fato?

Em todas as ditaduras, das quais trazemos azedas reminiscências, mesmo quando justificadas pelos tribunais, como hoje se aplica, as inverdades e os sem-fundamento parecem mais graciosos para milhões de pessoas. E, ante tais sérias deturpações, as ações do presidente do TSE, com a jactância de superioridade, não têm contribuído para ajudar o país a trilhar o caminho da normalidade.

Lembremo-nos. Na política e nos tribunais o maior perigo está em considerar desprezíveis as opiniões contrárias. E nisso tornam-se mensageiros de véspera dos regimes de exceção.

Fartura de ministérios

Os presidentes da República nunca se entenderam com seus antecessores, e nisso certamente estarão incluídos os futuros, quando se trata de definir o número de ministérios, que geralmente encolhem, se as finanças andam escassas, ou espicham para acomodar os apoiadores mais expressivos. Problema que já se via e preocupava na Velha República, porém agravado mais recentemente.

Lula não dá sinal de poder escapar desse destino, ao anunciar a estrutura de seu governo. A primeira questão que se levanta em relação à ampliação do leque ministerial, como se tem prometido, é o engordamento da máquina da burocracia, exatamente onde prosperam algumas das principais dificuldades e da corrupção na administração federal. Porque crescem os quadros de assessores, assiste-se a feroz disputa por cargos, incham-se os gabinetes, que em geral conflitam quanto a funções, disso resultando prejuízos em áreas essenciais. É o que sugere ocorrer se a Economia (ou Fazenda) desvincula-se do Planejamento, porque, entre todos os setores do governo, são os dois que exigem maior entrosamento, sujeitos a indispensável interdependência. Precisam caminhar em rotas muito íntimas, sem cabimento para caprichos de natureza política. Dúvidas também estão autorizadas quando se sugere separar indústria e comércio das linhas adotadas pela Economia. Nesse campo há antigas experiências a serem consideradas. Já em 1906 João Pinheiro advertia sobre as consequências de isolar aqueles setores produtivos da orientação fazendária.

Cuidado não menor há que se conferir à ideia de organizar outras pastas para determinadas funções específicas. Mesmo que hajam sido boas as intenções, teme-se que isso ocorra, por exemplo, em relação às populações indígenas, imponentemente chamadas de Povos Originários. O titular desse novo ministério, viria, em nome de pretendida autenticidade, das distâncias amazônicas. Alvo das expectativas de seus irmãos de cultura, mas pouco podendo fazer, a não ser permitir ao governo aliviar-se das manifestações de flechas e tacapes na Esplanada. Os índios teriam as queixas jogadas apenas no colo do cacique-ministro; este, coitado, sujeito à imposição de assessores engravatados, jamais acusados de terem pisado numa floresta. O respeito e a preservação das populações indígenas devem ser objeto de atenções de todas as áreas governamentais, não restritas a um campo burocrático da administração, dominado por gente de carreira.

( Dizia Saulo Ramos, que ocupou a Justiça no mandato Sarney: “Observei que no governo federal os servidores do segundo escalão adoram ministro novo, porque fazem dele o que bem entendem. Enganam, dão informações trucadas, assessoram mal. Há honrosas exceções, que são honrosas precisamente por serem exceções”).

O mesmo cuidado pode ser aplicado aos afagos que se destinam à população feminina. Para ela, também se propõe uma pasta exclusiva, fora do controle da Direitos Humanos, onde bem cabem as angústias e as lutas dos dois gêneros, não apenas de um. Observe-se: toda vez que se separa um segmento para lhe garantir campo destacado nas ações políticas, o risco é o isolamento, o indesejável contraste e a disputa com outros setores. Na verdade, criam-se valas nas engrenagens do poder público. Querendo ou não, quando o Executivo organiza uma pasta específica abre-se a porta para a encampação de privilégios que servem a grupos interessados.

Homens do esperado novo governo não ignoram que há nos céus do mundo, sob os quais também nos encontramos, a ameaça de tempo de vacas magérrimas, e delas nem escapam nossos generosos pastos e invernadas. A Europa aperta os cintos, os Estados Unidos em debate com a inflação, os vizinhos da América do Sul mergulhados na indigência. Tudo a recomendar pouca prodigalidade com os cofres do governo.

Pensar a abstenção

A abstenção nos processos eleitorais é fenômeno que só tem preocupado os políticos antes e durante a campanha, quando seus candidatos estão em campo para disputar votos. O problema desliza para o esquecimento, tão logo se define o destino de cada um dos interessados. Não devia ser assim, porque o abstencionismo esconde situações que estão a merecer maior reflexão, antes que chegue nova eleição, com a natural retomada da caça aos votos.

É fato saliente e persistente em todos os pleitos, com números e percentuais sempre muito próximos uns dos outros; sendo que, agora, para comprovar, no primeiro turno presidencial 32.770.982 ficaram ausentes; no segundo, 32.200.558. Em ambos os casos, o equivalente a uma população expressiva, que escapou do momento que tinha todos os indícios de graves definições para os próximos rumos da nação. Ficamos então diante de uma situação que assusta, com perfil adequado para alimentar preocupações, uma das quais é o comprometimento do futuro governo para adotar iniciativas que precisam se escorar em clara sustentação da sociedade. É o problema que vive o Chile, onde o presidente, recentemente eleito, propõe nova constituição, mas se ressente de uma base deformada pela abstenção expressiva.

Por que os ausentes de outubro?, quando era esperado índice ínfimo, considerando-se a temperatura da campanha – a mais quente de todos os tempos – e a polarização entre os principais candidatos, igualmente inédita na crônica política. Diante desse quadro é que precisam mergulhar os cientistas, porque a eles, como primeira questão a excitar, cabe pesquisar o sentimento que leva à ausência de multidões, cara a cara com um momento em que jogam não apenas os seus, como também os interesses das gerações que estão para chegar.

Notou-se agora, como em passado recente, que em alguns segmentos da sociedade e regiões a abstenção tem mapas diferentes, maiores ou menores. Ou, ainda, quando o eleitor é convocado para eleições municipais ou nacionais. Porta-se diferentemente diante delas. Já aí se evidencia uma razão para pesquisar.

Velha discussão, sempre distorcida ou relegada pelos interesses parlamentares, é a adoção do voto facultativo. Talvez a obrigatoriedade de ir à seção eleitoral – a lei não faz distinção entre direito e dever - possa provocar uma forma de protesto da parte de quem acha que deve prevalecer o direito acima do dever. Reage à imposição. Protesta, substituindo o dia de votar pelo descanso ou lazer. O eleitor julga não ser de ferro e, além do mais, prefere dar as costas a indistintos políticos, que tem na conta de ociosos bem remunerados.

Tudo pode ser. Como também – quem sabe? - o eleitor não se assusta com a multa que ameaça sua displicência: nada mais que suaves 10% sobre a base de cálculo, o que vai castigá-lo em modestos R$ 3,50. Severa pena para reparo de um dever cívico vale uma latinha de cerveja. Se não votar, beba, invertendo-se o sentido da prudência que se vê na propaganda de bebidas.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

 


Escala de prioridades



((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil )) 

O presidente eleito não ignora os desafios poderosos que tem pela frente, começando por estabelecer certa ordem nas prioridades, da primeira das quais safou-se com astúcia: rápido no gatilho, não esperou que fosse concluída a apuração dos votos, e procurou esvaziar o clima de uma eleição praticamente empatada. Foi um longo discurso, preparado com a antecedência que pressentia possíveis dificuldades; mas também com o propósito de abafar reações dos contrários, estes sempre desconfiados da imparcialidade das urnas e dos tribunais. Lula quis logo dar a vitória como fato consumado, quando não sabia como reagiriam o adversário e o governo. Pregou a pacificação dos ânimos, sem excluir aliados, muitos dos quais não se contentarão com poucas compensações. Em suma, antecipou-se, para tentar eliminar os excessos dos descontentes e colocar os fatos a seu favor.

A oposição não tem rumos definidos, por hora duplamente ferida: porque não ganhou e porque perdeu por pouco. Como também não sabe se o presidente Bolsonaro vai se recolher ou se retoma a pregação contra um adversário que rotulou como universal patrono da corrupção. Com ele ou sem ele, o projeto oposicionista será arquitetado com algumas diferenças.

Quanto às prioridades, cumprida a primeira, que tentou eliminar veleidades dos contrariados, vem uma segunda, com direito a anteceder as demais. O presidente eleito precisa cuidar da saúde, que reclama algumas atenções. E ele certamente não desconhece isso. Embates inevitáveis vão colocar à prova sua resistência física, com quatro anos pela frente, e já carregando como herança problemas do passado recente.

Ainda no elenco de tarefas a serem cumpridas de imediato, também com intenção de reduzir os ânimos adversos, Lula faria bem se precipitasse a definição de um nome para o Ministério da Economia, começando a estabelecer relações com os meios produtivos, notadamente na área do agronegócio. Não é novidade afirmar que planos econômicos correm paralelamente com propostas políticas, quando o objetivo é pavimentar caminhos por onde o governo quer passar. Como se viu na história de todos os presidentes. E o destino não haverá de ser diferente para o próximo.

Refletindo mais nesse ponto, caberia lembrar que, de véspera, dilui-se a preocupação quanto à necessária sustentação da base parlamentar, mesmo que a vitória tenha chegado com suados votos em conta-gotas. Não importa, porque a aritmética eleitoral é diferente da aritmética política, esta mais duradoura, pragmática e eficaz no faturamento. E Lula, com experiência de dois mandatos anteriores, certamente não se assusta quanto às relações com a Câmara dos Deputados, onde encontra à disposição uma bancada pronta a servir ao novo governo, como serviria prontamente a Bolsonaro, se a ele a sorte favorecesse. Fácil prever, porque o Centrão é um plantonista que não se entusiasma com os governos que acabam, acha que defunto leva-se até à beira da cova; não entra nela em solidariedade aos finados. Viu-se. Na noite da vitória, antes mesmo do discurso de Lula, o deputado Arthur Lira já havia dado o recado: estamos aí.

Missão a ser programada, em seguida, é organizar a convivência com as Forças Armadas, declaradamente antipáticas em relação ao presidente eleito, não apenas por causa da campanha eleitoral que primou por ideias e projetos de conteúdo esquerdista, mas, por acréscimo, porque nos quatro anos do governo Bolsonaro milhares de militares assumiram cargos e funções civis, quase chegando a ganhar foro de partido corporativo. Como devolvê-los à farda e ao pijama?

Outra linha de convivência a reclamar cuidados refere-se ao Judiciário, onde o eleito deixou pendências e processos convenientemente sustados.

Por fim, é preciso lembrar que ele tem pela frente um Brasil um pouco diferente daquele que viu doze anos atrás. O que não mudou – pelo contrário, acentuou-se ainda mais - é que somos mesmo dois países dentro de um só Brasil. Um acaba em Minas e o outro começa na Bahia.

Abaixo a reeleição

Uma das vantagens do começo de qualquer governo é que dispõe de tempo para tudo, nisso incluindo iniciativas amargosas, porque sobram dias e meses para que os incomodados esqueçam o amargor. Talvez baseado nessa constatação, o novo presidente possa iniciar articulações junto ao Congresso Nacional para pôr fim à instituição da reeleição, que não deu certo - pelo menos entre nós – porque acumulou mais problemas e deficiências que virtudes e benefícios para a sociedade. Com uma vantagem a mais para que se aproveite a oportunidade e se dê encaminhamento à proposta: Bolsonaro já não tem como postular o segundo mandato. E Lula, da mesma forma, aos 77 anos, não terá como pleitear a renovação do seu.

Portanto, a hora é essa.

Tudo a calhar, para eliminar qualquer devaneio continuísta, sem falar de algo que a experiência não deixa mentir: tomado pelo tédio, pela mesmície ou pelos vícios, o segundo mandato de Fernando Henrique, de Lula e Dilma sempre se revelou inferior ao primeiro.

A reeleição, devidamente substituída e compensada por uma gestão de cinco ou seis anos, seria solução ideal, como têm assegurado os estudiosos; e parece difícil deles discordar. Nossa experiência nesse campo inaugurou-se sob temores de corrupção deslavada, com a compra de votos de deputados que se simpatizassem com a causa. Denunciou-se, na feira compradora, que o voto chegou a valer 250 mil, desperdício de dinheiro, porque voto corrompido não pode valer tanto. Beneficiário, Fernando Henrique sempre diz nada ter a ver com aquela malandragem, embora tivesse tempo suficiente para denunciá-la e desautorizá-la.

Defeitos cristalizados ajudam a sepultar qualquer expectativa de bons resultados, porque a reeleição expõe um defeito medular, sem ser preciso citar outros: quem ganha quatro anos no poder já vai se consumindo em sonhos, canetadas e ideias para assegurar um novo mandato. O ano final sempre foi um rosário de composições e favores, para confirmar o que a História já sabia e advertia: a reeleição é estranha à tradição republicana, apenas rompida com Vargas na década de 30. Nem os militares de 64 ousaram tanto.

A pacificação

Indagava-se, na semana passada, sobre os ombros mais eficientes nos quais devêssemos lançar esperanças para a pacificação da política, arranhada e exausta de tantos embates da recente campanha eleitoral. O próprio Papa Francisco, que tem guerras internas e externas para preocupar o pontificado, diz estar rezando para o Brasil superar as desavenças. À caça à hipotética figura capaz de assumir tal tarefa soma-se a opinião de quem acha que para executá-la seria conveniente chamar, em primeiro lugar, os partidos. Sem estes, os esforços fracassariam. E não são poucos os que pensam assim.

Mas, nesse caso, a tarefa, mais ingente que se imagina, demandaria um longo tempo; talvez tão duradouro quanto o próximo mandato presidencial. A começar pelas duas legendas que disputaram até o último minuto – PL e PT – que têm planos próprios para suas pazes particulares, ou para continuarem desafiando os adversários. Não há como contar com eles, pelo menos para tratamento emergencial. Quanto aos demais, ou saíram derrotados ou encontram-se apensados em federações, que, nascidas há um ano, já deram sinais de que não sobreviverão. Muito menos com força e prestígio para atuar em qualquer projeto de harmonização.

Ainda flutua ao vento a pergunta sobre figura capaz de levantar a bandeira branca nesse chão político que recente campanha deixou ferido e fumegante. Não faltaria mesmo a ideia de a missão ser confiada ao Judiciário, que, muitas vezes, em sua longa história, foi convocado a aplicar panos quentes sobre as crises e abafar litígios. Pode ser, mas não desta vez, quando o país queda à força da ditadura togada. Como creditar aos tribunais esse delicado papel?, se o Supremo e o Eleitoral fomentaram, com invejável desenvoltura, os incêndios que pretendemos apagar. As condutas preferenciais sobre candidatos que referida ditadura praticou deixam claro que não seriam seus ministros portadores adequados para o encargo.

Daí concluir-se que, de tão carentes de emissários, o que resta para reaproximar lideranças divididas, é esperar que elas próprias, vitoriosas e derrotadas, sinalizem logo seus planos de vida ou sobrevida, sabendo que, prolongadamente beligerantes, também terão um preço a pagar.