sábado, 14 de maio de 2016





SOB NOVO GOVERNO



1) Sob algum aspecto o presidente Temer reedita para si o desafio de Prudente de Morais, primeiro civil no cargo e primeiro eleito pelo voto universal. Como? É o apelo à pacificação política do País, cheio de ódios e ressentimentos. Com Prudente também foi preciso vencer a oposição saudosista, que hoje são os petistas; naquele tempo eram os monarquistas.

Não é tarefa muito fácil, mas tem de ser enfrentada.


2) Na sua primeira entrevista coletiva os ministros do novo governo não conseguiram esconder que estão diante de um elenco de problemas bem maiores que aqueles que esperavam encontrar. Uma amostra é a que está baseada em conclusão do Tribunal de Contas da União: mais de 100 mil bolsas-família são pagas com irregularidades, entre as quais o desvio de finalidade.


3) Missão para o ministro José Serra, que vai comandar a política externa, é vencer a má vontade da imprensa estrangeira em relação ao governo Temer. Não há um único jornal da Europa que não o hostilize. Os europeu adotaram a ideia do golpe.


4) O PMDB agora é telhado. O PT é a pedra. Apenas para atualizar velho ditado que a vida continua a confirmar.


5) A crise política em que o País se envolveu, aliada às expectativas em torno da formação do novo governo, não estimulou, na verdade arrefeceu a tarefa dos partidos de construir as chapas dos candidatos a prefeito e vereador que vão concorrer em outubro. Para tanto, supunha-se até que um eventual agravamento dos problemas pudesse recomendar o adiamento  das eleições.

Os partidos e as alianças têm mais um mês para definir suas candidaturas, preparando-as para as convenções.


6) Ainda abalado com o afastamento da presidente, o que representou seu maior acidente político, o PT tem agora de voltar os holofotes para o governador Fernando Pimentel, sobre quem pesam denúncias muito mais graves que aquelas em que Dilma tropeçou.

Não apenas o governador de Minas, mas também a primeira-dama está sob suspeita de enriquecimento com recursos extras da campanha eleitoral. Procurando poupa-la, Pimentel a nomeou para integrar o Secretariado, mas a Justiça considerou o ato ilegal, o que a obriga a estar exposta às luzes do Ministério Público.


7) Diz Henrique Meireles, ministro da Fazenda: é preferível o pouco do que o nada. Em resumo, o recado aos aposentados, que ganham como único aceno imediato a manutenção dos benefícios tal como se encontram. Por hora, nada mais que isso.







quarta-feira, 11 de maio de 2016




SUMIU


Não há quem possa dar notícias sobre o paradeiro do senador José Sarney, que tem o condão de se transformar em fluido nos momentos inconvenientes. Volatiza-se. Nesse particular parece que vai tendo em Lula um aluno aplicado. Para quem foi presidente da República, ainda que acidentalmente, como agora será Michel Temer, esperava-se que Sarney aparecesse. Nem que fosse palpitar.



SÍMBOLO 

O deputado Waldir Maranhão, que em menos de dez horas, como presidente interino da Câmara, assinou ato impugnando o  processo de impeachment de dona Dilma, e logo o revogou, passa à história como símbolo da indigência parlamentar brasileira. Alvo de chacota internacional, nem mesmo teve sensibilidade para perceber que naquele ato estava apenas sendo instrumento de um abuso do governo e de quantos tentavam desesperadamente salvar a presidente do desastre final. Cometeu suprema indecência.

Começou por atropelar 70% dos votos de seus colegas deputados que votam pelo processo, para depois confessar, de boca fechada, sua insegurança com a atitude esdrúxula.
Não resta à Câmara outro caminho que não a cassação de seu mandato.



DEBOCHE


Inspirada no lamentável episódio do deputado Maranhão ao propor o cancelamento do processo de impeachment de Dilma, a internet saiu com esta:  Collor pede revisão de seu processo de impeachment por alegar supostas irregularidades. D. Pedro II aproveita para pedir revisão da Proclamação da República pelo golpista Marechal Deodoro da Fonseca. Tiradentes viu brecha para pedir seu desenforcamento e Pedro Álvares Cabral se disse arrependido de ter descoberto esta terra e pede para retirar seu nome dos livros de história...



CINEMA


Neste mês transcorre o centenário de nascimento de Jurandyr Noronha, que figura entre esses juiz-foranos ilustres que a cidade ousa ignorar. Noronha morreu no ano passado no Rio de Janeiro, onde residia há tempos. Pioneiro da pesquisa do cinema brasileiro, produziu também “No tempo da manivela”, filmes do período 1898-1930. E é autor do Dicionário do Cinema Brasileiro.



DIREITO


Das queixas que surgem de todos os lados sobre a retração do mercado de trabalho não escapam os advogados, que têm lamentado o desaparecimento dos clientes. Estes, empobrecidos, preferem adiar suas postulações junto à Justiça. Alguns advogados explicam, entre os fenômenos da retração, o fato de em Juiz de Fora estarem funcionando nove cursos de Direito.



MAQUETES


Sugestão para a noite desta quinta-feira: conhecer a exposição de maquetes históricas e reduzidas que com Alexandre Fioravante perpetua algumas construções da cidade. Ele recebe no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas a partir de 19 horas.




CALDO AMARGO


O presidente Michel Temer não terá como fugir da prescrição de remédios amargos para corrigir, tão rápido como for possível, o grande rombo na economia que vai receber como herança de Dona Dilma. No conjunto, os déficits chegam a 1 trilhão! Pois com as enfermidades da política econômica nesse dimensão, a receita promete coisas como os antigos purgantes, que não permitiam saber se era pior o gosto do remédio ou o do mal-estar. É o caso da Previdência, que despenca célere para a UTI, e requer uma cirurgia profunda e dolorosa.


Há de ter coragem o presidente para enfrentar os narizes torcidos, a começar pela base aliada, sempre ávida em torno dos ministérios, dez do quais já vão fechar as portas. 





terça-feira, 10 de maio de 2016




DOENTE TERMINAL 


A sabedoria de uma nação (não é de hoje que se fala) só pode ser medida com a sua capacidade de aprender as lições das tragédias que o destino coloca à sua frente.  Em cada tropeço há uma razão para corrigir a rota da caminhada. Até porque, tanto para os povos como para as individualidades é caminhando que se descobre o caminho. Tudo isto para dizer que é da atual crise, grave crise, que o Brasil tem de extrair proveitosas lições. Uma delas, talvez a mais importante de todas, é que se exauriu, esgotou-se esse presidencialismo fajuto, que se baseia no modelo de coalizão clientelista e cartorial. Não dá mais para conviver com os vícios tão antigos que já eram objeto de preocupação de Rui: “O presidencialismo brasileiro não é se não a ditadura do estado crônico, a irresponsabilidade geral, a irresponsabilidade sistemática do Poder Executivo”. Não há negá-lo.

À antiga inconveniência que Rui identificou somaram-se outras como obra do tempo e dos modos. Crises em cima de crises produziram nesse presidencialismo, há muito em estado terminal, uma quase secular intranquilidade social. As instituições e a política no Brasil vivem aos solavancos. É preciso romper com essa nefasta tradição.

Amanhã dona Dilma entra em recesso de seis meses, que certamente se estenderão por dois anos.  Mas a desejada saída não pode desconhecer que estamos inaugurando mais uma temporada de sacrifícios, porque é largo e fundo o rombo que ela vai deixar e que promete ampliar numa onda de oposição sistemática. Mas valerá o sacrifício se começarmos a enterrar o presidencialismo velho e velhaco. Melhor ainda se caminharmos para o ideal, que é o parlamentarismo.



CRUELDADE


A política, quando mergulhada no jogo de interesses desenfreado, é capaz de perder a medida das maldades, que se tornam incontroláveis, capazes de tudo. Agora, num derradeiro e desesperado esforço para ficar de pé em muletas, o governo, através do advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, aproveita-se de um despreparado, acidentalmente presidente da Câmara dos Deputados, para arquitetar a monstruosidade de sustar o julgamento do impeachment da presidente da República, matéria vencida naquele âmbito legislativo, mas já sob a responsabilidade do Senado Federal. Empurraram o pobre deputado Waldir Maranhão numa cilada; certamente ele para esse papel, próximo do simplório, espécie de pau-mandado, imune ao ridículo, universal modelo do trabalho servil. E o colocam como protagonista de uma encenação bufa, que horrorizou a todos, até mesmo a um Renan. Imaginem.

Os governistas que patrocinaram esse ridículo expuseram seu arsenal de crueldade. Pecado capital e imperdoável por terem usado e abusado de um pobre coitado que sai do episódio como um bobão.








sexta-feira, 6 de maio de 2016







ONDE TUDO É POSSÍVEL


Não há quem seja capaz de apostar muitas fichas no futuro imediato da política brasileira, que conserva a tradição de criar surpresas; surpresas que podem sair de qualquer gabinete, a qualquer hora, mesmo nos ambientes mais sóbrios, para desmentir o Barão de Itararé: de onde menos se espera é que não sai mesmo nada. No Brasil sai.

Parece que a inesperada decisão do ministro Teori Zavascki de tirar Eduardo Cunha da presidência da Câmara, além de privá-lo do mandato, tem tudo a  ver com algo fantástico que se tramava no Supremo:  com inspiração no ministro Marco Aurélio,  o que teria sido decidido ontem era não apenas a remoção de Cunha, mas tornando sem efeito todas as iniciativas por ele tomadas, inclusive o processo de impeachment da presidente Dilma. Plano que Teori fez abortar em cima da hora.

Pode-se imaginar o tumulto em que o Brasil estaria mergulhado se, nesta altura dos acontecimentos, em véspera da destituição da presidente, a suprema Corte mandasse dizer: tudo sem efeito.

Quem conhece Eduardo Cunha, suas habilidades e capacidade de nadar em mares revoltos recomenda que ele ainda não seja tratado como peixe morto.


 O QUE MUDA


As conversações sobre a sucessão municipal e suas implicações estão em suspenso. Aqui  e em qualquer outra parte do Brasil, porque todos esperam que a política nacional ganhe alguns graus de confiança ou que remova parte da escuridão em que se vê mergulhada há meses. Sem isso, como definir as bases das campanhas dos candidatos a prefeito em cidades de maior expressão?

No caso de Juiz de Fora, depois  de definida a candidatura à reeleição do prefeito Bruno Siqueira, a formatação das alianças do PMDB parou no que vinha sendo tratado com o PSDB. Esperar para ver como vão soprar os ventos  de Brasília. Não estão  esgotados os detalhes.


Mas, em relação a Bruno, a principal novidade virá na próxima semana, quando seu partido, PMDB, estará no poder central, e com a participação dos tucanos, com quem ele deverá contar na sua aliança. O prefeito poderá dizer aos eleitores que agora a cidade tem tudo para ganhar o que lhe tem sido negado pelo governo do PT.








quinta-feira, 5 de maio de 2016



PONTO FINAL 



O relatório do senador Antônio Anastasia propondo a admissibilidade do processo contra a presidente Dilma, o que nas próximas horas resultará no seu afastamento, parece ter posto um ponto final nos esforços do PT para defendê-la. O partido e o ex-presidente Lula, este já desaparecido, devem admitir, sem alimentar maiores sonhos, que o impedimento por seis meses nada mais é que uma espécie de aviso prévio. Se no cargo ela não teve força e prestígio suficientes para se manter, não os terá na reclusão do Alvorada, residência que, aliás, ela não devia aceitar. É uma humilhação ser condenada a morar na cozinha, depois dos regalos da melhor das salas da casa.

Mas o que é essencial neste momento é a previsão, sustentada por sólidos indícios, de que dona Dilma vai assistir ao abandono total por parte do PT e demais aliados, leais no velório e no acompanhamento do enterro, mas não ao ponto de morar na cova com o finado governo. A presidente sabe disso e sente isso, quando vê despovoados de ministros os corredores e os gabinetes do palácio. Ausentes ministros e assessores, sem esperanças na sobrevivência, parentes de um enfermo desenganado.  

Chegou a hora de o PT começar a pensar no seu futuro e retomar o discurso de oposição, esse mesmo discurso que o levou a derrubar o PSDB e a ganhar o poder. E nessa hora não cabe sentimentalismos e saudades. Veremos. 





quarta-feira, 4 de maio de 2016





A VEZ DO LEÃO


A se tomar por base o primeiro relatório da Receita sobre o volume das declarações de renda apresentadas na semana passada, quando expirou o prazo para o cumprimento dessa obrigação, o número de faltosos neste ano será significativo, sem considerar os que praticaram omissões e, portanto, ficam sujeitos à malha fina. Imposto todos têm de pagar, ainda que protestando o fato de não ser aplicado, não reverter à sociedade como devia ser. Educação, saúde, transportes em situação caótica, além da corrupção, explicam a cara feia do contribuinte.

Mas o poder é forte, é preciso pagar, mesmo com choro, como escreveu José Nêumanne Pinto em “A ceia da aranha” para lembrar aquela passagem mitológica da conversa de Júpiter com a ovelha: são injustos e odiosos, além disso contra a lei, os sucessivos sustos com que os lobos  afligem. É melhor, entretanto, que suportes com paciência os agravos. A questão é que o lobo é forte demais para não ter razão.

Sobre o Imposto de Renda é oportunamente citado o professor Miguel Reale. A  maior prova do estado catatônico em que mergulhou a sociedade brasileira é o próprio símbolo do Fisco Federal, o leão, o rei das feras, aquele que sempre reserva para si, sem a menor cerimônia, o mais suculento naco da injusta divisão.


Ainda Nêumanne, que dispensa apresentação: “O estado-devedor se dá o direito da inadimplência impune; o brasileiro é vítima da farra sodomita que o monstro estatal promove porque não precisa  pagar”.




terça-feira, 3 de maio de 2016






Homem forte


Com a decisão do vice Michel Temer de  atribuir a Henrique Meireles, e somente a ele,  a tarefa de falar sobre a política econômica que será adotada no pós-Dilma depreende-se que aos demais colaboradores fica vedado tratar do assunto. Decisão que permite concluir que serão tomadas medidas de alta complexidade. O discurso será único e com interpretação alinhada com um conjunto de decisões políticas.

A volta de Meireles  deve causar algum constrangimento à presidente Dilma. Assim como Temer, ela também o desejou para o Ministério da Fazenda. Quem não deixou foi Lula.  De forma que em seu projeto de atacar a política do sucessor  fica para a presidente o entrave da  coerência.


 Noemi


Dona Noemi Teixeira Vieira morreu aos 107 anos. Foi sepultada ontem, depois de longa e prolifera existência. Foi a primeira secretária do Instituto Santo Tomás ide Aquino, tarefa  que assumiu há 60 anos a convite do fundador, professor Joaquim Ribeiro de Oliveira. Escritora, dava-se ao luxo de usar o manuscrito, pois gozava do privilégio de excelente caligrafia.



Aos jovens


Na  sexta-feira, foi o ex-senador Pedro Simon, durante sua visita ao Instituto Itamar Franco;  ontem, o ex-presidente Fernando Henrique, em debate na TV Band;  pouco antes, o ex-ministro Delfim Neto.  Discurso único: o Brasil precisa começar a mobilizar os jovens, como forma de instalar nova forma de lidar com o poder público, sem maiores vícios. O exemplo estaria nessa nova geração de juízes e promotores, uma  geração disposta a passar o País a limpo.



Acerto


Dirigentes do PMDB  e do PSDB têm conversado em Belo Horizonte sobre detalhes da aliança já acertada em torno da candidatura do prefeito Bruno Siqueira à reeleição.



Receita


Amigos e médicos voltam a recomendar ao ex-presidente Lula que se abstenha de longos discursos e cuide da rouquidão agravada, sob pena de perder a voz. Ele chegou tão próximo de uma afonia que nem sempre é possível entender o que diz. Por isso, poucos se assustaram  quando em recente comício lembrou o sacrifício de Tiradentes, que segundo ele foi um herói crucificado...