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quinta-feira, 31 de março de 2016
PONTO OBSCURO
Como testemunha ocular e indignada daquela
tarde de 31 de março de 64, quando se consolidou, numa proclamação do
general Mourão Filho, o golpe contra o governo Goulart, as instituições e, por
fim, contra a liberdade, alguns colegas pedem minha opinião sobre aquele
episódio, passado mais de meio século. Digo que o tempo já se encarregou
de exorcizar duas antigas dúvidas. A primeira dúvida refere-se ao falado
projeto do governo de então de instalar no Brasil a república comuno-sindicalista,
o que ficou historicamente desmentido. O argumento foi para o arquivo de
pretextos grosseiros dos contrários. A segunda nuvem que se dissipou dizia
respeito ao real interesse do governo Kennedy de ajudar, no que fosse
necessário, para o êxito do golpe. O interesse está cabalmente comprovado.
Resta uma terceira questão, esta instigante
até os dias atuais, e sobre a qual ainda se debruça: o que faziam ou
deixaram de fazer os serviços de inteligência e contra-informação do Palácio
que não advertiram o presidente Goulart, afora breves insinuações,
de que estava em curso uma sublevação militar com apoio de segmentos da
política, de setores conservadores da Igreja e empresariais temerosos de se
verem tragado pelo comunismo?
A estranheza encontra campo fértil para as
indagações, mesmo passados 52 anos. Não se compreende tamanho despreparo, ainda
que se considere eventual engajamento de alguns oficiais comprometidos com o
projeto de apear o presidente constitucionalmente empossado. Pois os preparativos
para o golpe se faziam às claras, sem segredos. Em Juiz de Fora, a imprensa
cobria os sucessivos encontros, no aeroporto da Serrinha, entre o governador
Magalhães Pinto, o general Mourão e assessores de ambos. Tramava-se
abertamente. Nas horas que antecederam a proclamação do reduto golpista já se
efetuavam algumas prisões, jornalistas “suspeitos” eram vigiados, postos de
gasolina instruídos a não esgotarem suas reservas de gasolina, pois as tropas
precisariam de uma cota extra para “eventuais deslocamentos”. Nos quartéis,
oficiais descontentes com o golpe em curso eram convidados, com a tropa
formada, a dar um passo à frente e já ficaram detidos. Os setores de correios e
telefonia haviam sido tomados de véspera.
E o governo não viu isso.
MODELO DE CAMPANHA
É muito cedo para falar sobre o
que as candidaturas a prefeito vão dizer à cidade. Elas sabem apenas que
enfrentarão uma campanha vigorosa e pobre de recursos financeiros, retrato do momento
que estamos vivendo neste Brasil cheio de dúvidas.
Mas parece que o prefeito Bruno
Siqueira, do PMDB, dá a partida e passa a considerar alguns parâmetros para
chegar ao eleitorado na jornada que se avizinha; jornada que sinaliza algumas
marcas diferenciadas, entre as quais, como se disse, a duração relâmpago e a
escassez de recursos. Para falar ao eleitor, o primeiro passo que vai cumprir,
segundo ouço de assessores imediatos, é a transparência. Nada ficará sem ser
mostrado às claras. Preto no branco. Um modelo de seriedade pronto para
contrastar com eventuais projetos demagógicos. Exemplo disso seria mostrar o
que se tem conseguido fazer, ainda que com muito pouco do dinheiro sumido no
vendaval da crise financeira que se abate sobre o País.
Na sua campanha a arma seria
mostrar o que a população precisa saber, como as obras nos bairros ( a
Administração garante que nunca se fez tanto por eles). E predomina a intenção
de hospedar a prestação de contas e os novos projetos não apenas nos programas
de rádio e TV da Justiça Eleitoral, mas optar por uma conversa franca nas redes
sociais. Estas cada vez mais essenciais, até porque, segundo os especialistas,
em grupo de dez pessoas pelo menos quatro se orientam através delas. Eis um
salto na política de comunicação em processos eleitorais no município.
Além do mais, espera-se uma
campanha atípica. Primeiro pelo fato de ela se realizar no rastro ou no
rescaldo dos escombros de sucessivas crises que intercalam dificuldades
financeiras e políticas para a população. Situação assim leva ao risco de se
criar um útero fértil para a geração de oportunistas ou demagogos. Foi o que se
deu na década de 80, com a eleição de alberto bejani, protagonista de um
momento abjeto na história política municipal.
O eleitor, ainda que não tenha
sido contemporâneo de tal tragédia, precisa se informar e ter em mente que até hoje
estamos pagando por aquele pecado cívico.
Outro cuidado, que dizemos nós,
não os assessores do prefeito, é que as redes sociais vêm se tornando veículo
auspicioso para a intolerância, xingamentos e ofensas gratuitas sob o escuro do
anonimato. É preciso adotá-las como fonte de informação e diálogo; nunca
instrumento de guerra virtual de baixo nível.
quarta-feira, 30 de março de 2016
MOMENTO POLÍTICO
1
- Uma coisa que o alto comando do PMDB não pode negar é que a decisão de
desembarcar do governo Dilma coincide, num prazo não muito longo nem muito
curto, com o projeto de chegar ao poder, tomando-se os cuidados necessários
para que isso seja resultado não de conspiração mas dos próprios tropeços do
PT. As críticas feitas ao governo não escapam das vias legais, mas o sonho é
mesmo levar Temer a assumir a cadeira de Dilma, e a ela debitando todas as
culpas. Interessantes os cuidados que estão sendo mantidos, um deles é que na
reunião relâmpago que votou o desenlace providenciou-se para que a decisão se
fizesse por aclamação. Claro, o partido quis preserva a impessoalidade da
votação. Em um plenário onde se aclama, a decisão não tem rosto. Ninguém tem de
enfrentar constrangimentos nem ser cobrado, se a coisa acabar não dando certo e
se dona Dilma se recompuser, mesmo que hoje isso pareça impossível.
A
aclamação não foi um gesto de unanimidade, mas de impessoalidade, o que também
pode ajudar o partido a escamotear o fato de diretórios de cinco estados não
terem comparecido. Dispensada a contagem dos votos substituídos pelas palmas
evitou-se também a obrigação de expor setores contrários ao desembarque, estes
em monumental minoria.
Se
obtiver êxito o plano de substituir dona Dilma, o PMDB terá de exercitar a arte
de enfrentar os desgastes do poder, porque há tempos que usufrui os benefícios
decorrentes de uma maioria no Congresso sem ter de batalhar muito. O partido
gostou do papel de amigo do rei, sem os aborrecimentos do reinado. Eis a
novidade que pode ocorrer.
2
– Sobre as imensas dificuldades do governo, vale citar a situação de
constrangimento da ministra da Agricultura, Kátia Abreu. Ela decidiu enfrentar
seu partido, o PMDB, diz que não cumpre a ordem de entregar o cargo, e não se
desfilia. Mas corre o risco de sair à força, poque todos os órgãos de
representação da agricultura e pecuária do País apóiam o impeachment da
presidente Dilma. Kátia não tem com quem conversar no ministério. Ao seu redor,
todos contra.
3
– O deputado tucano Marcus Pestana não mais alimenta dúvidas quanto ao próximo
fim do governo Dilma. Ontem ele arriscou um placar para a Comissão Processante
do impeachment: 40 a favor e 25 contra. Com isso, a proposta seguiria para o
plenário, onde o deputado acha que a matéria contará com 342 votos necessários
para subir ao Senado.
terça-feira, 29 de março de 2016
CASCATA PERIGOSA
Já desesperançoso quanto à sua capacidade
de articular politicamente e impedir o fim do apoio do PMDB, de quem tanta
precisa, o governo Dilma partiu logo para uma operação compensatória, convidando
pequenos partidos ao embarque, contentando-se com os cargos que ficarão vagos
com a revoada peemedebista. Mesmo que isso lhe custe ter de engolir no Palácio
deputados rigorosamente inexpressivos ou incompetentes. Mas esta é hora de
fechar buracos e tentar garantir a base parlamentar a qualquer custo. A hora é
de arrumar a viagem com a tropa possível.
O caminho, para quem está pisando o lodaçal
da incerteza, nessa crise sem precedentes, é esse mesmo. Contar quantidade e
não qualidade.
Há, contudo, um problema que pode vir a
furo proximamente. Na verdade, esses partidos nanicos chamados a agarrar
o remo do barco presidencial são os mesmos que, sem nenhum remorso, darão adeus
à comandante, e a abandonarão se sentirem que o poder corre para as mãos de
Michel Temer. Portanto, o que se está conseguindo nada mais é que adesão
circunstancial. Nada mais se pode esperar desses pequenos que jamais sonharam
com um ministério e a ele são alçados como marinheiros únicos na hora do
naufrágio.
AO SACRIFÍCIO
Considerada a delicadíssima situação em que
se encontra o governo, quando amigos saltam fora e bem em cima das cabeças
palacianas zumbe o fantasma do impeachment, a presidente Dilma precisa muito
mais do que adesões momentâneas e ocasionais. Ela precisa ter ao lado alguém
com dedicação inquestionável, capaz de dar a vida para evitar o desastre.
Alguém que se ponha à frente dela para receber os impactos da crise que
atira por todos os lados. Um verdadeiro herói, depois do fiasco de confiar em
Lula, cuja fragilidade atual se compara àquela que ela escolheu para sucedê-lo.
Nessa guerra quem vai ser o escudo
inexpugnável da presidente? Herói?. Que raça rara de gente!. Só se conhece o
marechal Machado Bitencourt, que em 1897 entrou na frente de Prudente de Morais
e morreu ao receber a punhalada que Marcelino Bispo de Melo endereçava ao
presidente.
segunda-feira, 28 de março de 2016
História
Há dias,
coincidindo com a visita do vice-governador Antônio Andrade, o PMDB inaugurou
em sua sede a galeria dos prefeitos que a legenda elegeu em seu meio século de
atuação política em Juiz de Fora. Uma história que começou em 1966 com o MDB. A
partir daí foram eleitos e exerceram o cargo Itamar Franco, Saulo Moreira,
Agostinho Pestana, Tarcísio Delgado e Bruno Siqueira. Acresce o fato de ter um
representante seu, Tarcísio, ocupado a liderança da bancada na Câmara dos
Deputados num dos momentos mais sensíveis do debate político.
Tudo isto já
foi dito. Não é novidade. O que vale lembrar é que, com mais de 50 anos
comandando a administração municipal, o partido precisa ter sua história
gravada em livro. Antes que partam alguns que testemunharam.
Aliança
Com as
mudanças que acabam de ocorrer na órbita partidária, a começar pelo novo perfil
das bancadas na Câmara Municipal, é chegado o momento de traçar a linha das
alianças que vão ajudar o prefeito Bruno Siqueira na campanha da reeleição.
Fatos novos podem ocorrer até as convenções e durante elas. Mas, observada a
posição adotada pelos vereadores, parece certo que o prefeito terá como manter
uma aliança majoritária.
São Tomé
A direção nacional
do PMDB faz as contas, avalia os votos, mede as pressões e chega à
conclusão de que tem número suficiente no diretório nacional para anunciar,
amanhã, seu desenlace com o governo Dilma. Fato que seria suficiente para
comprometer de vez a governabilidade do PT e o comando da presidente Dilma.
Os cálculos
para o desembarque estão corretos. Mas não totalmente seguros, porque o partido
tem uma tradição de boa convivência com o poder. Muitos preferem reeditar o São
Tomé do cenário da Semana Santa. Só acreditam quando colocarem o dedo no fato
consumado.
Contudo....
O clima no
governo é de desânimo. Contabilizam-se os efeitos da retirada do poderoso
aliado e a cascata de adeus que pode acontecer logo depois. Reina desânimo
misturado com preocupação, provocando aquela habitual sonolência de fim de
governo, como diria o ex-ministro Ibrahim Abi-Ackel.
quinta-feira, 24 de março de 2016
PMDB, UM CIRINEU
Caminha
a presidente Dilma por essa via dolorosa que ainda ontem ela voltou a definir
como caminho do golpe, exercitando-se para não reconhecer que, na verdade, está
andando em cima de buracos abertos por picaretas e resvalando em abismos
construídos pelas muitas picaretagens de sua própria gente. Está disposta a
camuflar a herança que já seria muito pesada, mesmo que não se devesse a ela
alguns acréscimos às suspeitas e ao emaranhado de denúncias que o Lava Jato faz
sangrar.
(Mas
na intimidade da inevitável consciência do fim da noite, longe das câmeras, a
presidente deve saber que parte de suas dificuldades está exatamente nesse
imenso esforço para transferir aos contrários os pecados que começaram e
prosperaram na copa e cozinha do governo de seu antecessor).
Seja
como for, à medida em que as costas presidenciais vão se esfolando sob o
chicote da crise e ela perdendo o fôlego para carregar a cruz, é preciso
agarrar o Cirineu mais próximo do seu Calvário, o velho PMDB, que vem de uma
tradição de socorrer aflitos que sangram, mas farisaicamente cobrando caro para
desempenhar esse papel. Ao governo o partido nada mais oferece além da
expectativa de uma solução prevista para o dia 29. Desembarca da
solidariedade circunstancial ou fica? O que se diz em Brasília é que 60% dos
votos do diretório nacional são pela ruptura com um governo que entendem
já irremediavelmente soçobrado. Contudo, em se tratando do PMDB, ideal é
uma certa dose de cautela. Fica a dúvida para o dia 29. Qual será o papel do
partido? O Cirineu solidário na agonia ou Pilatos que lava as mãos, nada tem a
ver com isso e manda crucificar?
CULPADA DE SEMPRE
Seria
injusto e manifesta ignorância histórica acusar a presidente Dilma de inovar,
quando atribui à mídia a responsabilidade por arrastar o País para a crise em
que encontra; crise de tal forma grave, que se torna impossível prever solução
próxima. Não é ela a primeira, nem será única a apelar para esse discurso, pois
antes a tal receituário muitas vezes recorreram políticos em maus lençóis.
Houve uma dirigente partidária, deputada Ivete Vargas, do PTB, que produzia um
libelo diário contra os jornalistas. História antiga.
A
presidente Dilma faz lembrar certos reis da Antiguidade, que mandavam matar os
mensageiros de más notícias. Bastava o cavaleiro chegar para dizer que a
batalha estava perdida. Matem o sujeito que traz notícias inconvenientes.
ESSENCIAL E PERIFÉRICO
Voltamos
à presidente Dilma, certamente a maior e mais generosa fonte de novidades. De
novo ela desafia nossa memória em relação ao grampo com que a polícia,
autorizada, gravou o conteúdo de um telefonema seu com o ex-presidente Lula na
outra ponta da ligação. Ameaçou ela: “Façam isso nos Estados Unidos e vejam o
que acontece”. Pois se fez. Um telefonema grampeado do presidente Richard Nixon
só não lhe custou o impeachment porque ele renunciou antes.
Outro
aspecto em torno do mesmo episódio é que ela e o governo falam apenas da
divulgação do diálogo Dilma – Lula, uma publicação que é realmente discutível.
A Justiça pode ter exorbitado. Mas nada se fala sobre o essencial da gravação,
que é muito mais grave, pois oferece o mais importante e influente ministério a
alguém que precisava disso para escapar da prisão iminente. Isso é muito mais
sério que a quebra de discutível privacidade. Não se tratava de conversa de
portadores de paixões discretas ou namoros em risco, mas assunto de relevância
nacional.
TUDO PODE PIORAR
Velhos
irlandeses e chineses, e depois deles muitos outros povos buscaram suas
seculares experiências para ensinar o necessário comedimento nas queixas.
Diziam eles e dizemos nós hoje que nada na vida é tão ruim que não possa
piorar. Lembremo-nos disso quando se dá conta de estarem reunidos em Brasília
Renan Calheiros, Lula e José Sarney, este há tempos esquecido, cuja
ressurreição vem fora de hora. O que tramam esses sumos sacerdotes no Sinédrio?
quarta-feira, 23 de março de 2016
ORDEM DE COMANDO
Depois
de ter fixado em 29 a data para definir se permanece no governo ou dele
desembarca ao perceber que o barco faz água sem ter uma enseada segura à
frente, o PMDB tenta evitar qualquer responsabilidade direta no rumo dos
acontecimentos imediatos. É o que nos dizem os cientistas políticos e
jornalistas mais credenciados para elaborar tal análise. Contribuiria para
tanto as muitas incertezas que se acumulam no Palácio do Planalto.
O
clima de expectativa se estende a Juiz de Fora. No sábado, quando esteve na
cidade e se reuniu com o partido, o presidente regional Antônio Andrade
preferiu dizer apenas que aguarda orientação do presidente nacional, Michel
Temer, com quem tem mantido contatos freqüentes, apesar dos perigos do grampo
nos telefonemas. O vereador Antônio Aguiar, por sua vez, disse a Andrade
que em Juiz de Fora os peemedebistas esperam que ele sinalize a conduta a ser
adotada frente ao rompimento com o governo, o que para muitos já são favas contadas.
No Estado o partido espera Temer; na cidade espera a palavra de Andrade.
Há
um detalhe que escapou das conversas com o presidente. Tão sensível e delicada
a situação do governo Dilma é o quadro que se abre diante do governador
Fernando Pimentel. O que significa que às nuvens de Brasília Minas juntam as
suas próprias nuvens. Pimentel se debate com imensas dificuldades, uma delas
referente ao impasse com as folhas dos servidores, um problema que ainda não
atormenta o sono de dona Dilma.
ROGAI POR NÓS
A
partir desta segunda quinzena, como atestam muitos fiéis, os celebrantes das
missas passaram a fazer referência frequente à crise política do País, sem uma
clara tomada de posição, mas para pedir socorro e proteção dos céus em
momento tão difícil e sombrio. É hora de rezar e pedir a Deus que pelo
menos as coisas não se tornem piores.
Na
noite de ontem, encerrando na Catedral a cerimônia do Encontro, o arcebispo dom
Gil Antônio dirigiu as orações no sentido de que nos levem a uma pátria
sem a corrupção, como essa que tem revelado a Operação Lava Jato. Desejou
partidos e políticos com mãos limpas. Que nas próximas eleições estejamos
livres da corrupção, como também devemos rezar para que estejamos livres do
regime ateu. Precisamos, disse ele, de governo que não despreze o amor, a paz e
a serenidade.
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