terça-feira, 9 de julho de 2024

 



Palavras e promessas

(( Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Observa o presidente Lula que o discurso da campanha eleitoral deste ano haverá de se restringir a questões localizadas, do interesse imediato e direto das comunidades. É provável que tenha razão no que se refere, ao menos, aos pequenos municípios, porque, ali, o eleitor está frente a frente com o prefeito, que cuida do calçamento da rua, da água encanada, do posto de saúde, nomeia os amigos e demite os adversários. E conversam na farmácia e na festa de qualquer batizado.
Tal, contudo, certamente pode não valer para os grandes centros e metrópoles, onde se torna inevitável a abordagem dos temas nacionais, para tanto contribuindo o fato singular de os atores da grande disputa de 2022 ainda não terem desmontado seus palanques; pelo contrário, lulistas e bolsonaristas continuam sob relações ferocíssimas, que têm tudo para se projetarem na campanha que vai começar. Pessoalmente, presidente e ex-presidente têm se empenhado, com vigor, para manter vivos os embates nacionais, como se levassem em conta que, para seus projetos, ideal é que as próximas urnas se manifestem plebiscitariamente.
Sobre as pequenas cidades, além das observações já citadas, resta uma dúvida, considerando-se que têm prosperado dois temas polêmicos no país - aborto e descriminalização de drogas –, que são capazes de reunir, num púlpito comum, padres e pastores evangélicos. Se divergem em muitos pontos, não naquelas questões. Portanto, se quiserem, podem influir em comunidades do interior.
Sobre o discurso político. Para que o eleitor não se deixe enganar, conveniente é ter em mente que o pronunciamento de candidato sempre foi, e sempre será, uma proposta de ideal, do desejável. Muitas vezes o intangível, pouco a ver com o real. Ele fala em coisas com que sonha e com que sonham os eleitores. A propósito, cabe, por oportuno, uma palavra em defesa do presidente, sempre criticado nas redes sociais, porque, em campanha, propôs, para todos os brasileiros, “uma picanha passada na farinha, com uma cervejinha gelada no fim de semana”. Idiota foi quem acreditou nisso, porque Lula apenas prometia o ideal; e o ideal não tem compromisso íntimo com a realidade. Aqui e em qualquer lugar do mundo. De Gaulle, por exemplo, advertia que promessa de campanha só compromete a quem ouve.
De longa data, os candidatos sabem que o eleitor, principalmente o de limitadas instruções políticas, prefere ouvir só coisas agradáveis. Por que não pensar na picanha suculenta, em lugar das enchentes no Sul?. Demais, mensagens mais suaves têm a ver com esperança; a tal que é a última que morre. Por isso, ousar, numa campanha, abordar temas abomináveis é receita certa para perder votos.
Raríssimos os casos em que, na disputa pelo poder, alguém suba ao palanque para praticar um exercício de franqueza, como o caso citado pelo jornalista Sebastião Nery na sua Bahia. Coronel e vereador Nei Ferreira, candidato à reeleição em Vitória da Conquista:
“Eu sei que aqui tem 1.500 eleitores, que já prometeram votar em mim neste bairro. Mas, como eleitor é um animal muito safado, eu aceito a metade: 750 votos” …

Aos paulistas
O movimento Constitucionalista de 1932, cujo aniversário hoje se celebra, não teve o êxito esperado, mas deixou, como legado, o eterno ideal de uma Carta Magna séria e democrática, além da luta pelos direitos essenciais das unidades federativas. Exatamente o que todo o Brasil queria, mas sem a coragem dos paulistas, que foram às armas. A eles o país ficou devendo, igualmente, o reparo pela infâmia de terem sido acusados de levantar bandeira separatista, falso pretexto para abafar uma esperança nacional que prosperava; tanto prosperava, que Vargas confessou a Assis Chateaubriand a disposição de se suicidar, se a vitória da Revolução sorrisse para São Paulo. Essa mesma disposição sinistra ele repetiria para o general Pedro Aurélio de Góis Monteiro, a quem chegou a mostrar o revólver com que cumpriria a ameaça do autoextermínio, cometido 22 anos depois.


quarta-feira, 3 de julho de 2024

 




Eleição 2024 em pauta ( LXX)


MÃO PESADA

Já se falou aqui sobre os rigores da Súmula 73 do Tribunal Superior Eleitoral no caso de descumprimento da cota de gênero na formação das chapas de candidatos à vereança, sabido que elas têm de reservar uma participação mínima de 30% para mulheres. A burla no cumprimento de tal dispositivo é antiga, e para ela foi criada uma série de expedientes. A Justiça também define os recursos legais para incriminar mulheres que se prestam a participar das chapas como meras figurantes, sem nenhum interesse em se elegerem. Em Juiz de Fora, eleições passadas foram fartas no engenho para passar por cima da lei.
Mas o castigo promete ser mais pesado para os partidos que optarem pela burla. Ficam sujeitos à cassação do Demonstrativo de Regularidade de Atos Partidários, e tornam-se inelegíveis os que praticarem ou participarem da fraude. Em outro ponto, a mão do TSE promete ser mais rigorosa: vai determinar a nulidade dos votos obtidos pelo partido, com a automática recontagem dos quocientes eleitoral e partidário.

CONVENÇÃO
O PDT marcou para o dia 25, à noite, na Câmara, sua convenção municipal, para apresentação da chapa de candidatos à vereança, e, também, confirmar apoio à candidatura de reeleição da prefeita Margarida Salomão, em aliança com o PT.
Está confirmada a presença do presidente estadual do partido, deputado Mário Heringer.

VOLTA SÓ
Despedindo-se, em sua rápida visita à cidade, na sexta-feira, o presidente Lula prometeu vir, de novo, antes da eleição, mas, dessa vez, sem poder ter ao lado a prefeita Margarida Salomão. Por força da legislação eleitoral, a partir de amanhã, ela fica impedida de participar de atos públicos de inauguração, por ser candidata a um novo mandato.

VETERANO
Odelmo Leão, aos 87 anos, no quarto mandato de prefeito de Uberlândia, disputou e ganhou de Belo Horizonte e todas as cidades mineiras com mais de 100 mil habitantes, no concurso Cidades de Excelência, promovido pela Rede Band de Televisão. Ficou em primeiro lugar. Segundo os critérios do certame, a cidade de Odelmo prima, sobretudo, pela qualidade de vida da população.

IMPEACHMENT
No final da próxima semana, em local ainda não determinado, talvez até mesmo em praça pública, políticos e empresários direitistas pretendem se reunir, com o objetivo de engajar a cidade no movimento pela decretação do impeachment do presidente Lula. A campanha terá lançamento nacional, em Brasília, dia 30, voltada principalmente para o Congresso.
Na Câmara, o presidente Artur Lira tem mais de duas dezenas de pedidos, com tal pretensão. Muito difícil que prospere movimento nesse sentido. Mas, de certa foma, pode causar desgaste.

SEGUNDO O JB
“Há uma crença, no ralo das experiências políticas, que, se as opiniões são unânimes, melhor é deixar o problema para depois, adiar a providência que parece ser necessidade imediata; porque é na maturação que a solução brota. Pode ser, mas não desta vez, quando é inegável que o governo precisa rearticular, o mais rápido possível, suas relações com o Congresso e áreas produtivas, sob pena de ver crescerem as dificuldades, que, já hoje, tanto preocupam. É urgente debruçar sobre a forma de melhorar o diálogo e garantir resultados, sabido que há meses mostra-se fracassada a receita adotada, à custa de robustos favores a partidos, que só informalmente e ocasionalmente compõem a base parlamentar. Tudo isso, agravado desde a semana passada, quando o presidente e seus colaboradores empurraram para o colo de senadores e empresários a responsabilidade de criar alternativa compensatória, frente à desoneração das folhas de 17 setores com altos índices de emprego. Um inusitado jogo entre culpas e desculpas. Não se tinha visto algo semelhantes: já que uma proposta é recusada, em parte, no parlamento, que se jogue sobre ele missão que, preferencialmente, não lhe cabe”. “ (Extraído do “Jornal do Brasil”, 18 de junho)

DENÚNCIA
Na Comissão de Segurança Pública, o deputado Júnio Amaral, do PL, denunciou que, em Juiz de Fora e na região, a polícia está ficando sem condições de trabalhar. O responsável, segundo ele, é o promotor público Élvio Simões, que estaria limitando as ações na área de segurança, interferindo e constrangendo os policiais. Mais grave: “orientando criminosos para se defenderem, em favor da criminalidade”. Amaral acrescenta que são muitas as queixas.

RUMO À VEREANÇA
Faz sentido a luta entusiasmada que se trava nos partidos e nos bairros, com o objetivo de somar votos suficientes para que alguém se eleja vereador; faz sentido, porque, elegendo-se, tem ele garantia de um subsídio nunca inferior a R$ 20 mil por mês, durante quatro anos. Ainda agora, chamados a decidir, os atuais deram-se a um aumento, com exceção de cinco, que se sentiram constrangidos: Cida Oliveira, Antônio Aguiar, Maurício Delgado, Nílton Militão e Sargento Mello.
O vereador tem outras fontes de estímulo, a começar pelo fato de a Câmara colocar oito assessores à sua disposição. A equipe pode se ampliar, se ele contar com as boas graças da Mesa. Como também, encaixar algumas nomeações, se as graças se estenderem ao Executivo.
E, na Lei de Meios do próximo exercício, cada um poderá contar com emendas de até R$ 3 milhões.


Este 4 de julho é data significativa para a Igreja Católica de Juiz de Fora. Há 100 anos, 1924, o Vaticano estava publicando a bula de nomeação do Cônego Justino José de Santana para assumir o bispado que acabava de ser criado na cidade. Era vigário da obscura Canavieiras, no interior da Bahia. Aqui, durante 66 anos, conseguiu manter a linha católica dentro dos padrões conservadores, mas sempre dialogando com lideranças políticas que não rezaram em sua cartilha. Exceção apenas para os comunistas…

terça-feira, 2 de julho de 2024

 



É preciso descansar

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Uma assessoria política, que seja, ao mesmo tempo, competente e leal, deve estar sugerindo ao presidente Lula gozar um período de férias, trinta ou quarenta dias, tempo adequado para descansar das sobrecargas da governança, onde vem esbarrando com problemas monstruosos, além de ministros de difícil convivência; como também escaparia, temporariamente, das dificuldades em que se encontram suas relações com o Congresso. Porque nem a maravilhosa harmonia com o Supremo Tribunal, que lhe dá prestígio incondicional, tem aliviado os desencontros com deputados e senadores, muitos deles, infratores, guardados sob a capa e a boa vontade das togas. Cumprida metade do mandato, ele ainda não conseguiu remover obstáculos, refém de manobras, que certamente provocam degaste mental, facilmente somatizados. Em Belo Horizonte, na sexta-feira, disse que é capaz de trabalhar de 5 da manhã às 10 da noite, mas sabemos que não é bem assim.
Um breve ócio presidencial serviria, igualmente, para cuidar bem da saúde, testada por uma implacável campanha de desmoralização que lhe movem as redes sociais; de forma que em qualquer parte é hostilizado em tumultuadas aparições públicas. Nenhum político brasileiro passou por semelhante bombardeio. Sem precedente. Não há como aguentar. E a isso ele vem respondendo com atitudes de impaciência e revides. Nos discursos agitados, nota-se a fisionomia plúmbea, sinalizando a perturbação do humor. É urgente que descanse, antes que adoeça, o que seria péssimo, porque, é sabido de longa data: quando o presidente está enfermo, a nação adoece com ele.
(Lula não ficaria só, se não cuidar da saúde, como não ficaram sós outros que negligenciaram. Conta Pierre Accoce, em seu “Estes doentes que nos governam”, que Francisco Franco mergulharia a Espanha no seu parkinsonismo, da mesma forma que Eisenhower conseguiu transmitir para os americanos certos hábitos comuns do cardiopata que foi. No rastro do suicídio de Vargas, em 1954, o vice Café Filho gerou uma série de perturbações com o seu mais ou menos suspeito enfarto. João Figueiredo sabia dessas histórias, e, enquanto pôde, escondeu o coração adoecido. )
Às vezes, Lula tem confundido fatos históricos, datas e ideias, como ao dar às universidades federais prazo de um mês para que elaborem um projeto de Inteligência Artificial “bem brasileiro”, sem imitações estrangeiras… Falou sério, o que, se não denuncia escassa leitura em matéria de tamanha complexidade, mostra certa perturbação na linha de raciocínio. De outra vez, afirmou que a sobrevivência de seu partido, o PT, é dependente da existência de misérias, confissão saudada com alegria pelos adversários. Esses e outros episódios têm permitido imaginar que o estafado presidente pode caminhar para um colapso nervoso, fato que se agrava por obra e graça de alguns vapores etílicos.
Certamente, se alguém já lhe recomendou as férias, ele deve ter reagido, por considerá-las dispensáveis. Julga-se forte e muito bem de saúde. Mas é bom lembrar que faz parte das responsabilidades de um presidente procurar não cair enfermo, porque, quando isso acontece, provoca imensos prejuízos para a vida do país. Ele podia pensar nisso.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

 


Eleição 2024 em pauta ( LXIX)


COM AS MULHERES

O papel das mulheres no processo eleitoral sempre leva a duas vertentes. Advoga-se maior participação feminina nos destinos da política, mas elas recuam, quando chamadas a se baterem nas urnas, mesmo com a garantia legal de que os partidos têm de lhes destinar 30% das chapas de candidatos. Quase sempre, os partidos passam aperto para cumprir a cota legal, o que os obriga a lançar mão das costumeiras enganações.

Há casos, que não são raros, em que ocorre uma das duas versões: ou elas não querem disputar, ou, querendo, sofrem tenaz má vontade dos dirigentes partidários, que gostam de ver as chapas tomadas por homens experientes, com maiores chances de se elegerem.

Mas, doa a quem doer, vem aí a Súmula 73, do Tribunal Superior Eleitoral, que, ao mesmo tempo em que orienta, promete mão pesada sobre os infratores, os que pretendem dificultar o acesso às mulheres. Como também vai castigar as “laranjas”, que aceitam disputar, só para fazer número. As que “fazem de conta” que são candidatas à Câmara Municipal, não querem saber de votos, ganham algum dinheiro “por fora”, e vão descansar em Cabo Frio. Isso aconteceu inumeráveis vezes em eleições passadas.

A Súmula promete identificar as candidatas “de araque”. Como? As que zerarem votação, não terem despesas de campanha, ou, ainda, revelarem ausência de movimentação financeira.


QUESTÃO DE TETO

O Republicanos vem monitorando, ainda que com poucos dados disponíveis, o quadro de tendências dos principais colégios eleitorais em Minas. Aqui, o partido anima seu candidato a prefeito, Isauro Calais, lembrando que todos os seus concorrentes têm um teto de expectativas; isto é, um máximo tradicional de votação, que só poderiam vencer com muito esforço. No entendimento do partido, seu candidato em Juiz de Fora ainda não chegou ao teto.

Ontem, Calais foi a Brasília gravar pronunciamento de apoio do senador Cleitinho Azevedo.


TEMA AUSENTE

As campanhas eleitorais dos últimos 15 anos na cidade tiveram, como um dos temas preferenciais, a promessa de construção do Hospital Regional, apesar de sempre indicado como excessivamente custoso, inadequado e desnecessário. Um engodo dirigido ao eleitorado. As obras começaram em 2009, interrompidas em 2012, retomadas em 2013, novamente suspensas em 2017. Agora, o projeto é definitivamente sepultado.

Vejamos o que as lideranças políticas sobreviventes têm a dizer.


VICE NA TELA

Prospera, cada vez com menores resistências de ambos os lados, a aliança do MDB com o PSDB, tantas vezes adversários na política municipal, mas agora circunstancialmente aproximados. O resultado é ceder aos tucanos o direito de ocupar a vice na chapa de candidato a prefeito do ex-deputado Júlio Delgado. O nome acertado é Débora Lovisi, que já disputou, pelo partido, na eleição passada, uma cadeira na Assembleia.


A MÁQUINA

Dados confirmados pela Confederação Nacional dos Municípios indicam que, ao tentar a reeleição, os prefeitos sempre dispõem, sobre os concorrentes, da vantagem de terem a máquina à mão; isto é, o poder de colocar as prefeituras a serviço do projeto político. Em 2020 a recondução dos prefeitos bateu recorde: 63%. Mas já tinha estado em 67% na eleição de 2008. Em 2016, o percentual mais baixo: 47%.

Os novatos sempre tiveram de penar.


FORA DE HORA

A 2 Vara da Justiça de São Paulo deu o exemplo: multou o presidente Lula em R$ 20 mil, pelo crime de praticar propaganda eleitoral fora do prazo. Na festa de Primeiro de Maio ele pediu votos para Guilherme Boulos, candidato à prefeitura paulistana.

Vale a advertência: se o presidente da República é multado, que os próximos infratores ponham a barba de molho…


CONVENÇÕES

Só nesta semana os partidos começam a cuidar das convenções, que vão indicar seus candidatos a vereador, prefeito e vice-prefeito. O período estabelecido pela legislação é de 20 de julho a 5 de agosto. Em Juiz de Fora, o Republicanos definiu-se pelo 25 de julho.


MAIS ESPAÇO

Com toda certeza, o próximo prefeito terá de reavaliar os espaços físicos da Administração. As demandas sempre superiores às disponibilidades. E o aluguel de imóveis particulares nem sempre foi a melhor solução. Ainda agora, o Banco do Brasil pede à prefeitura que desocupe as muitas salas e salões ocupados por Conselhos e outros serviços municipais, na antiga agência da esquina com avenida Getúlio Vargas.

A agência do BB sai da rua Halfeld para dar lugar a um shopping.


NO EMBALO

O presidente Lula promete desembarcar aqui, nesta sexta-feira, para inaugurar, às 15 horas, o viaduto Roza Cabinda, parte do programa de Segurança Ferroviária. Mesmo com três meses de antecedência, ele dá o pontapé inicial para o embalo da campanha eleitoral do PT. Mas é certo que o partido insistirá para que venha uma vez mais, antes da eleição.

Para que se tenha ideia de como são morosas as obras que dependem do governo: esse viaduto está planejado desde os tempos do prefeito Custódio Mattos. Para viabilizá-lo foi preciso juntar MRS e Denit. Alguém tem de dizer isso ao presidente.


O jurista e diplomata Hélio Lobo Leite Pereira (1883-1960), de quem Otávio Mangabeira diria tratar-se de “um dos melhores homens que conheci em minha vida”, nasceu em Juiz de Fora. Na Cadeira 13, foi o primeiro dos três juiz-foranos a tomar parte na Academia Brasileira de Letras. Integrou a comissão de estudos que tratou de litígios Brasil-Peru, e, ainda como diplomata, serviu nos Estados Unidos, Uruguai, Paraguai e França. Servindo na Holanda, ocorreu fato que o celebrizou: estava em curso a Revolução Constitucionalista de 1932, quando ele se recusou a visar documentos consulares destinados ao embarque de armas, que o governo Vargas usaria para combater soldados paulistas. Em carta, de próprio punho, ao presidente, explicou que “não contribuiria para o morticínio de jovens brasileiros que arriscavam a vida na restauração da legalidade”.




terça-feira, 25 de junho de 2024

 



Solidariedade e imprudência


((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil"))

O temor de que sejam ofendidos os sentimentos de solidariedade humana impede, nas relações internacionais, uma discussão mais objetiva, menos sentimental, do problema dos refugiados. O que, vale dizer, tem trazido repercussões e consequências imensas para os países acolhedores, sobretudo na Europa, onde a França, na concessão desordenada de refúgio aos estrangeiros, viu-se, em pouco tempo, habitada por multidões que chegaram, e continuam chegando, sem qualquer compromisso com os bens culturais e os hábitos locais. Hoje, os parisienses são obrigados a interromper o trânsito para que os muçulmanos façam suas cinco orações diárias, um direito que tem de ser respeitado, desde que, para tanto, a vida e as outras crenças não se prejudiquem. O continente europeu, de milenar vocação cristã, vê-se obrigado a remover a cruz da parede das escolas, porque isso não é do agrado dos estudantes maometanos.
No dia 20 passado, que a Organização das Nações Unidas dedicou às migrações fugitivas, o Papa Francisco voltou a pedir ampla abertura nos países livres para receber os que fogem da fome, das guerras, das perseguições políticas; mas podia ter usado seu prestígio para defender, na indispensável contrapartida, que os países hospitaleiros não sejam ofendidos em seus costumes. Os franceses, seus vizinhos, são a principal vítima da ausência de reciprocidades mínimas; e não há voz no mundo que saia em seu socorro, mesmo que sua maravilhosa cultura não pertença apenas a eles, mas à Humanidade inteira, por ser uma das maiores riquezas colhidas pelo engenho humano. O pontífice prestará bom serviço a uma causa justa se advertir sobre deveres mínimos que cabem às multidões recolhidas no mar, doentes, salvas horas antes de morrer de fome ou naufragadas. Talvez fizesse melhor ainda se voltasse seu apelo de fraternidade aos governantes das nações identificadas com o modo de viver dos que fogem.
Os árabes, por exemplo, certamente ficariam melhor convivendo com a raça árabe. Sempre foi objeto de estranheza o fato de esses refugiados não serem atraídos pelos países da mesma língua, dos mesmos hábitos, dos jeitos de viver semelhantes, se não mesmo idênticos. No contraste, constata-se que os maiores exportadores de desterrados da África, em sua quase totalidade muçulmanos, não mandam os povos insatisfeitos para países que rezam pelo mesmo deus. Preferem Alemanha, Bélgica e França, onde, exatamente por essa razão, nas últimas décadas aumentou em 300% o número de mesquitas. O Papa Francisco e outros líderes religiosos do Ocidente ainda não perguntaram ao rei da Arábia a razão de não podem instalar templos cristãos naquele país.
Esse lado da questão é, geralmente, esquecido ou, pior, maldosamente creditado a setores acusados de insensibilidade diante de um problema cuja gravidade, não há negar, está à vista de todos. Mas é a maneira simplista de desviar o tema da realidade. Observemos, por exemplo, um outro aspecto, relegado de tal forma, que sobre isso raramente se fala: as ditaduras, os governos intolerantes, que não gostam de ser contrariados, têm se beneficiado largamente com essas levas de desvalidos que saem em busca de outros lares. Tanto se beneficiam, que os ditadores não se incomodam, não procuram evitar as evasões, se para impedi-las ou controlá-las bastariam simples operações policiais nos portos e nas fronteiras. Mas não; deixam partir indesejáveis famintos e doentes. Longe os populachos, menos problemas internos para nove governos da África, quatro do Oriente Médio e três da Ásia, que são os maiores exportadores das misérias de que querem se livrar.
Para não sair de nossas fronteiras, temos o caso da Venezuela, em permanente crise de alimentos, remédios, empregos e energia. Ora, por que o presidente Maduro cuidaria de impedir que 37 mil venezuelanos cruzassem a fronteira com o Brasil? Exportou para Roraima uma aflição social que vinha batendo à porta de seu palácio. O pitoresco ditador fica devendo ao Brasil a gentileza de assumir um problema que ele próprio teria de resolver; ou apenas permitir que se agravasse, bem ao seu estilo.
É muito pouco tentar reduzir um gravíssimo desafio humanitário ao simples acolhimento de populações condenadas ao naufrágio. Solidariedade, de fato, é ir fundo no problema.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

 


Eleição 2024 em pauta (LXVIII)

SOBRE A DIREITA
Políticos, empresários e partidos de direita e direita moderada têm uma data-base de destaque em seu calendário. É o 6 de setembro, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro estará aqui, para
relembrar, anos depois, o dia em que foi esfaqueado na Rua Halfeld. E, na mesma esquina do atentado, lançar a candidatura a prefeito do ex-deputado Charlles Evangelista, do PL.
O que os direitistas estão pensando a esse respeito? Primeiro é que, naquele dia, faltando exato um mês para a eleição, o painel das preferências da cidade em relação aos candidatos já terá indicações mais precisas sobre quais os dois que vão subir ao segundo turno. É quando também uma parcela insegura de eleitores dos não cotados começa a analisar alternativas. Principalmente se vingar o fenômeno da radicalização entre PL e PT. É a migração dos que “não gostam de perder o voto”…
Seja como for, as correntes de direita acham que não estão diante de uma jornada de facilidades, mas também longe da orfandade. Raciocinam: o candidato Charlles, além do apoio dos bolsonaristas, pode atrair os eleitores que priorizam o voto contra o governo Lula. Escapando dele, a tendência seria o voto para Ione Barbosa, que não reza na cartilha petista, é do agrado das igrejas evangélicas, simpáticas a Bolsonaro.
Há uma outra linha de raciocínio, esta mais de natureza especulativa. Se o candidato a vice-prefeito na chapa do PT for o empresário Marcelo Detoni, indicação do PSB, a direita viverá a boa expectativa de ele assumir, no meio do mandato.

SEM RADICALIZAR
O empresário Wilson Rezende, que, disputando a prefeitura em duas oportunidades, esteve muito próximo da vitória, ainda não disse se, mesmo sem ser candidato agora, terá contribuição ativa na próxima campanha. Mas, participando, no restaurante Sublime, do programa televisado Não Almoce Sozinho, com Mauro Cavaca, ele deixou um recado para quem estiver na luta de outubro: a grande questão é discutir temas de interesse da população; portanto, “não adianta a radicalização, que não resolve”.
O recado faz sentido, diante dos sinais de que, priorizados os temas nacionais, o futuro dos interesses da cidade fique relegado a segundo plano.

SEGUNDO TURNO
A acuidade dos observadores políticos mineiros revela, 100 dias antes da eleição para as prefeituras, que dificilmente escaparão do segundo turno Belo Horizonte, Juiz de Fora, Betim, Uberaba, Montes Claros e Ribeirão das Neves.
Todos com mais de 200 mil eleitores inscritos.

TEMA PREFERENCIAL
A pré-candidata a prefeita Ione Barbosa tem usado as redes sociais para criticar os serviços de transporte coletivo urbano. "O transporte público na cidade está em uma situação crítica: veículos sucateados, atrasos constantes, ônibus lotados e interesses políticos. Isso impacta, diretamente, a vida dos cidadãos que dependem desse meio para trabalhar, estudar e viver”.
Nesse campo, a prefeita Margarida se defende, fazendo lembrar o congelamento da tarifa desde o início de seu mandato, mediante subsídio municipal e a gratuidade da passagem aos domingos e feriados.
As duas, liderando as pesquisas, inteiramente contrárias diante do mesmo problema, permitem concluir que os ônibus vão estrelar a campanha.

REVERSÃO
Amigos e correligionários do vereador Maurício Delgado, do Rede, insistiram e, por fim, conseguiram fazer com que reconsiderasse a decisão de não disputar a reeleição. Vai disputar, apesar das decepções com a política. O que significa, então, que todos os 19 vereadores disputarão um novo mandato, salvo se, por força das circunstâncias, um deles sair para uma vice em chapa de candidato a prefeito.

OS CATÓLICOS
O arcebispo, dom Gil Antônio, fixou para setembro a divulgação de uma carta, destinada, principalmente, aos eleitores católicos, para advertir sobre a responsabilidade que terão, na hora de definir preferência em relação aos candidatos. Não divulgaria antes, até porque é preciso esperar que todos estejam indicados pelos partidos.
Segundo o metropolita, a mensagem não deixará de abordar questões essenciais na responsabilidade do voto, começando pela defesa dos princípios da democracia, além de questões sempre caras à Igreja, como moral e probidade no trato da coisa pública. Inevitável uma abordagem sobre o aborto, tema que voltou à discussão.
Não haverá indicação de nomes, nem de partidos, tarefa a ser confiada à responsabilidade pessoal de quem vota.

ENTRE FAMÍLIAS
Do Jornal do Brasil vem a advertência de que “no mesmo dia em que o calendário eleitoral determinou a desincompatibilização de servidores que vão concorrer, em outubro, o Supremo Tribunal Federal derrubou, por 7x4, uma ação que pretendia impedir a consanguíneos ocupar, simultaneamente, cargos executivos e legislativos, tanto no âmbito federal como nos estados e nos municípios. Bem pensado, o que a ação desejou impedir - o uso familiar de cargos para proveito entre parentes – era um instrumento a mais destinado a garantia pleitos hoje com escassa seriedade”.
“À sombra das bênçãos do Supremo, o que vamos assistir, em outubro, com toda certeza, é a ampliação de abusos, sobretudo nos rincões distantes, que estão a salvo dos olhares mais críticos. Cônjuges, filhos, irmãos e cunhados consolidarão oligarquias, por onde passam e prosperam o nepotismo e o tráfico de influência. Basta observar os casos, que não são poucos, em que as câmaras municipais estão presididas pelos maridos de prefeitas, por esposas ou filhos dos prefeitos. Como esperar que o Legislativo cumpra a obrigação de fiscalizar o Executivo?, por esse Brasil afora, se as coisas podem ser facilmente acertadas durante um jantar em família”…

Não há quem, passando pelas ruas centrais, não se escandalize com o número de mendigos; e, se à noite, com a população dos que dormem junto às portas das lojas. Dois prefeitos, Custódio Mattos e Tarcísio Delgado, enfrentaram com coragem o problema, sabendo que muitos dos abandonados procediam de cidades vizinhas. Já bastando os que temos aqui, era preciso devolvê-los às cidades de origem.

Hoje, ainda não se sabe o que os candidatos vão dizer a respeito, mas Isauro Calais diz que a triagem é fundamental, como primeiro passo para encarar o desafio.

O problema sempre existiu, menos na administração José Procópio Teixeira (1916-1926). A solução foi a seguinte: um convênio entre a prefeitura, que pagava as despesas; a polícia, que tirava os mendigos das ruas; as entidades conveniadas, que acolhiam. O Brasil inteiro elogiou.

terça-feira, 18 de junho de 2024

 



Culpas e desculpas

((Wilson Cid, hoje, no "Jornal do Brasil" ))

Há uma crença, no ralo das experiências políticas, que, se as opiniões são unânimes, melhor é deixar o problema para depois, adiar a providência que parece ser necessidade imediata; porque é na maturação que a solução brota. Pode ser, mas não desta vez, quando é inegável que o governo precisa rearticular, o mais rápido possível, suas relações com o Congresso e áreas produtivas, sob pena de ver crescerem as dificuldades, que, já hoje, tanto preocupam. É urgente debruçar sobre a forma de melhorar o diálogo e garantir resultados, sabido que há meses mostra-se fracassada a receita adotada, à custa de robustos favores a partidos, que só informalmente e ocasionalmente compõem a base parlamentar. Tudo isso, agravado desde a semana passada, quando o presidente e seus colaboradores empurraram para o colo de senadores e empresários a responsabilidade de criar alternativa compensatória, frente à desoneração das folhas de 17 setores com altos índices de emprego. Como Pilatos, lavam as mãos antes a incapacidade. Um inusitado jogo entre culpas e desculpas. Não se tinha visto algo semelhantes: já que uma proposta é recusada, em parte, no parlamento, que se jogue sobre ele missão que, preferencialmente, não lhe cabe.
Restou, em meio a fogos cruzados, o escalpelo do ministro da Fazenda, bombardeado por lideranças empresariais e políticas, sem que lhe faltem hostilidades vindas das entranhas do próprio governo. Com esses amigos de casa, o conturbado Haddad pode se dar ao luxo de dispensar inimigos. A nenhum outro, no atual governo, confiou-se tanta batata quente.
De fato, espalhando farpas, os episódios mais recentes sepultaram o modelo de convivência entre os poderes Executivo e Legislativo, com a particularidade perturbadora de votarem contra o governo exatamente os partidos da base. É interessante o caso do União Brasil, que ocupa três ministérios, mas não consegue corresponder às gentilezas. Portanto, fica visto que essa história de dar cargos e generosas emendas para garantir votos não funcionou; até porque, quando as relações estão pautadas nesse modelo, os que recebem acabam querendo mais.
Mandar embora os culpados infiéis, como querem alguns setores petistas menos tolerantes, é abrir portas para agravar um problema ampliado. Há conselheiros que levam aos ouvidos do presidente a ideia de se adotar a forma simplista do olho por olho; esvaziar os ministérios de partidos hereges, que já tiveram tempo para corresponder à confiança. E não o fizeram. Mas a gente sabe que a solução não é simples assim. E o presidente também deve saber que, mesmo se decretar a morte da base de apoio inoperante, é exatamente por aí que tornará mais volumosas as dificuldades. Fácil prever. Os deputados e senadores, se hoje não apoiam, estarão liberados para retaliar e hostilizar. Tudo para agravar o que já anda grave. Não apoiavam, o que era ruim; se ficam contra, pior.
Não há variadas saídas para a remoção do impasse, mas é certo que conversas com dirigentes partidários e lideranças vão continuar incapazes de superar os principais obstáculos, entre eles os vetos derrubados, mensagens alteradas na essência e as procrastinações. Desafios testando o humor do Executivo, principalmente quando estão em pauta pontos sensíveis da política econômica.
Observe-se, a propósito da raridade de alternativas para a interlocução, que uma contínua progressão dos contratempos acabou se isolando em um dos contendores. Talvez valesse a pena conversar sobre isso – a real extensão da crise e embaraços generalizados - com os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, que têm influência decisiva sobre o andamento dos trabalhos congressuais, além do dever de conduzir as casas a preservar, convenientemente, questões que dizem respeito à moderação nos momentos críticos das instituições. Faça-se ao governo a oposição que convier, mas sem vinditas, muito menos esse desastroso e inovador jogo de empurra que estamos vendo. O senador Rodrigo Pacheco e o deputado Artur Lira deram demonstrações de que conseguem acalmar o Congresso, em horas delicadas. Deviam orientar sua influência para se estabelece outra regra de diálogo, algo que têm direito de cobrar, também, do irritadiço presidente Lula, de quem, muitas vezes, saem declarações confusas e desafiadoras; outras provocantes, mas sempre longe de contribuir para serenar os ânimos. Quando se trata da palavra, ele tem sido adversário pertinente da prudência, coisa que na política é receita para perturbações, como a que se tem visto agora. Ao presidente conviria desintoxicar-se.