terça-feira, 7 de fevereiro de 2017






Risco do caos


Problemas sociais acumulados e os temores no campo das instituições estão a exigir,hoje  mais do que nunca, a produção de uma reforma política corajosa, tarefa que cabe, em primeiro lugar, ao Congresso Nacional; mas ajudaria muito se contasse com a força do presidente Michel Temer. Nos últimos dias ouvem-se, nesse sentido, vozes sensatas de gente realmente preocupada. Na noite de segunda-feira, entrevistado na TV Câmara, o deputado tucano Marcus Pestana foi além. Ele previu nossa entrada num clima político caótico se nos próximos meses não se fizer essa reforma, a mais prometida e nunca realizada. Pestana vai além, e acha que a situação pode se tornar insustentável já dentro de seis meses.

Um dos itens da reforma, que precisa ser cumprido integralmente, doa em quem doer,é a cláusula de  barreira, sem a prometida contemporização da chamada federação de partidos, porque com essa válvula de escape continuarão, com outro rótulo, as mesmas distorções, entre ela o acesso aos fundos partidários e os conchavos hoje patrocinados pela eleição proporcional que autoriza o escândalo de eleger quem o eleitor não quer.

Esse grave defeito leva a constatar que hoje a Câmara dos Deputados abriga 27 partidos. Muitos deles estão lá apenas porque pegaram carona em alianças construídas em cima de interesses nada ortodoxos.

A barreira tem de ser rigorosa e sem condescendências. Como na Alemanha: partido que não atingir 5% não tem voz, nem voto, nem cadeira no parlamento.




Efeito cascata  


Essa grave insegurança pública que atingiu o Espírito Santo, produzindo um clima de guerra civil e execuções em série, precisa servir de advertência aos governos federal e estaduais, não apenas por causa fato localizado, mas também por expor que o Brasil sinaliza para um estado nacional do crime instituído. O País está sob um banho de sangue, que começou com as tragédias no sistema penitenciário do Norte, passam pelo Rio e São Paulo, saltaram para o Rio Grande e Santa Catarina, e agora desembarcam no estado capixaba. Efeito cascata, que prospera graças ao desaparelhamento das polícias, os escassos contingentes e a corrupção que deles tomou conta.

Forçado a tomar providência, o governo federal lança mão das tropas militares, que não podem e nem devem ficar longamente à disposição das crises urbanas, até porque não são treinadas para tal missão.

Há alguns caminhos, já muitas vezes discutidos, mas sem jamais perderem oportunidade. Um deles é um severo controle da carceragem, que em quase todo o País tornou-se conivente ou associada ao crime. Não menos discutido seria o controle de nossas vastas fronteiras, permanentemente abertas ao tráfico de armas e drogas. Mas, acima de tudo, precisamos de leis mais severas e menos tolerantes com o crime e seus agentes. É preciso acabar com a festa da impunidade, que no dia seguinte ao crime liberta o bandido para que ele continue na rua matando e roubando. 








domingo, 5 de fevereiro de 2017






Recordista


Nas duas primeiras semanas na presidência dos Estados Unidos, Donald Trump já produziu mais problemas para a chancelaria que qualquer de seus antecessores em tempo de paz. Começou brigando com o México, passou pela Austrália e Irã, além de mandar recado para a Coreia do Norte, que ele promete eliminar do mapa se houver necessidade de represália. Trump Já tem problemas com a oposição inglesa, e é visto com reservas pelos alemães e franceses. Pelo visto, considerada tão agitada estreia, o pessoal do Departamento de Estado vai passar todo o tempo jogando águas frias e panos quentes nas iniciativas presidenciais.


Volver


O presidente MIchel Temer, quando assumiu, carregava a esperança de uma drástica redução no número de ministérios, muitos deles sedes de históricas ociosidades. Mas agora, reconsidera aquele objetivo inicial e cria ministérios cujas funções podiam perfeitamente se abrigar em secretarias especiais. Percebe-se que Temer continua, pela via da criação de cargos, acomodando as insaciáveis postulações políticas dos aliados.


Tucanagem


O PSDB não está brincando em serviço. Vai tomando posições importantes no governo federal, e, parece, já provocando preocupações no PMDB, partido do presidente Temer. Mas é um fenômeno que não tem sido visto apenas em Brasília. Igual avanço se percebe em vários estados e municípios administrados por peemedebistas.


Os culpados


Quando o Ministério da Justiça (agora também da Segurança Pública) relaciona, sob perplexidade geral, as coisas que são recolhidas nas celas do sistema penitenciário, também indica, com clareza cristalina, que os grandes culpados são os agentes penitenciários e carcereiros, que fazem vistas grossas para a tolerância criminosa. E para tanto são subornados.  Não fosse isso, não fosse o concluiu desses maus funcionários, como se explicaria a presença nas celas de fogões, geladeiras e televisores? Se é possível entrar tudo isso, quando mais armas e drogas. 



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017





 Velha corrupção


Nestes tempos de corrupção escancarada vale a releitura de "A Coroa, A Cruz e a Espada", onde Eduardo Bueno nos conta os primeiros tempos dos portugueses em Salvador, um cenário de grande escândalos dos quais nem os jesuítas conseguiram escapar, ainda que condenassem os desvarios de seus patrícios e  dos gentios.

Lê-se que a construção da capital baiana, quando o Brasil tinha apenas meio século, custou certa de 400 milhões de reais, um terço do tesouro da Coroa. Onde foi parar tanto dinheiro? Ora, boa parte a corrupção comeu, principalmente pelos poderosos, os dois homens mais influentes logo abaixo de Tomé de Souza: o provedor Antônio Cardoso de Barros e o ouvidor-geral Pedro Borges.

Mas, por que revirar essas velhas cinzas, se desvio de verbas e propinas são artigos tão fartos em nossos dias? A razão reside numa fácil constatação: ao contrário dos bandidos da atualidade, os antigos não abriam mão de uma certa dose de compostura. Eis a diferença. Roubavam, mas discretamente, nunca deixando sinais de sua perversão. Em geral roubavam apenas o suficiente para uma vida confortável ou, quando muito, para construir a poupança para o dia em que pudessem rever Portugal.

Nos nossos dias não há medidas no assalto aos cofres públicos. Assalta-se
delirantemente, e só por isso é possível compreender um Sérgio Cabral comprando R$ 125 mil em ternos italianos ou guardando R$ 12 milhões em diamante num saco plástico, fora os milhões escondidos no Exterior. Mesmo em passado mais recente, sem sair do Brasil, os assaltos eram praticados com um mínimo de comedimento.

Coisa que hoje não faz parte do breviário dos nossos homens maus.

Talvez por se acharem intocáveis, impunes. É o que certamente explica o clamoroso descuido de um Eike Batista, que com tanto dinheiro, dos  mais ricos do mundo, não pensou em comprar um diploma de curso superior numa dessas faculdades de fim de semana, o que hoje lhe teria garantido cela especial em Bangu. Soma-se a tudo isso um outro castigo, que caminha ao lado do dinheiro bandido: a arrogância.

Como eram arrogantes esses nossos corruptos.


 Previsão


Neste blog foi anunciado previamente, em 29 de dezembro, sobre a possível influência do Grupo Odebrecht na eleição do Senado, e as possibilidades de Renan Calheiros de continuar influente na Câmara Alta, Aquela nota vai transcrita abaixo:

A eleição no Senado


O empreiteiro Marcelo Odebrecht (mesmo encarcerado) deverá indicar o novo presidente e o novo líder do PMDB no Senado, segundo especulações de bastidores da política em Brasília. De acordo com estas fontes (não oficiais) a bancada do Grupo Odebrecht no Senado é formada pelos senadores Renan Calheiros, Romero Jucá e Eunício Oliveira; senadores peemedebistas que foram citados em depoimentos de colaboração premiada, por executivos da citada empreiteira, conforme vazamentos de informações à imprensa. Eles foram acusados de comercializar leis e medidas provisórias (os 'jabotis') e de receber propinas em nome do correligionário e presidente Michel Temer.

Quem fez o comentário (por rede social) foi o senador Roberto Requião (PMDB-PR), que também pleiteia a presidência do Senado. A eleição será no dia 1º de fevereiro.


O senador Renan Calheiros (AL), por exemplo, luta para ficar com a poderosa CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) e, na pior das hipóteses, com a liderança do PMDB. O Senador Eunício Oliveira sonha com a presidência do Senado, mas está nas listas oficiosas de envolvidos com a corrupção na Petrobrás."





sexta-feira, 27 de janeiro de 2017






Xenofobia


Esta foi uma semana em que, ao lado de muitas razões para o mundo se preocupar, ganhou sinais de agravamento a onda de xenofobia, ódio aos estrangeiros, fenômeno que se deve creditar aos primeiros dias do governo Trump nos Estados Unidos. Começando pelos mexicanos, com previsão de que em breve será mais restritiva a política de discriminação frente aos muçulmanos, o presidente não perde oportunidade de proclamar “América para os americanos”, isto é, para os ianques, porque em geral o governo de Washington acha que América é o pedaço que lhes coube. México e os países latinos seriam meros agregados.

Donald Trump impressiona nesse particular. A começar porque Melanie, sua bela mulher, nascida e criada na Slovênia, é mais estrangeira que qualquer cidadão do continente americano. Trump dorme sotaque estrangeiro.

Em relação aos primeiros dias do indigitado presidente, não custa uma previsãozinha despretensiosa: a menos que ele adote rumos diferentes, bem diferentes, o mundo não será o mesmo depois dele.


 Pichadores


O novo prefeito de S.Paulo, João Dória, resolveu partir para um acerto de contas com os pichadores, essa gente que emporcalha as grandes cidades, geralmente escudada pelo rótulo de praticantes da arte popular, o que é uma hipocrisia banal, inaceitável. Parece que em outros lugares outros prefeitos pretendem seguir sem exemplo. Não é sem tempo.

O direito que se pode conferir a esses criminosos é o pichamento das casas onde moram, dos muros que os cercam. Nunca o direito de pintar tolices em paredes e muros de propriedades alheias. Polícia neles!


Escândalo


Talvez preocupados apenas com a Lava-Jato e os bandidos da indústria da propina os brasileiros ainda não revelam maior preocupação com a febre amarela, que lhes parece apenas um drama localizado, coisa para os mineiros resolverem por sua própria conta. Mas a febre amarela é um escândalo. Morrer como ratos em pleno século 21  é fato escandaloso a denunciar o pouco-caso dos governos com a política de saneamento básico. 







quarta-feira, 25 de janeiro de 2017




Cascatas e imitações



Faz parte dos registros de nossa história recente. A economia produtiva de Juiz de Fora gosta de prestar vassalagem aos fenômenos cíclicos, entusiasma-se com a onda dos negócios e com a concorrência. No final do século 19 os bancos achavam que podiam ter o mesmo destino exitoso do Crédito Real, entraram na aventura e fracassaram. Décadas depois, quando o Sindicato de Fiação e Tecelagem promoveu um congresso nacional dos industriais em Juiz de Fora, o presidente da entidade, José Batista de Oliveira, fez uma advertência ao empresariado local: a opção negativa que faziam, em efeito cascata, por conservar máquinas e equipamentos em total estágio de obsolescência acabaria levando a produção de Juiz de Fora a perder para São Paulo, onde as indústrias do setor modernizavam-se a passos largos.

Nada diferente do que se veria pouco depois na Associação Comercial, onde Francisco da Cruz Frederico chamava a atenção dos comerciantes para a devastadora concorrência dos supermercados que estariam chegando em breve.  O comércio precisava se ajustar aos novos tempos e unir capitais para concorrer com os grandes grupos. Não foi ouvido, e hoje mais de 88% das vendas estão concentradas em supermercados. Eletrodomésticos e utilidades caíram em mãos de organizações nacionais que, escudadas pelo poder de crédito e estoques em alta escala, permitem impor preços asfixiantemente  competitivos.

Naquela mesma época, meados da década de 50, um jovem chinês, Ling YU, que todos preferiam chamar de Paulinho, abriu uma pastelaria na Galeria Pio X. O grande sucesso que obteve despertou a concorrência, e logo a cidade se encheu de pastelarias. Nenhuma delas sobreviveu. Tempos seguintes, bastou um coreano entrar de novo no setor para que de imediato surgissem dezenas de pasteleiros.

Foi a partir daí que a cidade amarelou e se abriu de vez aos asiáticos, estes também adeptos do efeito cascata. Suas  bijuterias é que estão na moda.


Para não desmentir o velho efeito da imitação: há meses  simpática vovó abriu uma casa de bolos, ao perceber que as donas de casa já não mais dispõem de tempo para tal mister. Pois já despontam dezenas de fabricantes de bolos no centro e em vários bairros. Assim é, porque assim sempre foi. 





segunda-feira, 23 de janeiro de 2017






Travestido de gari


O prefeito paulistano João Dória (PSDB) parece mais preocupado com a imagem que propriamente com o enfrentamento dos graves desafios que esperam o mandato. Em seu primeiro dia de trabalho à frente da prefeitura vestiu-se de gari, participou de um evento de limpeza no centro e prometeu que vai repetir o gesto em várias regiões da cidade toda semana. Depois saiu pintando faixas em uma avenida de grande movimento, certamente para ser visto.

O gesto do prefeito é criticado nas redes sociais. Acham os críticos que é apenas marketing político, e com o tempo ele precisará dar respostas mais consistentes para os graves problemas das áreas urbanas, onde o “gari por acaso” está focalizando neste momento.

As situações complexas das regiões degradadas requerem intervenção técnica, que envolve políticas públicas, tais como assistência social, uso e ocupação urbana e regulação de atividades.

Dória ainda vive os momentos iniciais da posse festiva. Em seguida virão os problemas exigindo soluções que o marketing não resolve.



Esforço petista


Quem acompanha comentários nas redes sociais observa o esforço camaleônico do PT de transformar a realidade a seu favor. É algo arquitetado pela direção partidária.

O mantra agora é política de gênero, que pra eles explicaria o crime do diplomata grego, a chacina de uma família em Campinas, a morte do homem no metrô de São Paulo e a rebelião em Manaus! 

No fundo, o discurso é de que se o PT estivesse no governo os direitos humanos estariam protegidos pelas políticas de gênero. Se não está no poder, é a barbárie! 



Filme antigo


Aterrorizante o discurso com que o novo presidente dos Estados Unidos inaugurou seu mandato, quando preferiu o pronunciamento populista a um discurso escrito, como se exige em eventos formais e oficiais. Raivoso, desafiador, ameaçador, xenófobo, intolerante religioso e distribuindo promessas delirantes. Os mais idosos não terão dificuldade em lembrar que coisa mais ou menos assim ouvimos em Munique, 1933, quando outro delirante atacava os sionistas, os estrangeiros e achava que, tal como Trump hoje considera os mexicanos, os judeus tinham de ser expulsos. Filme antigo, reeditado, no qual o ator principal teve a seu favor apenas uma bela mulher ao lado.









segunda-feira, 16 de janeiro de 2017






Crise orquestrada



O fato de as tragédias penitenciárias estarem pipocando em pontos diversos do País, com idênticos sinais de desafio às autoridades do setor, somando-se a isso condutas de crueldade medieval assumidas pelos criminosos, revela que estamos  diante de uma crise orquestrada, simultaneamente inspirada e comandada por fatores externos e internos, isto é, de dentro e fora dos muros dessas casas sinistras. Internamente, as facções criminosas se eliminam em nome do controle das celas, mas há evidências de que organizações além dos presídios influem, por interesses diversos, como o comando do contrabando e do tráfico. Não seria ousadia dizer que nem a estabilidade do governo Temer está fora do alvo dessa crise. Absurdo? Certamente que não. A matança que se vê nestes primeiros dias do ano pode estar interessando a grupos ou partidos empenhados na desestabilização. Se não tanto, - quem sabe, - até uma tentativa de levar o Ministério da Justiça a mandar para casa vários criminosos políticos, como forma de esvaziar as celas ocupadas por bandidos do colarinho branco. Um argumento malandro, fútil, mas nem por isso pode ser descartado. Nada é impossível neste Brasil dos dias que correm.

Quando se fala na possível intenção de enfraquecer o governo a partir do caos penitenciário, é importante perceber como sinaliza o esforço de alguns setores em atirar todas as culpas sobre os ombros do novo ministro da Justiça, como se lhe coubessem responsabilidades, por exemplo, na superlotação das celas, problema secular, que todo dia se agrava um pouco mais.   O inferno da superlotação sobreviveu a todos os governos anteriores, e não haveria mesmo de ser solucionado por governantes que apenas acabam de chegar. Eles têm de agir, devem ser cobrados pela sociedade, mas, por agora, só podem ser condenados se cruzarem os braços, o que não é o caso.


Não seria inoportuno lembrar que as condições desumanas do estabelecimento penitenciário de Juiz de Fora em nada ficam devendo à paisagem caótica que se traçou em outras partes do País. Ponhamos nossas barbas de molho.