quarta-feira, 20 de julho de 2016






O terrorista


Crônica de Carlos Drummond de Andrade, publicada há 36 anos, levou o poeta a tentar definir o perfil do terrorista, de sinistra atualidade. Assunto antigo, do qual também se lembrou, tempos depois, o embaixador Rubens Ricúpero. O terrorista de nossos dias se revela bem diferente de métodos e das ideias dos seus antecessores, como aqueles terroristas anarquistas regicidas que Chesterton analisou em 1908.

Eis um tema a ser examinado com cuidado, dada a complexidade de seus matizes, o que não exclui “reduzir a proporções realísticas certa onda apocalíptica de pânico exagerado”. Uma onda na qual ainda não mergulhamos, mas podemos estar a caminho.

Há muito que analisar em torno do terrorismo do momento, a começar pelo impensável e contraditório: logo a França, a mais hospitaleira e tolerante com os muçulmanos, cedendo-lhes até o culto a certas tradições, nem por isso deixou de ser sua principal vítima.

Nessa análise, não deixar de considerar a lição de Enrico Malatesta, para quem os princípios por meio de atos são mais eficazes que a propaganda da ideia. Tal qual temos visto hoje.  

O terror atual, ao contrário dos assassínios de reis e príncipes antigos, vem trazendo forte sentido simbólico. Matar em Nice, derrubar as torres de Nova York, explodir um aeroporto ou uma boate em Paris são covardias capazes de enriquecer o currículo de um terrorista, muito mais que atentar contra a nobreza. O símbolo é forte, como seria dinamitar Greenwich, símbolo da pretensão burguesa de domesticar o tempo.

Voltemos a Drummond:

“Ser terrorista é ser maniqueu cego.  Porque ao mal deu o nome de bem e ao bem deu o nome de mal. A consequência é o terror íntimo que se desdobra no terror externo.  

O terrorista é um aterrorizado?

Sim, o terrorista é um aterrorizado, porque passou a ter medo da vida na variedade de suas opções.

Que pretende o terrorista em ação?

Pretende, em primeiro lugar, dar vazão ao seu próprio terror, projetando-o. Em segundo lugar, pretende passar do terrorismo de baixo para o de cima, e ao de cima para baixo. O projeto do terrorista é demolir o estabelecimento cheio de erros para instituir outro estabelecimento que seja o Erro Total. Uma utopia com alicerces no sangue e no ódio.

De qualquer sangue?

De qualquer, mas de preferência o sangue dos inocentes. Porque os inocentes são sempre os mais vulneráveis.

E em segundo lugar?

Por ser maior o prazer do mal convertido em bem para o seu gosto. Ele sente prazer na descarga emocional e na ilusão do domínio.

E qual a fórmula para resolver o problema?

A solução não está em fórmula, está na vida.

É possível reeducar um terrorista?

Ainda não se encontrou o tratamento científico para ele. Mas pode-se educar o jovem para não ser terrorista.









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